O cardápio de corações.

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Interagimos com as pessoas do trabalho, da faculdade, da academia, e o cotidiano transforma toda essa experiência em corriqueiro de forma tal, que nada mais parece novo. A falta de surpresa nos afasta da realidade,e de repente estamos vivendo num universo paralelo, que ironicamente não tem surpresa alguma, é tudo planejado, filtrado, programado do modo como desejamos. Todo um universo conspirando pra suprir nosso ego.

Mesmo numa cidade que nos força a conviver numa multidão constantemente, ainda assim  nos voltamos pra nossa própria solidão: A telinha do nosso celular, os vidros fechados do nosso carro, sempre o mesmo grupo restrito de amigos, sempre as mesmas escolhas. Uma infinitude de pessoas e todo mundo assim, tão só, absorto em seu mundo particular.

E foi num dia desses, numa das raras situações em que não estou trancada na minha bolha imaginária que eu o avistei:

Ele era tão lindo, e me olhava com tanta vontade que eu tive certeza que na menor possibilidade e oportunidade, nos atracaríamos loucamente. Sim, eu, que costumo ter uma listinha de verificação pra homens, estava ali desejando um só por sua aparência e sorriso safado, e depois me dei conta que há muito, muito tempo não curtia um cara real, um desses que a gente vê na rua e gosta porque gosta, e quem sabe, na loteria da vida, a gente conhece e rola de dar muito certo, rola de ser muito igual…

Atualmente com essa vida corrida, em que todo mundo se agarra a ferramentas otimizadoras, se tornou muito comum tratar até mesmo das coisas amorosas , de forma informatizada , e eu me incluo nesse universo, não pensem que estou me isentando não.

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São muitas opções: Facebook, Tinder, Badoo, twitter, Instagram,ok Cupid…Uma infinidade de vitrines virtuais pra criar em nós a ilusão de que estamos abalando o Bangú. Sim… Ilusão. ISSO MESMO! ILUSÃO!

A gente olha pra aquela infinidade de pessoas, vê mil filtros, mil formas de buscar e escolher as que melhor se adaptam à gente, e isso nos dá uma sensação de controle, de abundância, isso nos faz crer que todos aqueles rostos ali expostos como pedaços de carne, estão à nossa disposição, esperando avidamente pelo nosso “sim”, pelo convite mínimo pra entrar nas nossas vidas.

E quantas vezes, afundados no capricho, dispensamos um ou outro por um motivo bobo, porque ele não gosta da nossa banda predileta? Porque pela foto ele tem a orelha esquisita? Porque se veste excêntrico demais? Porque ele é vegano? Porque… Por quê?

Se antigamente a internet se mostrava como excelente alternativa na paquera, se houveram muitos casamentos oriundos dos confins da internet, hoje em dia, com cada vez mais ferramentas, cada vez mais opções, as coisas ironicamente estão cada vez mais difíceis. É a era da massagem do ego, do excesso de exigências, do descartável, das aparências. As pessoas criaram ideais tão extremos de seres humanos, que não existe pessoa real capaz de suprir esse ideal;

As pessoas perdem tanto tempo idealizando a perfeição, que se esquecem de viver o mundo real, um mundo com estrias, celulites, orelhas de abano, odores, defeitos, pobreza,conflitos e frustrações.

A realidade é que esse mundo informatizado criou toda uma geração de pessoas mimadas, focadas demais na própria satisfação, e egoístas demais pra olhar pros próprios defeitos.

Somos todos criaturas carentes com um pau na mão diante de um04 - MEDIANEIRAS site pornô, procurando desesperadamente pelo filme perfeito, mais excitante, mais envolvente, e tão distraídos na procura, latejantes, acabamos por fim, gozando antes dos cinco minutos iniciais de qualquer filminho vagabundo, escolhido às pressas porque ficou tarde demais.

E é por procurarmos demais que acabamos sozinhos, é por idealizarmos demais que vivemos na ilusão, é por querermos viver uma história perfeita de filme Hollywoodiano, que já nem vivemos, nem existimos. Uma vida sem memórias, um universo borbulhando na nossa cabeça enquanto estamos parados à frente do computador, como verdadeiros robôs.

Todas as facilidades da internet, muitas opções, que nos tiram as opções, e por achar que temos tanto, é que passamos tempo demais planejando a situação perfeita. Tempo demais sozinhos, escravos da autonomia que a abundância nos trouxe.

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