Onde o monstro vive

Já estava dirigindo há seis horas e não havia qualquer sinal de que estava chegando a seu destino. O corpo já dava sinais de cansaço e o estômago já clamava por comida. Ela se arrependeu de não ter trazido nenhuma guloseima pra comer enquanto dirigia. Encontrou um posto de gasolina no meio da estrada, percebeu uma senhora baixinha e gordinha andando vagarosamente em direção ao carro. Não ia abastecer, mas já que fez a mulher levantar, pediu que fossem colocados vinte reais de gasolina.

Enquanto a mulher colocava o combustível, ela a observava pelo retrovisor do motorista:

– Você sabe onde tem uma pousada ou um hotel próximo daqui para que eu possa passar a noite?

A senhora deu um sorriso discreto e respondeu enquanto fechava o comportamento de combustível do carro:

– Se você continuar nessa estrada, você encontrará um hotelzinho a uns dez minutos daqui; mas eu não recomendo que uma mulher sozinha como você passe a noite lá não!

Ela olhou pra frentista com olhar preocupado, ainda pelo retrovisor do carro:

– Por que? Só tem homens no lugar?

-Não, não é isso. Na verdade é um local pequeno e pouquíssima gente dorme lá, porque dizem que é mal assombrado, esses dias encontraram um homem morto. Trinta anos, falaram que foi ataque cardíaco. Onde já se viu isso? Morrer do coração com trinta anos? Eu não dormiria em um local assim

-Mal assombrado, é?- ela respondeu segurando o riso.

– Sim. Imagine você sozinha, desamparada, num lugar tão escuro e afastado assim? Se acontecer alguma coisa você vai recorrer a quem?

-A mim mesma.

– A você mesma? Não tem medo de fantasma, monstro, nada?

Ela entregou a nota de vinte reais na mão da senhora, deu um sorriso discreto e finalizou o assunto:

-É, você está certa. São coisas para se temer realmente. Ligou o carro e partiu pelo caminho que a senhora indicou.

Seguiu pela estrada apertando os olhos porque estava sem óculos e não enxergava na escuridão. Menos de dez minutos depois, estava no local citado pela frentista.

Pediu um quarto, investigou alguma besteira gordurosa para comer no frigobar, e enquanto mastigava o chocolate que achou ali, ficou pensando na ironia do que a frentista disse.

” Se ela soubesse pra onde estou indo, aí sim teria um bom motivo pra ficar assustada”

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Quando ela nasceu, todos ficaram felizes, menos ele. Os motivos ninguém sabe ao certo, e embora muita gente deduza que ele tenha sentido ciúmes da atenção que agora teria que ser dividida com a criança, ninguém nunca ousou dizer em voz alta.

Ela tinha uns seis anos de idade quando começou a perceber que aquele homem que nunca foi muito sorrisos, não seria exatamente o modelo de príncipe encantado que ela carregaria pra vida. Estava sempre de cara fechada, e conforme ela ia crescendo , começava a perceber que mais temível que o silêncio e a escuridão da casa velha onde morava, eram os passos de madrugada que anunciavam que ele tinha chegado, bêbado, agressivo e pronto para arrumar uma briga por qualquer motivo que aparecesse. A princípio, em sua mente de criança, ela achou que era fato isolado, que ele, assim como se é comum quando uma menina tem laço de sangue com um homem mais velho, deveria protegê-la, brincar com ela e fazê-la se sentir segura, mas depois de se deparar com a maldade nos olhos dele por toda a infância e adolescência , ela passou não só a acreditar em heróis, como também percebeu que não precisava nem dele nem de homem nenhum para se sentir protegida. Percebeu que quando se espera carinho e proteção de uma pessoa e não obtém, a fragilidade obtida pela expectativa, a faz ainda mais desamparada, ainda mais vulnerável pra ser machucada .

A má experiência não a fizera amargurada, mas forte e destemida, auto suficiente o bastante para não se deixar assustar por nenhuma criatura, seja ela humana ou não.

Chegou na casa onde vivera boa parte da vida, já era hora do almoço. Até podia ter chegado antes, mas só de saber que o encontraria de novo, já a desanimava o bastante pra postergar a chegada. Se ela não o visse nunca mais, não sentiria falta, saudades, nada. Se ele morresse provavelmente ela não sentiria, e se sentisse, não seria pelo que ele foi, e sim por tudo que poderia ter sido e não aconteceu simplesmente porque ele escolheu criar muro entre eles.

Além do mais, em nenhuma outra circunstância do mundo ela voltaria ali se não fosse o aniversário da mãe dela, e apesar da festa ser para a mãe, ela trouxe presente pra ele também: Era muito mais barato e fácil pra ela escolher algo pra ele, do que passar pelo desprazer de abraçá-lo. Vejam bem, não tratava-se de ódio; os sentimentos ruins já tinham sublimado todos. Era indiferença mesmo, como se ele, depois de todas as mancadas, tivesse desligado o botão de sentimentos nela; Como se ela fosse imune a tudo: decepções, dores, mágoas, traições… Nada a atingia, nada trazia sofrimento, nada a fazia chorar. Nada que viesse dele, quiçá, nada que viesse de homem nenhum. Ela poderia até gostar de algum, mas nunca haveria entrega suficiente para gerar uma decepção.

Já havia passado duas horas desde que ela chegara lá , e ele surpreendentemente, estava são, gentil e solícito, de um jeito que até a fizera acreditar que assim como a mãe havia dito, ele realmente mudou.

Ela, ao notar as gentilezas dele, também se tornou gentil, e não só tirou fotos, como também conseguiu dar um abraço genuíno e totalmente ausente de qualquer mágoa, como até se viu pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes; se ele tivesse sido sempre daquela forma, amável, ela poderia ter tentado, ela não precisaria ter tomado a frente, não precisariam ter havido tantas brigas, ela não teria conhecido o pior lado dele, e talvez hoje em dia ela não seria tão pessimista, teria mais fé na humanidade, teria mais vontade de ter um marido, sonharia mais vezes com uma vida de romance, o invés de se conformar com o próprio futuro num escuro e silencioso quarto sozinha. O que para as outras pessoas poderia ser decadente e degradante, pra ela era puramente comum, porque antes sozinha, do que à procura de um príncipe, que se descobriria posteriormente, ser na verdade um monstro.

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A casa estava cheia, todo tipo de parente estava lá não para parabenizar a aniversariante mas para ver quem aquela menina quase masculinizada tinha se tornado. E quando ela surgiu bonita e delicada em seu vestido novo, todos se surpreenderam. Já que ela não era lésbica como alguns chegaram a presumir, o foco da curiosidade mudou para o fato de ela ter ou não um namorado, casar ou não, ter filhos ou não… Afinal ela já tinha ultrapassado os trinta anos.

A mãe, boa conhecedora do gênio da filha e já prevendo o incômodo que as especulações causariam, tratou de atualizar os parentes, elogiando-a, lembrando de seus feitos mais recentes, como o carro novo, a casa nova na capital e a pós graduação recém concluída. E ele, que estava até então alegre e sorridente, foi misteriosamente murchando, e conforme a boca abria pra receber a bebida, os demônios vinham à tona, na forma de ironias, maledicência e grosserias.

Pinga ou cocaína, não importava, o verdadeiro motivo do caráter duvidoso, era o comportamento covarde, o ciúme mal disfarçado, a inveja enrustida, o sentimento de castração, o machismo declarado e a sabedoria que o tempo não trouxe, nem quando ela nasceu, nem naquele dia em que ele estava lá mais uma vez, estragando mais uma festa de aniversário, dando mais um vexame, expulsando mais uma vez todos os familiares, que não se assustavam e nem se surpreendiam, porque “ele era mesmo assim”

Ela aguentou uns bons minutos em silêncio, mas quem a conhecia, sabia que ali não havia absolutamente nada de submissão. Tanto que quando ela abriu a boca, vieram à tona toda a mágoa que nem ela sabia que tinha guardado, toda frustração, toda a revolta, toda opinião calada com relação a ele. E ele, depois de bêbado e humilhado em público, fazendo-se de vítima para convencer os outros que ela era ruim, ela era rebelde, ela não honrava a família, apenas falou em voz alta em tom de desdém:

” Pensei que você tinha mudado, mas percebo que você continua a mesma metida à besta de sempre, que desrespeita o sangue do seu sangue, tem desprezo por suas raízes e não respeita os mais velhos”

E ela que já tinha dito tudo que poderia, pegou a bolsa e foi embora, sem derramar uma lágrima, sem transparecer um pouco sequer de tristeza(porque realmente não havia), sem sentir o mínimo de vergonha, porque nem ele, nem ninguém conseguiria fazer com que ela se importasse com a opinião das outras pessoas.

Aquela situação já tinha acontecido muitas vezes antes. Machucou nas primeiras vezes, mas depois já não despertava nada. E não é que ela era fria ou amargurada, pelo contrário, ela tinha uma capacidade ilimitada para amar pessoas.

Mas quanto a ele havia uma ferida não cicatrizada, que toda vez que chegava perto de criar casca, era aberta novamente, fazendo-a andar por ai com um machucado constante, que seria dolorida em outra pessoa, mas cuja dor nela tinha se tornado tão corriqueira, que qualquer outra dor menor ou igual àquela, não faria diferença alguma, porque ela simplesmente estava habituada; ela se tornara forte, autossuficiente, e não tinha medo, nem fé, nem o sonho de encontrar nenhum príncipe encantado, e nem medo da solidão.

Vez ou outra, a única coisa que a atingia, era o sentimento de inadequação, o incômodo por, diferente das outras mulheres, não conseguir sonhar, não conseguir desejar, não conseguir sentir falta de homem algum para ser seu “Herói”. O referencial do sexo masculino que ela tivera em toda a vida, era negativo, ainda que depois do primeiro monstro que ela conheceu, todos os outros que se seguiram, se assemelhassem muito mais a heróis do que a homens ruins, não importava, aquela ferida aberta dava sempre um bom motivo para não se entregar completamente, não confiar completamente, não esperar nada de ninguém novamente, sob o risco de fazer e se sentir desamparada, assustada, abusada, assim como fora quando criança, naquela idade em que as meninas deveriam ser protegidas.

 

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