Manipuladores de mentes alienados

Tatuagem de aquarela; coque nos homens; camisa xadrez para todos; cabelinho de Amelie Poulain nas meninas, rolezinho vegan, roupa propositalmente desbotada comprada em brechó de grife, saudosismo pela banda Raça negra, ” Clube da Luta é o Melhor filme ever”, comportamento blazé pra atestar uma suposta superioridade intelectual…

Existe a moda… E existe a moda dentro do universo alternativo\cool que parece ser predominantemente composto por profissionais de comunicação. Essa moda consiste basicamente em seguir um padrão não só de vestimentas, como também de comportamento, como também de consumo, como também de bandas a se ouvir; e a não adesão do padrão comportamental criado por comunicadores para comunicadores, coloca no limbo todos aqueles que por amor à Comunicação, fizeram a faculdade, mas que por algum motivo ou talvez um senso crítico ligeiramente mais apurado, decidiram não ir com o rebanho.

Lembro que ainda no primeiro ano de jornalismo um dos professores nos disse que comunicação não era somente sobre informar; comunicação era sobre manipular informação e disseminar aquilo que era conveniente para a empresa que estava pagando o salário do profissional que faz uma propaganda, e não se enganem achando que jornalismo não é propaganda, porque ele é exatamente isso, manipulando a informação conforme o interesse do veículo que a divulga.

Parecia óbvio pra mim, e ingenuamente achei que era óbvio para os outros também, mas é provável que estavam tão ocupados sonhando em ser “Substitutos do William Bonner”, “Repórteres esportivos”, ” Os novos Washingtons Olivetos”, que eles esqueceram basicamente qual era o propósito dessas profissões, como se os marketeiros fossem os únicos a venderem algum tipo de produto na área de comunicação.

Acho assustador que tão comumente esses profissionais tenham se perdido e se alienado em um grupinho que se retro alimenta consumindo as roupas que eles definiram como sendo descoladas, a música que eles definiram para serem música de cultos, a cerveja que eles definiram como “a cerveja artesanal feita com ingredientes frescos”, o local gourmet meia boca mas caríssimo, que serve pra atestar que esses profissionais em suas grandes maiorias falidas e fodidas, ascenderam a uma classe econômica superior , da qual aliás, dificilmente farão parte, porque o salário de comunicação mal banca a independência financeira que esse povo finge possuir.

Quando foi que o senso crítico dos comunicadores se perdeu?

Quando foi que eles esqueceram que é no mínimo incoerente ocupar o lugar de manipulador de mentes, vendedor da alienação, e ser ao mesmo tempo o alienado, seguindo feito uma ovelha os padrões comportamentais que foram definidos como ideais para um publicitário moderninho, ou um jornalista pretensiosamente esquisito?

Tratam os marketeiros como mercenários bregas, sem perceberem que por uma foto no Instagram, pagam mais de dez reais em uma xícara ínfima de café no Starbucks e acham que isso é algo normal; chamam os declaradamente consumistas de burros, mas gastam 30 reais em um salgadinho e um suco na Dona Deola e acham que estão pagando pelo valor agregado e o refinamento do espaço; mas o que separa esses consumistas encantados com tudo que veem das pessoas ingênuas que foram ensinados na faculdade a criarem campanhas publicitárias bonitinhas só pra ganhar dinheiro, e agora são quem consomem os discursos publicitários com seus padrões comportamentais, e dão a eles todo o pouco dinheiro que têm?

Qual é a diferença entre a pessoa que consome Coca Cola ao invés de Dolly por achar que a primeira é menos prejudicial para a saúde, para a pessoa que paga cem reais em um combo de Hamburguer artesanal sob a desculpa de que são menos calóricos e saudáveis, e postam foto no Facebook pra tentar mostrar pro resto do mundo que são parte de uma raça superior?

Que moral se tem pra criticar a futilidade de alguém que é escrava da moda e de marcas caras, se esses mesmos comunicadores são escravos de um estilo de vida que foi incutido na cabeça deles como sendo ideais e estão aprisionados a isso ?

Eles dão a desculpa que não consomem a marca, e sim “o valor agregado” por trás daquilo, dizem que os padrões comportamentais  que seguem os leva a fazer parte de um grupo que os fazem ter o conforto, a sensação de pertencimento, mas não é no mínimo incoerente que se acham superiores intelectualmente em relação a qualquer outra pessoa em uma sociedade que paga caro pra tentar manter porcamente um estilo de vida que não tem a menor condição de sustentar?

Tem publicitário e jornalista saindo pelo bueiro,  o salário não banca nem a dignidade desses profissionais, mas pra manter o estilo de vida do moderninho desprendido\ vegan \ frequentador do food truck caríssimo \ fã da banda Indie que cobra quinhentos reais por um ingresso de show, eles se esforçam, fazendo quinhentos “freelas” por mês, sem conseguir bancar nem a casa, nem o aluguel. No entanto, a aparência está intacta, toda a lista de verificações de pessoa Cult está suprida, e eles fingem que está tudo bem e que são bem sucedidos financeiramente (embora tenham dito que comunicador não pode considerar que dinheiro seja importante), porque no ambiente que eles se rasgam pra trabalhar, você não pode parecer indiferente, não pode parecer um cidadão normal que paga suas dívidas e que conserva a sanidade de não pagar setenta paus num rodízio de sopas, porque pra ser comunicador, você tem que fazer por amor à profissão, não porque precisa; e o fato de não precisar (ou fingir isso) dá aos empregadores moderninhos das agências de comunicação, a total licença pra pagar um salário de fome, pra trabalhar igual um desgraçado e achar isso legal, já que fizeram dos ambientes das agências “uma extensão do nosso lar” e ninguém percebeu que passar mais de nove horas no local de trabalho denota no mínimo um desequilíbrio entre vida particular e profissional, e tá tudo bem: no caso de nenhum cliente comprar o discurso publicitário bonitinho, tudo bem, porque eles venderão alguma merda conceitual entre os próprios coleguinhas e os coleguinhas comunicadores aceitarão “porque é muito cool incentivar a produção independente”, tipo a família que compra a rifa de festa junina da criança de sete anos.

A diferença é que a vida adulta está chegando, os boletos estão acumulando embaixo da porta , e os comunicadores estão condenados a morar de aluguel pra sempre, porque antes bancar um estilo de vida a qual não fazem parte, do que manter uma vida razoavelmente mais modesta, ser razoavelmente mais sensato; trabalham para comprar o que não precisam, para mostrar pra quem não se importam, um dinheiro e status que não possuem. Cara, isso é tão Clube da luta!

 

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