Brasil: Um país de burros diplomados

Com a reforma no sistema educacional e a proposta do governo de excluir matérias da grade curricular para dar aos alunos ” liberdade” para escolher algumas matérias que irão cursar, especificamente matérias que tangem história, ciências sociais, filosofia, e outras essenciais para desenvolver o senso crítico dos alunos, fica cada vez mais nítido um fenômeno que já vem assolando o Brasil de forma cada vez mais brutal: a ignorância , e falta de senso crítico, seguidos de uma arrogância quase caricata de gente que, do ápice de sua ignorância, não tem a menor noção do quão burra é. E isso não poderia ser mais assustador.

Esses dias uma senhora me disse que o nazismo era de visão política esquerdista, e quando disse que ela estava equivocada, me chamou de burra e disse pra eu me “reduzir á minha insignificância” porque na minha idade,ela “já tinha se formado na segunda faculdade”. Como se isso desse a ela a garantia imediata de ter conhecimento sobre absolutamente todos os assuntos do universo.

O Brasil ironicamente, vem aumentando consideravelmente o número de pessoas com curso superior, mas isso não está nem perto de ser uma vantagem e nem mesmo algo positivo: Acontece que descobriu-se na “educação” um mercado extremamente lucrativo, o que fez com que as pessoas corressem para as universidades para garantir seus diplomas, e para que se formassem com intelectualidade medíocre e fossem para o mercado de trabalho com seus conhecimentos débeis, seus critérios baixos e suas disposições para aceitarem salários ridículos.

O brasileiro também adora um status e uma ostentação, e à partir do momento em que se associou formação universitária e inteligência a uma pseudo ascensão social e econômica, toda família, por mais pobre que fosse, tratou de parir o seu “doutor”.

Não pensem que este texto é uma crítica às pessoas que se convenceram da necessidade dos estudos e foram correr atrás do prejuízo. Esse texto é uma crítica à superficialidade do brasileiro, à mania de achar que mais importante do que saber, é ter um papel que comprove que se sabe por mais que no fundo se saiba que não se sabe de nada.

Por total influência da nossa sociedade capitalista , pela “teologia do dinheiro”, ser bem sucedido significa implicitamente que se preencheu uma série de requisitos, que vão desde competência, até trabalho árduo,  passando por “faro comercial” e até uma indicação de que se é um ser agraciado pelo próprio Deus; e uma vez que se tem dinheiro, existe a ideia equivocada que se tem cultura e senso crítico.

A realidade é que essa visão de que ricos são sempre cultos, acontece porque a maioria das pessoas confunde poder de consumo de cultura( que é algo restrito realmente aos mais abastados nesse país), com ser uma pessoa culta realmente.

Evidentemente que ricos têm mais acesso à cultura e conhecimento; mas num país em que se enaltece alguém só por ter dinheiro, pra quê alguém, do alto de seus privilégios financeiros e das portas abertas que possui por causa disso, vai se preocupar em ser realmente inteligente, culto e letrado, quando ele tem dinheiro o suficiente pra dar a carteirada e apenas fingir que é?

No Brasil o dinheiro traz uma invencibilidade  inimaginável, e faz com que pessoas que nunca se esforçaram pra possuir, sejam tratadas e pajeadas como deuses , e isso não gera nenhuma revolta nos pobres trabalhadores que servem esses caras, bem pelo contrário: os empregados, inebriados, iludidos com a possibilidade de estar no lugar de seus chefes, reproduzem o que eles dizem, reproduzem numa versão mais brega e pobre os seus comportamentos, com hábitos que fazem alusão ao consumo dos patrões, e guardam em si a ilusão que se acreditarem em Deus, e tomarem as atitudes certas( que aliás podem ser corruptas e desonestas) conseguirão alcançar o sucesso; pois ainda que de forma escusa, “quando Deus abre uma porta pra se ganhar dinheiro, não se deve questionar a moral dos homens”. Ter dinheiro portanto, mais do que status, garante às outras pessoas de que você “terá o reino dos céus”.

Nesse cenário apocalíptico, a faculdade é mais uma das possibilidades que eles apresentam para essa ascensão, e se ela não garante enriquecimento, aos olhos de alguns, valida uma imagem de que já se saiu da base da pirâmide social para chegar num patamar onde se pode gastar mais do que um salário mínimo em uma mensalidade.

Só que a Faculdade não forma pessoas para o senso crítico, e nem para a cultura. A Faculdade forma alunos para o mercado de trabalho, para o profissionalismo com toda a postura robótica, conservadora e submissa que se exige de um trabalhador. Gente que pensa, contesta e discute, não é boa para o corporativismo, porque gente que pensa, consegue enxergar com mais facilidade os fios amarrados aos fantoches, e mais dificilmente se deixam manipular como acontece com pessoas ignorantes. Automaticamente , o conteúdo programático disseminado dentro dos muros das faculdades, não incentiva os alunos ao pensamento livre, mas a uma postura  que os leva de encontro aos objetivos do mercado, que é produzir e gerar lucro.

O Brasil é um país emergente, com uma inclinação gigantesca a ser simpatizante de seus opressores. Aqui renega-se a essência da nossa ancestralidade indígena, esquece-se propositalmente dos nossos sangues africanos, ao mesmo passo em que se enaltece a postura colonizadora e exploradora daqueles que nos saquearam e nos escravizaram.

Os criados conservam o fetiche de serem patrões de forma tão cega, que sequer percebem que isso jamais acontecerá, porque pra ser patrão é necessário um berço, uma origem que a nós, como bons brasileiros com nossas origens humildes,nos foram negados. Não pra menos, as grandes fortunas do nosso país, continuam guardadas nos cofres das mesmas famílias, detentoras dos mesmos sobrenomes desde a época da colonização;

Talvez na Europa as pessoas realmente sejam apegadas à inteligência, à cultura , à leitura e consumo de arte. No Brasil basta que se pareça que culto, basta que se conheça algumas frases de impacto com português correto, que já é o bastante; e o mesmo acontece com relação a dinheiro: basta que se pareça que se tem de barganha o suficiente para se ter em quem mandar, quem nos pajear, alguém para se humilhar por nós, nos fazendo acreditar que somos realmente importantes, relevantes, e insubstituíveis. E é por isso que existe tanta gente indo em passeata de camiseta amarela; é por isso que existe tanta gente falando mal de políticas assistenciais, pois isso traz a sensação de que estão e são parte da mesma elite que eles endeusam; isso traz a sensação de que frequentam os mesmos locais refinados, compartilham das mesmas conversas sentados na mesma mesa do café; quiçá alguém da família frequente até as mesmas faculdades do filho do patrão. A boa e velha ilusão, as boas e velhas aparências que os brasileiros amam enaltecer.

Mas falta auto crítica, falta inteligência, falta desconfiômetro pra perceber que não, não são iguais, e embora em algumas ocasiões frequentem os mesmos espaços que os ricaços, eles só são permitidos lá porque a quantidade de pessoas trata de validar uma conformidade de ideias. Trata de alimentar a ilusão de que “se todos pensam assim, é porque está certo”, ” se os ricos pensam e agem assim e estão ricos, certamente é porque Deus está do lado deles , então vou fazer igual”.

A ignorância alcança níveis alarmantes quando se desconhece até o limite da própria estupidez, e a maioria dos brasileiros desconhece.

Desconhece até a possibilidade mais remota de que o mundo não gira em torno de seus umbigos, crenças e caprichos. Não desenvolveram inteligência emocional para, nem por um momento, suspeitarem de que não estão certos.

Nisso aqueles que conseguiram ascensão social por conta de um diploma, e aqueles que conseguiram ascensão social por conta do dinheiro guardado, seja por trabalho, seja por corrupção, seja por herdar alguma coisa, são todos iguais.

A classe média emergente é em sua grande maioria, brega e ignorante, porque segue comportamento de manada e não adquiriu cultura, senso crítico e visão ampla; e não adquiriu porque no Brasil não incluíram isso no pacote comportamental para ser classe média; não ensinaram isso no curso de administração feito naquela faculdade presente em cada esquina.

Ironicamente, aqueles que parecem possuir um mínimo de bom senso, que conseguem ainda que de forma porca expandir suas visões pro mundo, e de forma totalmente deficiente ter acesso a alguma cultura e formação de senso crítico, são justamente aqueles que em detrimento do dinheiro e do status de empregado que “virou encarregado”, vivem à margem da sociedade, e são  chamados de vagabundos, porque fizeram a escolha de serem ao invés de parecerem: Serem inteligentes, terem senso crítico, terem cultura e visão expandida do Brasil e do mundo… Mas essas virtudes não são atraentes para as corporações: quem pensa assim não se deixa ser manipulado.

Pensando bem, talvez a maioria dos brasileiros ávidos por serem ricos, estejam certos: ignorância é uma dádiva. E quanto mais os marginalizados e intelectualizados e fracassados se dão conta disso, mais paciência têm que ter para  conviver vez ou outra, com um ignorante que não sabe quem puxa seu cabresto(mas tem um carro do ano e casa em bairro bom), lhe apontando o dedo na cara e desdenhando de sua inteligência porque o conhecimento adquirido, não se pega com as mãos, não se mostra na roupa e na cara, e não é passível de ostentação exuberante, dessas que até cego vê.

Ironicamente, num país de aparências, os poucos com visão crítica e alguma pré disposição para vanguardismo, vivem em decadência, porque mais importante do que ser, é parecer, e aqui os intelectuais não querem parecer com nada nem com ninguém, porque não são assim escravos da opinião alheia.

 

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