Mais sexo e menos amor

Quando uma mulher  vai na contramão do comportamento feminino e consegue não só fazer sexo casual, como também não esperar nada dessa relação, e nem mesmo criar uma visão romântica, como se o sexo necessariamente tivesse que ser aquela coisa piegas, cheia de carinhos, romance, príncipe e princesa, ela vai contra aquilo que se espera dela, e quando ela assume isso, acaba criando um desconforto que não se restringe aos homens mais conservadores, mas muitas vezes também às outras mulheres.

A maioria dos homens se assusta quando se depara com mulheres que enxergam o sexo de forma prática, porque eles são forçados culturalmente a deixar os sentimentos fora da cama e da vida, e eles têm uma questão particular de masculinidade tóxica da qual as mulheres muitas vezes estão alheias e que eles geralmente ainda não resolveram; imaginem como deve ser confuso lidar aceitar e o fato de que enquanto precisam assumir os próprios sentimentos, observam mulheres sendo mais práticas e racionais desligando justamente o romantismo que foram incentivadas a cultivar?

Fomos educados a vida inteira para a acreditar que nós mulheres temos uma propensão ao romantismo, que colocamos sentimentos em tudo, que possuímos desequilíbrios emocionais derivados desse sentimentalismo e que temos dificuldades para racionalizar. Espera-se que sejamos românticas, amorosas, sonhadoras e queiramos casar. A própria feminilidade é pautada em um referencial de sentimentalismo e de fragilidade que parte justamente dessa suposta delicadeza emocional. Mulheres racionais demais, promíscuas demais, que desvinculam sexo de amor, são vistas como “masculinizadas”, como se o anseio por prazer sexual fosse algo presente somente nos homens.

Essa mania de enxergar as mulheres de forma virginal, como se fôssemos princesas românticas esperando o príncipe encantado é péssima, porque coloca todas nós com nossas variáveis de personalidades e comportamentos, na mesma caixa, e faz com que as mulheres racionais , práticas e pouco românticas, se sintam ETS por não compartilharem da mesma visão romantizada e dos mesmos anseios que a sociedade nos fez acreditar que possuímos e que não necessariamente condizem com a realidade.

Nem toda mulher quer casar, nem toda mulher quer relacionamento, nem toda mulher espera ligação no dia seguinte, e nem toda mulher se excita com o estereótipo de príncipe piegas e romântico.

Alguns homens até apreciam mulheres mais práticas, porque isso os livra do trabalho de terem que mentir e fingir amor pra conseguir sexo; já outros entram em pânico quando se deparam com mulheres que transam, se vestem e vão embora, porque isso envolve medos íntimos, envolve a ideia de que as mulheres são mais racionais, mais decididas, estão focadas somente no sexo, e caso não encontrem a qualidade esperada com eles, vão buscar isso em outros lugares.

Por outro lado, o fato dos homens saberem que tem mulher que faz sexo pelo sexo, pode fazer com que eles melhorem seus desempenhos por  medo de serem trocados, e existe uma vantagem clara para as mulheres que transam com esses caras.

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É importante que o sexo seja visto como ele é a grosso modo, e que não seja romantizado e não sejam dadas a ele uma importância ou profundidade que não acontecem de forma natural e espontânea, mas é importante essencialmente, que as mulheres acima de tudo, desatrelem o conceito de sexo de amor.

Se existem mulheres que estão enxergando as coisas de forma mais racional, existe também aquelas que nem são conservadoras, e que muitas vezes declaram abertamente seu feminismo(seja lá o que isso signifique), e que tendem a se comportar de forma hostil diante de uma mulher que defende a praticidade também no sexo. Isso porque embora hajam muitas mulheres desconstruídas, a ideia de que somos românticas, monogâmicas (e muitas vezes até bissexuais), foi disseminada a vida inteira a ponto de construir nossas identidades, e dificulta que enxerguemos que romantismo não é algo inerente.

Essa visão romantizada do que é ser mulher e feminina, afrige a maioria das mulheres, e faz com que algumas acreditem erroneamente, que ser entusiasta da DESromantização do sexo, é engrossar o coro dos homens cafajestes que transam com todas, trocam de parceiras como trocam de roupa, e não se dão nenhuma responsabilidade quanto ao comprometimento que pode existir em simplesmente dividir a cama com outra pessoa.

Se analisarmos a questão do sexo friamente, respeitando todas as questões culturais, o consenso geral é que sexo basicamente é a interação entre as partes íntimas, sejam elas quais forem.

Tudo que estende essa questão, passa por um crivo cultural e extremamente subjetivo. O cigarro no pós sexo, o carinho, as juras de amor , o silêncio, o riso… Todas essas questões extrapolam a questão sexual. São desejáveis, mas são adicionais, no fundo não são coisas que devem ser esperadas de uma transa. Talvez de um relacionamento, mas não de uma mera transa.

 

O  efeito colateral de uma sociedade que romantiza as mulheres e o modo como devemos transar, são mulheres com medo e vergonha de viverem suas sexualidades plenamente, mulheres que por medo de serem mal vistas, se metem em relacionamentos com pessoas com quem não possuem a menor afinidade simplesmente para suprirem os desejos sexuais; mulheres que acham que possuem uma alma gêmea só porque a alma gêmea trepa bem, mulheres que romantizam relacionamentos cuja única troca é sexual, e que vão pro sexo com uma baciada de anseios que extrapolam e muito as vontades sexuais e jamais suprem esses anseios que não são delas, mas que incutiram na cabeça delas que elas deveriam sentir…

E pior que isso: Mulheres que vão pra cama pra gozar, têm um sexo meia boca, sem nenhuma conexão e sintonia, mas que ficam tristes porque o parceiro delas não ligou no dia seguinte, e o que deveria ser um favor(já que o sexo foi ruim), vira um suplício, porque estão acostumadas a validar a si mesmas através da aprovação masculina, e ficam desesperadas quando saem com alguém e o homem enxerga a situação exatamente como ela é: Sexo puro e simples; e sinto dizer, mas estão certos.

As mulheres precisam parar de romantizar o sexo, porque quem romantiza sexo fica muito focado na visão vulgar do romantismo; quem romantiza sexo, fica esperando olho no olho, beijo na boca, “eu te amo” e frio na barriga que não vem.

Quem romantiza sexo, espera amor de tragédias anunciadas, cria histórias de romance onde deveria haver comédia e Adeus, fazem drama por situações corriqueiras e comuns:

Às vezes o sexo nos conecta, às vezes não, e quando rola conexão, não necessariamente vai rolar romance, com ligação no dia seguinte e promessa de amor eterno. De repente vai rolar um longo silêncio, duas pessoas vivendo suas vidas, até que um dia rola um “clique”, eles lembram daquela noite ardente e molhada, ligam pro outro , se encontram e fazem tudo de novo. Prazer por prazer, sexo por sexo, sem nenhuma promessa de algo além. E nem por isso precisa ser vazio e superficial.

Romantizar sexo baixa nossos critérios, e nosso senso crítico e nossa capacidade de escolha têm que estar sempre apurados e têm que ocorrer bem antes de ir com alguém pra cama, porque embora sexo seja apenas sexo, não devem haver ressalvas ou  pudores pra que se transforme em sexo com amor. E se isso acontecer, tem que haver certeza de que rolou com alguém que genuinamente se pareça conosco, que sintonize conosco não só na cama, como na vida. Alguém que nos olhe e que nos enxergue como somos.

Amores correspondidos são caros e às vezes raros, achar a alma gêmea é raro; mas para conexão sexual, basta procurar , testar e tentar. Não é porque não vem acompanhado de pedido de casamento e amor eterno que precisa ser superficial ou vulgar; não é porque não tem amor que não precisa ter sinergia, e não é porque é só troca de sexo por sexo, que é algo menos importante, portanto o nível de exigência para escolha , tem que ser igualmente alto.

No fim das contas, sexo são duas pessoas nuas, uma diante da outra, despidas de seus medos, complexos, dinheiro, fama e  cargos, dando e oferecendo prazer, trocando energia e sendo elas mesmas, em seu estado mais cru, sem nada mais a oferecer além de sexo. E existe algo mais poético e bonito do que essa troca?

 

 

 

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2 comentários

  1. Sempre achei que o sexo sem sentimento é vazio, e ainda acho. Tenho tentado desconstruir isso diariamente, mas não é fácil. Uma hora consigo separar as coisas.

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