Um bom homem

Bateu o barbeador na pia pra tirar o excesso de pelos e de sabão. Fez isso mais vezes que o necessário porque o barulho da lâmina contra a louça tornava o silêncio entre os dois menos constrangedor. Lá estava ele diante do próprio pai numa cadeira de rodas, o velho calado simplesmente porque não conseguia falar: estava nas últimas; ele não falava porque não havia nada a ser dito.

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Enquanto a lâmina passava no rosto cadavérico, o filho ia lembrando de sua vida ao lado do pai, de quando ele chegava bêbado e batia na mãe “porque a comida não estava gostosa”, de quando ele arrumou confusão na festa de formatura da faculdade para constrange-lo, das artes marciais que ele aprendeu desde criança pra tentar se defender e defender a mãe de um pai violento, de quando a mãe contraiu DST  por conta das traições do pai, e até daquele dia que o pai amassou o carro novo do filho porque não sabia lidar com a inveja que sentia; do modo como o pai gastou todas as economias da família com jogo, bebida e mulher e conservava o comportamento agressivo mesmo quando era a esposa quem sustentava a casa… Por cada briga armada,  por cada noite chorando em silêncio, por cada dia de desespero juntando dinheiro pra fugir de casa, o filho não conseguia se conectar com o pai ali parado diante dele, cada vez mais próximo da morte.

O olhar do velho não era mais desafiador, era um misto de vergonha , um pedido de desculpa, de piedade;e ele nunca na vida estivera tão próximo fisicamente do próprio pai em um contexto não hostil, não provocado por uma briga, algo tão comum entre eles quando dividiam o mesmo teto.

O pai abria a boca, puxava o ar, balbuciava palavras que ele não ouvia, não entendia ou não queria entender. Ele só estava ali porque pediram, disseram que o velho implorou. E ele por sua vez, lembrando do passado, e dos muros construídos entre eles, não conseguia ver um motivo sequer para agradá-lo. Disseram que quando uma das enfermeiras tentou ajudá-lo, ele juntou o resto de forças que sobrava no corpo coberto de metástase e foi tão irascível quanto fora toda vida; e então o homem, diante do próprio pai e decidido desde sempre a ser totalmente diferente, estava ali fazendo a barba daquele que ele só não odiava porque esse sentimento não cabia nele; estava ali fazendo uma gentileza para uma desconhecida, se sujeitando ao silêncio constrangedor e ao toque desconfortável apenas por cavalheirismo à enfermeira, não ao pai. Porque os depoimentos mais recentes mostravam que o velho continuava não merecendo.

Lá estava ele, diante do próprio pai, fazendo-lhe a barba para lhe conferir alguma dignidade de aparência diante da doença que o estava consumindo.Só estava ali porque a mãe, as irmãs pediram; a esposa( que nem de longe sabe o que é ter um homem ruim embaixo do mesmo teto) aconselhou, e ele, ainda decidido a “ser um homem bom”, ainda focado em agradar aquelas que ele ama, o fez. Mas poderia não fazer e dentro dele não haveria a menor diferença.

O velho tinha quase um sorriso no rosto, as lagrimas desciam pela face enquanto o filho desenhava a barba com esmero, e certamente não era a dor do câncer, era um lapso momentâneo de arrependimento, era o tempo passando diante dos olhos, os momentos bons que nunca aconteceram, a compreensão que nunca existiu, o clima ruim que se estabeleceu por conta de orgulho, a violência desnecessária que surgia toda vez que era contrariado, a vergonha pelos danos físicos causados em um filho que na maioria das vezes não fora culpado por sua ira, mas era vítima dela… E era tarde demais.

E das poucas coisas que o velho permitiu aprender na vida, da sabedoria não adquirida, totalmente bloqueada pela ignorância, estava ali naquele momento o arrependimento e a certeza absoluta que passou pela vida sem construir a menor imagem boa sobre si. Passou pela vida sem fazer nada de bom; exceto os filhos, e provavelmente isso era mérito de sua esposa que teve a bondade de aturá-lo até seu leito de morte.

Ele estendeu os braços débeis, flácidos, pediu um abraço , que foi prontamente atendido, o olhou nos olhos, balbuciou algo que fazia alusão a um ” me desculpe”. O filho o interrompeu, aconselhou-o a não se esforçar demais. Ele viu que era tarde demais pra derrubar aqueles muros, que aquele perdão não tinha peso nenhum para aquele homem que ele pôs no mundo, percebeu finalmente, em seu leito de morte, que passou pela vida sem adquirir sabedoria nenhuma, e que era tarde demais para mudar as coisas. Estava acabado.

Naquele quarto cheirando a doença e desinfetante, naquela atitude que bem poderia demonstrar afeto e respeito, mas que dentro dele, o filho, era somente uma gentileza totalmente desprovida de maiores sentimentos, e que ele faria por qualquer pobre homem que lhe solicitasse… O velho viu que não havia amor e nem pesar . E assim que o filho cumpriu a tarefa e terminou a barba, menos de meia hora depois de ter chegado, partiu pra nunca mais voltar, deixando o pai com lágrimas nos olhos, totalmente são , sóbrio e ciente de sua finitude. Nem a paciência e piedade da enfermeira o acalentaram. Tratou de jogar longe o prato de sopa que ela tinha trazido.

Morreu naquela noite sem obter o perdão do filho, também não despertara magoa porque não era relevante o suficiente pra fazê-los conservar qualquer tipo de sentimento.

O Filho quando soube não chorou, e nem sentiu, em nenhum momento.

No velório, quem não conhecia o velho estranhou a tranquilidade da família. Ninguém chorou. Ninguém conseguiu sequer fazer um discurso dizendo que ele era um homem bom, ou lembrando dos bons feitos que ele fizera ou dos momentos felizes que proporcionara.

Rezaram um Pai nosso “pra ajudar o morto a encontrar o caminho da luz”. Ainda assim, intimamente, todos aqueles que o conheceram e que tiveram o desprazer do convívio, tinham plena certeza que se houvesse inferno, era pra lá que o velho ia.

Depois, sozinho embaixo do chuveiro, o filho colocou pra fora tudo que tinha no peito. Mas não era saudade, não era lamento , nem sofrimento. Era desconforto por querer sentir muito, querer sentir saudade, desespero e desamparo; era desespero por não conseguir se adequar, se adaptar, ser igual a todos aqueles que sofrem quando perdem o pai. Mas ele não conseguia, não sofria, nem sentia, mas precisava, porque disseram que ele tinha que ser diferente, disseram que ele tinha que ser um homem bom, e homens bons sentem muito quando o pai morre e ele fora um homem bom a vida inteira e pela vida toda.

Exceto até aquele momento, chorando aliviado embaixo do chuveiro.

 

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2 comentários em “Um bom homem

  1. Ser mais do que óbvio é uma obrigação existencial que devemos possuir.
    Seguir o fluxo bobo e fugaz de nossos instintos ou decidir duramente seguir nossos valores mais caros de forma lúcida de modo a nos orgulhar futuramente é a encruzilhada de nossos futuros.

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