” Negro de alma branca”

Ele cresceu num lar de vários irmãos igualmente negros e igualmente humildes.

A escassez que viveu , apesar da vida extremamente modesta, estava longe de levá-lo a passar fome como os irmãos mais velhos passaram, mas ainda assim vinha de uma família miserável: Miserável de educação, miserável de afeto, miserável de cultura, miserável de instrução… Os irmãos mais velhos conseguiram vidas confortáveis e sucesso financeiro de forma honesta, mas nenhum deles pôde contar com os pais; e ele sendo o caçula, não receberia nenhum tipo de vantagem, somente o peso da comparação e a obrigação de crescer na vida em uma época em que negro, pobre e favelado, só tinha oportunidades limpando privadas, sendo segurança ou motorista de casa de madame.

A diferença de idade entre ele e os irmãos era o suficiente pra garantir que ele não teria as mesmas oportunidades de empreendedorismo que os outros tiveram: eram outros tempos e poucas portas abertas.

Tinha o prato de comida e o quarto cedido pelos pais, no resto ele tinha que batalhar, e assim fez: Conseguiu ingressar em uma faculdade pública, teve que se desdobrar pra estudar durante o dia sem horário que o possibilitasse um trabalho para ajudá-lo com os estudos,  não tinha dinheiro nem pra condução e nem pro lanche, e por puro mérito e  uma dose de esforço infinitamente maior do que qualquer outro aluno que estivesse na sala de aula com ele, conseguiu chegar no mesmo patamar que os outros. Brancos ou não, ricos ou não.

A época de escassez ficou para trás, mas o Caçula ainda tem que lidar com o fato de ser o único negro dentro de uma empresa gigantesca, o Caçula ainda tem que lidar com declarações racistas disfarçadas de piadinhas inofensivas, e com gente tratando-o como porteiro , como se fosse impossível alguém com a cor dele, chegar a um alto cargo.

Fora isso, o Caçula passou tanto tempo convivendo com gente de classe média alta, ele passou tanto tempo convivendo com gente branca que nunca pisou o pé na favela, que ele se contaminou dessa realidade e na maioria das vezes acaba até esquecendo que é negro; esquece-se até da fome que passou estudando o dia inteiro ,e das vezes que foi a pé pra casa porque não tinha dinheiro pra pagar o ônibus.

No alto cargo que ocupa, com o salário alto que possui e que lhe garantiu todo status de classe média alta, ele acaba lembrando que é negro só quando marca reunião com alguém que não o conhece e a pessoa chega perguntando pelo chefe; ele lembra que é negro só quando é parado pela polícia e precisa mostrar o crachá da empresa pra mostrar que é honesto e trabalhador, pra justificar o carrão  que parece ter sido fabricado só pra gente rica e branca, é sempre uma luta. Do resto ele se esquece.E agora, do auge de sua vida confortável, com as dificuldades que passou cada vez mais distantes em sua mente, ele quer se consagrar como membro da classe média, ele não pode passar a vida inteira buscando reconhecimento social pelo fato de ser um negro favelado que passou em faculdade pública e alcançou a diretoria da empresa; ele precisa validar seu prestígio social frequentando locais que brancos frequentam, falando baixo como brancos falam, se mantendo isento e alheio das questões raciais como brancos são(porque não sabem o que é serem discriminados por sua cor) e agora, participando de manifestações contra o governo, do lado de gente elitista, homofóbica, machista e racista,ele acha que aquele espaço é pra ele; ele defende que os negros são “mais racistas que os brancos”, ele diz que “se negros não fossem tão causadores de problemas, teriam ido tão longe quanto ele”, ele acha que sendo aceito na sociedade branca como sendo um igual, se tornará um deles; ele acha que tá do lado certo; ele acha que é inteligente, que tem senso crítico, e agora ele pode se dar ao desfrute de emitir opiniões inflamadas sobre a política, cotas raciais e bolsas-famílias sem medo de desagradar o patrão, porque ele é o patrão, e ainda que não fosse, ele reproduz o discurso da elite branca, e acha que se são iguais, esta é só mais uma prova de sua evolução.

Ainda bem que não é preciso “pensar ” igual a uma minoria, os revoltados contra bolsa família estão do mesmo lado, mas mesmo que não tivessem, agora ele tem dinheiro pra influenciar a opinião das pessoas sobre ele; e num país onde você é o que você tem, ele finge ser inteligente, culto e ter senso crítico, porque ao menos o dinheiro ele tem pra bancar esses privilégios, embora tenha um pouco de preguiça de realmente se informar.

No fundo ele nem sabe o que é senso crítico, no fundo ele nem sabe que história tem que analisar; no fundo ele nem sabe da carga que sua cor carrega, no fundo ele sequer se lembra da própria cor.

A vida inteira o Caçula tinha na cabeça de que precisava ganhar dinheiro honestamente, suprimiu todos os desejos sobre “o que ser quando crescer”; o caçula não escolheu o que ele gostaria de fazer, ou tinha vocação pra fazer; o caçula escolheu aquilo que era tiro certo, chance de ganhar muita grana; o que exigia mais trabalho, mais esforço, mas por outro lado, onde poucos acreditavam que poderiam ou ousariam chegar.

Com a educação deficiente que o Brasil sempre teve,  ele pobre, negro, favelado, estudante de escola pública, conseguiu. Passou tanto tempo entre somas e avaliações que sequer se perguntou se era certo se esforçar e passar tantas dificuldades assim.

O caçula foi pra aula de exatas; ele não sabia interpretar um texto, ele não tinha senso crítico pra falar porque a ditadura militar era errada;   ele sabia fazer contas lógicas e seria ótimo em uma empresa somando  sem parar; ele não dispersaria questionando porque era menosprezado na empresa só por ser negro; a educação que ele recebeu foi voltada pro trabalho, para trazer lucro, ter uma parte reservada pra si, e a parte maior pro patrão. Ele leu aos montes, mas foi tudo decorado pra passar nas provas e mostrar que era o melhor aluno.

O Caçula pode dar carteirada através de dinheiro, ele pode pagar para que os outros o admirem, mas está condenado a viver eternamente sem saber a que veio, ele é um exemplo para a sociedade, ele é um negro de sucesso, mas todos os seus sentimentos e instintos foram suprimidos a vida inteira porque ele tinha que ganhar dinheiro, tinha que comer, tinha que se sustentar, tinha que viver; Não havia tempo pra viver de sonhos, não havia tempo de ler livros por lazer, nem adquirir cultura só por esporte; seguir vocações, que quem sabe seriam pra música, poesia ou pintura; no máximo que ele podia era sonhar com o dia em que ele estaria sossegado, com o dia em que escolher ver uma exposição ao invés de estudar para uma prova de exatas , não seria uma espécie de condenação à fome e à pobreza.

Agora no auge de seu sucesso, com sua casa em bairro nobre e sua SUV, o Caçula já está contaminado demais pra perceber que ele não teve escolha, assim como os outros pobres e negros também não têm, e que mesmo sendo uma minoria, mesmo tendo trabalhado, mesmo tendo estudado, ele não é a regra e nem a garantia de que todo negro pobre igualmente esforçado e perseverante chegará lá: Ele é o ponto fora da curva. Ele é a exceção, ele é um case de sucesso num universo de fracassos(e nem todos por falta de esforço e determinação)

O Caçula  não é culto, nem inteligente, nem tem senso crítico, ele é só uma máquina programada pra trabalhar sem questionar e vem sendo bem sucedido enquanto ele trouxer lucro pro dono da empresa. Ter cultura, escolher “o que vai ser quando crescer”, deixar seus instintos artísticos aflorarem, é  privilégio de quem não tem a ideia da fome e da pobreza, assombrando seus sonhos, e isso o Caçula nunca teve. Ele deve se orgulhar por ter chegado lá, onde poucos negros chegaram, e melhor ainda se ele não se esquecesse de onde veio, mas isso exigiria um senso crítico que o Caçula não tem, porque não pôde se dar ao desfrute.

Filho de rico pode escolher ser fotógrafo, fazer faculdade de moda, veterinária, medicina, letras… Pode escolher fazer todas e não finalizar nenhuma, pode escolher nem fazer… A vida dele está garantida, os pais não dependem dele pra comer, a herança está guardada. Filho de branco pode até escolher ser burro, fútil, sem senso crítico, inculto, pobre… O nome dele está garantido, os privilégios estão assegurados.

Um negro e pobre não: Ele tem que escolher aquilo que dá dinheiro e o garante vivo, porque todo mundo da favela sabe que existe um atalho pra ascensão econômica, mas que pode ser o caminho mais curto pro cemitério também.

O negro que convive entre brancos, se esqueceu que é negro, se esqueceu de suas raízes e sequer consegue perceber que ele deveria aproveitar o patamar de sucesso e a posição privilegiada não pra se calar, e sim pra ser combativo, pra dar voz aos outros negros e dizer ao mundo que os outros não são preguiçosos, mas nem passa pela cabeça dele que existe uma causa a ser lutada. Quem trabalha não tem tempo pra questionar, não tem tempo pra pensar, não tem tempo pra criticar.

Assim como esse, existem outros iludidos com a ideia de igualdade, doentes em suas síndromes de Estolcomo , negando sua africanidade , engrossando o coro de que o problema não é da sociedade racista e elitista, a culpa é do negro que se rebelou contra seus agressores, se mostrou combativo com o que não aceitava, ao invés de se calar e se recolher ao lugar de insignificância que sempre foi reservado a ele.

O “Negro de alma branca” não quer saber. O Caçula não quer saber. Ele só quer se alienar em seu conforto e sair para locais chiques onde negros raramente são aceitos, mas ele não se importa, porque no fetiche da mente submissa dele, se ele ficar quietinho, talvez seja até tratado como igual, talvez seja até prestigiado como tão educado e acima da média, que nem parece negro.

 

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