Os bastidores de um amor perfeito

O trânsito prometia no mínimo uma hora a mais dentro do carro. Ele olhou para o lado e no banco dos passageiros estava ela, a quem ele amava com todas as forças. Lembrou do começo do namoro, e de como qualquer tempo livre, com o mínimo de privacidade, era suficiente para os dois se pegarem igual gatos no cio. Ficou satisfeito com a hipótese.

Pôs a mão na coxa dela, enquanto a olhava com cara de safado. Ela , que estava com o celular na mão, se limitou a levantar os olhos, não sem antes dar um sobressalto como se tivesse voltando de um transe, e o aconselhou a pegar o próximo desvio e fazer um outro caminho de volta pra casa, porque “no Waze estava marcando que chegariam cinco minutos antes”.

Ele disfarçou a chateação, depois fez as contas, viu que o outro caminho era muito mais longo, trabalhoso, e o custo a mais com a gasolina não compensaria os cinco minutos economizados pela mudança de rota. Ficou impassível, fingiu ignorar a solicitação dela, tentou beijá-la uma vez mais, mas ela ficou irritada por ser contrariada e iniciou-se uma discussão que perdurou todo o trajeto de volta pra casa.

Quando chegaram , ela desceu correndo do carro , ele imaginou que ela estivesse apertada pra ir no banheiro, mas ao entrar, a televisão já estava ligada para a maratona de séries que virou rotina. Ele costumava gostar disso, mas ao perceber as desculpas dela para não lidar com ele, o passatempo deixou de ser divertido.

Enquanto ela comia em cima da cama, ele comia os restos de outros jantares num silêncio sepulcral na cozinha.

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Entre o jantar, o banho e a hora de dormir, passaram-se algumas horas, trocaram pouquíssimas palavras, e ele até se arrependeu de não ter cedido aos desejos dela e ter feito outro caminho um pouco mais rápido mas bem mais longo. Quem sabe assim pelo menos um sexo meia boca estaria mais garantido?

Decidiu dormir, mas antes de fazê-lo, já deitado na cama, verificou as últimas atualizações na internet, e entre elas havia uma foto no Facebook, do qual ela o havia marcado. Era um prato de comida, desses bem bonitos e elaborados, e na legenda dele estava escrito:

“Jantinha preparada por ele, meu príncipe”, seguido de milhares de hashtags possíveis e imagináveis. Ele imaginou que aquele era um modo dela propor uma trégua, imaginou que ainda era amado, mesmo se sentindo preterido. Foi dormir com o incômodo da falta de intimidade que existe só entre os casais que se conhecem há muito  tempo e que já construíram um muro entre si, e na manhã seguinte lá estava ela de novo, tirando fotos do café da manhã para colocar no Instagram.

Ele não tinha certeza sobre quando as coisas tinham mudado, mas lembrava com saudades do tempo em que ela estipulara que enquanto estivessem juntos, viveriam o momento e não haveria absolutamente nada que se colocaria entre eles. Ele não sabia quando foi que e se tornou desinteressante a ponto de ser trocado por uma enxurrada de atualizações sobre a vida falsa de semi desconhecidos;

Ele não sabia quando foi que o celular passou a ter mais relevância do que ele;

Ele não queria ter que aprender a levar uma vida daquela forma.

O relacionamento deles, antes analógico, desses passionais de deixar todo mundo com inveja, virou solidão a dois. O sexo que antes era sujo, safado, apaixonado, se tornou um negócio burocrático, com pouca intimidade, tempo definido , higienizado e uma foto de cabelos bagunçados na cama pra postar no Facebook e ostentar “o casal feliz”.

Ele já nem poderia afirmar com propriedade que a conhecia bem, pois ela estava cada vez mais distante de ser aquela pessoa que ele conheceu.banksy-smartphone-amor-solidao

Ele não estava certo se era uma fase, e o relacionamento gradativamente chegava num ponto perigoso, ele já estava assustado por não saber mais definir qual das duas mulheres era a verdadeira: Aquela que se exibia apaixonada nas redes sociais, ou aquela, apática do lado dele na cama.

Quando ela ganhou ingressos pro show da banda preferida deles, tratou de postar a foto no Facebook. Um modo de mostrar não só que tinha o namorado perfeito, mas também o poder de barganha dele, ao presenteá-la com ingressos para a o setor mais caro da casa de shows.

Mal sabia ela que ele estava ansioso por aquela data, pois seria naquela noite,  no show da mesma banda que anos atrás os uniu, que ele a pediria em casamento.

Quem observasse a dinâmica do relacionamento diria até que era contraditório, mas essa era mais uma tentativa desesperada de salvar o que parecia não ter conserto.

No fim das contas as coisas saíram melhores do que o previsto, com direito a pedido de casamento no palco e tudo mais. Aquele deveria ser o momento mais feliz da vida deles; ela chorou emocionada, eles foram o centro das atenções e ele foi pra casa realmente feliz, achando que naquela noite transariam com o ardor da primeira vez, que seriam só eles dois, olhos nos olhos, sem pausa nem intromissões das mensagens de celular.  Mas ela estava tão preocupada em saber se alguém postou o pedido no Youtube que sequer deixou que ele chegasse perto.

Os dias passaram, mal as visualizações do vídeo diminuíram, e ele, em uma tentativa desesperada por atenção, pediu pra terminar o relacionamento. O golpe derradeiro veio mesmo quando ela concordou, com a mesma frieza que lhe era tradicional nos últimos tempos.

Sem saber o que fazer, ou pra onde ir, com o orgulho ferido e se sentindo impotente, adiantou as férias e foi para um mochilão na Europa, prometendo que na volta estariam mais calmos e poderiam tentar de novo um novo relacionamento.

Mas ela não queria saber. A única coisa que pediu foi que ele não contasse a ninguém que tinham terminado, afinal, depois do pedido de casamento, muita gente torcia por eles e ela “não queria estragar a magia”. Mas enquanto ele se preocupava em ser discreto, ela aproveitava para buscar o homem perfeito no Tinder.

Lá estava ele, num continente épico, realizando o sonho que ele queria viver ao lado dela, mas com o coração em frangalhos; lá estava ela, pulando de encontro em encontro, tentando achar um homem perfeito e cada vez menos convicta de que iria encontrar.

Mas como em terras virtuais as coisas são o que parecem ser, ela não conseguiu imaginar que por trás dos Check ins no Facebook, estava um coração despedaçado. Ela só conseguia pensar no Ex namorado superando o rompimento em uma bela viagem na Europa. Por dentro ela até chorou, mas para o mundo, ela limitou-se a mudar o Status de relacionamento do Facebook pra solteira, e ele só descobriu quando voltou ao Brasil e encontrou o apartamento deles sem qualquer vestígio dela.

Nunca mais a viu. Ao menos não pessoalmente. No Facebook ela se fazia onipresente postando cada Check in e cada balada nova que frequentava com as amigas novas, rodeada de belos rapazes desconhecidos.

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Mas os meses passavam, e ela embora ostentasse alegria, sentia falta dele. Procurou-o em outros homens e não o encontrou. Todos eles estavam absortos demais, cada um em seu mundo virtual, cada qual em seu próprio celular, massageando o próprio ego com as fotos de Intagram.

Ela disfarçava bem, mas um dia a saudade bateu forte, ela bebeu demais, errou o caminho de casa e foi parar na porta do antigo lar.

Falou com o porteiro que a impediu de entrar, ligou no celular dele a primeira vez em mais de um ano, e ele (para surpresa dela) ,não atendeu. Foi embora humilhada e acordou de ressaca com o telefone tocando.

Era a amiga dizendo que vira no Facebook a atualização de Status dele cheia de felicitações pelo novo “Relacionamento sério”.

A amiga percebeu que ela sentira, só de notar o silêncio do outro lado da linha; tentou consolá-la, dizendo que nem deveria ser algo sério, porque não tinham fotos nem detalhes demais.

A ressaca moral aumentou, o estômago doeu, e enquanto fuçava o perfil dele, não encontrou muito, mas vestígios discretos o suficiente para concluir que era de verdade e por isso mesmo concreto: Ele estava feliz demais, ocupado demais curtindo o novo amor para se ocupar em ostentar o que não era. Aquilo era real. assumir fora só um detalhe pa dizer a ela que acabou.

Com o estômago doendo mais do que o ego, o bafo etílico entrando no quarto…

Pensou em gritar, sentiu vontade de chorar..Mas ela respirou fundo e foi verificar se não tinha sido marcada em alguma foto em que não apareceria em um ângulo bom. E só depois de ter certeza absoluta disso, de que havia feito Check in daquela balada cara, e de que não postou nenhuma frase com indireta e dor de corno, é que resolveu lamentar por perder as maravilhas de um relacionamento real, bem longe das câmeras de celular e filtros do Instagram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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