Rima do assédio sexual- As aventuras de uma mulher no ambiente corporativo.

Eles  sempre me disseram que eu teria que me esforçar mais, que eu teria que ir mais longe, que eu teria que ser mais.

E ter mais para oferecer, e para dar.

Eu eu entrei nessa corrida assim como as outras, amarrada por tudo aquilo que carrego e não escolhi ser. Meu útero, minha cor, minha classe social,

minha ausência no poder

Nós mulheres começando e eles já chegando no final.

Mas eu chego lá também

Nós chegamos lá também

Me disseram.

Sempre me disseram…

Mas mesmo que não me dissessem, eu teria sentido no útero.

Me disseram que eu precisava deixar de ser fútil,

focar na minha inteligência, usar o meu tempo útil, eu deveria focar no meu cérebro e não no meu corpo.

Porque sou mulher e sendo mulher é necessário se esforçar em dobro

E quando eu fui pro mercado de trabalho oferecendo só meu diploma, minha competência em troca de um salário

Só com minha força de vontade, meu esforço e minha gana, me disseram que eu “não tinha o perfil”,  eu não conseguiria passar funil …

Sucesso profissional: Sem me adaptar, eu não conseguiria chegar.

Eles falaram que eu tinha que passar segurança, que eu deveria mostrar convicção em mim mesma, ser original, arrojada, ter auto confiança…

Mas quando eu me mostrei foi tudo uma guerra, me pediram um corpo mais magro, uma pele mais clara,  um cabelo mais liso,uma roupa mais cara… E foram tantas adaptações, que  “quem eu era”, quase se perdeu no meio do caminho.

Para ser aceita em uma empresa que me pagasse muito bem, eu precisava investir em mim, parecer aquém, me fingir rica, me tornar refém de todas as coisas que me causavam nojo

e mostrar que no fundo morro, só pra ganhar o pão que alimenta meu viver

“Ah eu trabalho por prazer”

“Foi escolhida por merecer e não porque precisa trabalhar”

Se matando de estudar e se conformando com pouco, porque o prazer não exige muito

Tem que se prostituir para as corporações mas não pode gozar

Porque trabalho não comporta prazer, mas tem que fazer.

 

Disseram que mulheres ganham menos porque trabalham menos, porque têm TPM, cólicas, dor de cotovelos …

Somos um turbilhão de sentimentos  com a qual eles têm que lidar…

Pra me adaptar,  eu sufoquei minha feminilidade, ignorei minhas verdades, fiz vista grossa para atrocidades… Só para eles não terem que lidar.

Me sujeitar a sufocar

Minha humanidade

Que humanidade? Eu quero ser chefe

Humanidade?Pior! Minha feminilidade,

só pra fazê-los me respeitar, mas o respeito deveria ser mandatório.

Mas não é… Simplesmente não é

Justificaram a desvantagem dizendo que sou mulher

mulheres sempre têm filhos e casamentos , fazem corpo mole, que é vagabundagem…

Mas quando eu abdiquei dos filhos pela carreira não entenderam

Me chamaram de egoísta , insensível e que só queria curtição , que era uma mulher que não arcava com as próprias responsabilidades e o quão cruel era minha decisão

Eu ignorei meu útero e a carga que eu carreguei só por ser mulher,

Fui a solteirona centrada em si mesma, estudando e focada na própria vida, tinha até minha própria mesa

Uma psicopata, mas dizem que é bom quando psicopatia é em nome da empresa

E além do mais, eu sou chefe?

Chefe?

“Ah criança, recolha-se à sua insignificância, você só vai onde a gente deixar”

E se ele deixar

“Seu salário é mais baixo que o nosso, pára de se gabar”

“Você nunca chegará no mesmo patamar do que eu”

Esqueci de mim, e dos meus fins quando comecei…

Surtei, desacelerei e questionaram meu comprometimento por não ter necessidades por que me aprisionar.

Me mandaram liderar…

Mas liderar como um homem , engolir minha sensibilidade, converter meus medos e inseguranças em força, superar as adversidades, destruir as outras moças

E eu fiz o que eles pediam pra alcançar o que todos eles tinham com muito mais facilidade…

Mas não alcancei, eu incomodei quem não quer ver mulher escolher

para se defender dos abusos que virá a sofrer de todos aqueles que aproveitam do poder que têm.

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Vou desacelerar…

Senão eu morro

(as coisas não precisam ser assim)

Engole o choro!

Não existe a opção de parar, eles já chegaram no fim e você está ai,

vão colocar outro no seu lugar

Vão te fazer parecer fraca por não aguentar, as coisas que eles não sabem o que significam e nem saberão, porque não são mulher, e nem nunca serão

Se você não entrar no jogo você vai perder

” Eu não vou perder, eu ralei como eles, eu sou igual”

Mas não foi igual,

eu não tinha um pau para me dar poder , me ajudar a vencer

“Pelas minhas competências”

Que incoerência! Eu estudei e trabalhei muito pra estar aqui,

Mas não estou, eu tenho um útero,

e isso me tira do mesmo patamar, eu não posso chorar, senão é “desequilíbrio e mimimi”

Trate de reprimir qualquer sinal de humanidade e “feminilidade”

Esquece seu útero! Haja como homem…

Mas seja mulher, bem bonita, gostosa, charmosa , menina

” Você é nosso cartão de visita”

Mas também seja sensata e consciente

Mandaram me vestir decente, não dar motivos, me fazer de demente

Pro caso do chefe chegar, exagerar , se aproveitar, por a mão onde não deveria estar

“Isso não é compatível com o mercado corporativo”

“Que ingenuidade, deixa disso!”

” Todo homem é nojento em algum momento, e cantadas são normais em qualquer ambiente, se você fosse feia seria bem pior”

Agradeça!

Mas o que é ser melhor? Melhor nem pensar

mas pensar bem no que vou falar, se meu chefe me assediar, ou me tocar com um jeito incompatível com o trabalho

Que eu pense logo no salário que eu finjo não precisar, só pra continuar a trabalhar…

É melhor me calar, porque se eu contar, vão me desacreditar.

O trabalho tem que ser por prazer, por competência profissional,

mas se eu ceder , o meu chefe vai adorar, eu só vou comprovar o que ele insiste em falar

” Todo mundo tem um preço, só preciso achar o seu”

E eu?

Eu, que lutei a vida inteira, pra ser competente, inteligente, uma profissional inteira, completa…

De forma consciente

Vou provocar o riso, de prazer, a comprovação, o indício, que desde o começo eu era só isso:

Um corpo, esperando pra ser prostituído por todas as minhas necessidades

Dignas necessidades que eu mesma criei

Esquecendo minhas verdades, calando meu coração,

sofrendo a humilhação

de ser também no trabalho o que sempre fui pro mundo

Um corpo, uma vagina, um útero,

cujo intelecto sempre foi convenientemente rejeitado

O espaço está reservado…

Aos homens , é claro!

Com seus egos gigantes

Poderosos, truculentos e extravagantes,

reservando às mulheres a margem da dignidade,

do puxa-saquismo ,do desespero ,da punhetação e da vaidade

Do chefe que nunca vai nos deixar chegar lá…

Colocar uma mulher para liderar?

Imagina!

É reconhecer que ela é além de uma vagina…

Um ser humano, um cérebro competente, uma mulher, uma menina consciente, que não precisará passar mais por cima dos próprios valores,

como algumas fizeram conscientemente,

mas não podem ser julgadas,

Nessa estrada, se você se humilha pra ganhar o pão,

não é opção, é a única alternativa que você tem

E se você disser não…

E se eu disser não?

Se eu me cansar, se eu denunciar, se eu rechaçar , se eu olhar com nojo, as mãos indesejadas sobre mim, o gozo…

Seu eu plantar uma briga

O meu chefe abusando do próprio poder, quem vai me defender?

Ninguém vai me defender…

Do meu chefe? Eu ainda sou chefe…

Mas também sou mulher…

Eu sou mulher, e isso é terra de alguém,

Quem?

É terra de homem.

Porra, me ferrei!

Do lado deles o mundo, do meu lado mais ninguém

Eles vão menosprezar minha experiência, negar minha competência , insinuar que cheguei a provocar, que só quero causar,

E aquela mulher que na corrida corporativa, agiu decente, que ascendeu profissionalmente,que pela empresa comprou briga…

Vai voltar à estaca zero

Começando do zero

Caminhando lentamente, carregando na bagagem todos os estigmas

Que possuímos só por possuir… Um útero

 

Interrompi minha menstruação, fiquei doente

agora não tenho emprego para poder bancar, nem o plano de saúde e nem os outros males, dos quais eu não sofreria se precisasse implorar , e me matar para chegar no topo da cadeia alimentar da corporação

Meu nome tá sujo…

Quem liga?

Já não dá mais pra me fingir de rica, de mentir que não preciso trabalhar, que faço por prazer,

Um absurdo…

Uma ironia…

Os terninhos que comprei para parecer abastada, não tenho mais ocasião para usar , não tenho dinheiro nem nada, nem mesmo um jantar, e se tivesse, eles já caíram de moda

Mas devo usar na audiência da semana que vem, do processo que abri pra deixar de ser refém, no lugar que me fizeram acreditar que são todos iguais…

Mas não somos iguais, eles têm pau,

Eu tenho útero

 

 

 

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2 comentários

  1. Desculpa usar esse espaço para comentar de algo que não tem a ver com o conteúdo da página.
    Venho aqui te agradecer por lacrar numa resposta num post de Reboot/NoFap do Disqus. Sou homem e acredito que os demais precisem ouvir um pouco da verdade e você fez isso! Muito obrigado, Estela!

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