” Cada um dá aquilo que tem”

Ela errou, ele sabia. Qualquer pessoa no lugar dele não perdoaria, ou fingiria perdão e depois, quando ela tivesse extremamente desprotegida na própria confiança, daria o troco.

É o que todos os homens fazem, é o que ele estava acostumado a fazer.

Ela errou, deixou ele saber, só pra que percebesse que com ela não, que ninguém a faria de trouxa, que ali ela revidaria o ataque…Ou até mesmo a indiferença; que não haveria amor que a impediria de seguir o próprio rumo.

Mas ele não estava pensando nisso quando chamou-a pra sair. Ele já não queria pensar em mais nada, estava assumindo a frente, fazendo o que sentiu vontade de fazer, independente dela.

 

O convite dele foi suficiente pra fazer a semana dela florescer. Desde antes ele era responsável até pelo humor dela, a expectativa de reencontrá-lo tornou-a mais leve, e o evento foi suficiente para que ela projetasse cada movimento na semana para que tudo estivesse perfeito na hora que fosse vê-lo.

Ele trocou os lençóis da cama , se aventurou na cozinha fazendo uma das poucas comidas elaboradas que sabia, vestiu uma roupa simples mas que mostrava cuidado, passou aquele perfume importado que só utilizava em ocasiões especiais e esperou ansioso pela chegada dela. estava decidido a não só mostrar o carinho que sentia, como também declarar seu amor finalmente.

Ela não estava certa se ele gostava de salto alto, dirigiu e durante todo o trajeto, ficou imaginando se por um acaso a roupa não estava exagerada demais, se a escova que fez no cabelo não havia desmanchado, se o batom vermelho não tinha gosto ruim. Tudo nela era insegurança, porque sabia que ele costumava ser inexpressivo, uma incógnita, um silêncio total.

Se olhou no espelho do elevador,  torcia pra que ele a curtisse…

Torcia para que parecesse que ela estava mais bonita que da última vez que ele a viu, mas torcia também, pra deixar explícito que não tinha cometido nenhum esforço pra que isso acontecesse. Não gostava de mostrar que se importava com a opinião dele, estava cansada de chamar atenção dele, não deixaria que ele percebesse que tudo naquela noite era para agradá-lo, desde o cabelo, até a cor da lingerie e o perfume.

A porta abriu.

amantes

Depois de tanto tempo sem se ver, dentre milhares  de mal entendidos, se beijaram, sorriram, e a química era a mesma de sempre, e ter se distanciado dele parecia uma grande loucura.

Se amaram e se curtiram como se jamais tivessem brigado. Intercalaram entre sexo, vinho e chocolates, e não houve tempo para discutir relações ou traumas do passado, a saudade veio à tona como represa quando arrebenta e entraram em um looping de passionalidade até finalmente pegarem no sono, exaustos. Antes de dormir ele pensou sobre o pedido que faria a ela na manhã seguinte, no café que ele já tinha planejado, a satisfação estava estampada no rosto, e ele, só de pensar naquilo, se sentia uma homem mais livre.

Ela acordou umas três horas depois, observou-o dormir, o considerou lindo mesmo assim… A beleza dele a deixava molhada, ela poderia facilmente transar com ele a noite inteira, concluiu que realmente o amava, mas ponderava, não podia ser apenas instinto. No fundo ela lembrava, achava que não merecia aquilo tudo, a serenidade dele era meio esquisita, anormal. Ela lembrava da apatia forjada dele. Era difícil acreditar na mudança.

Começou a revirar a casa dele, procurando indícios do que poderia ser uma vingança, uma armação dele para descontar as coisas que ela o fez sofrer, qualquer prova de que enquanto estavam separados, ele se ocupou com outra, que não foi igual ela, se culpando por cada momento que perdeu ao lado dele, e a prova estava ali: Dentro de uma caixinha vermelha, um par de alianças bem mal escondido em uma gaveta. Ambos os anéis eram bem maiores do que o dedo dela. Constatou que aquilo jamais a pertenceria.

Sentiu vontade de gritar, sentiu vontade de bater nele, de fazer o maior escândalo. Mas aí lembrou que o troco dela já tinha sido dado com antecedência, que ” chifre trocado não dói”, e se conformou em não fazer aquilo de novo, em não ficar com outro cara  sem vontade, apenas para tirá-lo da cabeça. Além do mais, não tinham nada. Era só sexo, que acontecia com frequência suficiente para iludi-la diante de uma possibilidade de futuro.

Ele acordou enquanto ela procurava o par do sapato pra ir embora.

Perguntou a ela o que estava acontecendo e ela respondeu com voz embargada que não era nada demais, que o sexo e a comida foram bons, mas que dividir a mesma cama e dormir juntos já era um pouco demais, coisa de relacionamento, e ela só queria se aliviar, era só sexo.

Ele meio atordoado sentou na cama, as lágrimas começaram a vir na face, mas ele as reprimiu; lembrou do lema antigo ” homem não mostra sentimento”, lembrou dos conselhos dos amigos dizendo que ele deveria maltratá-la um pouco pra mostrar quem é que manda, deveria largar de ser trouxa, fingir indiferença, porque “mulher só valoriza homem que pisa”. Estapeou o próprio rosto, chamou a si mesmo de otário, lembrou do esforço pra deixar tudo de um jeito que a agradasse, se sentiu um otário mais uma vez por ter se sentido tão mal por não demonstrar sentimentos…Pensou em gritar, responder à altura, só balbuciou concordando, mas ela não estava lá pra ouvir.

Desceu  pela escada de emergência. Sabia que tinha câmera no elevador, não queria correr o risco de alguém vê-la chorar. Sentou na escadaria, lembrou do cheiro do cabelo dele, do quanto desejou aquela noite, do quanto parecia real enquanto ele transava olhando-a nos olhos… Tudo parecia tão sincero.

Nela havia tanto amor por aquele homem, mas já tinha sido enganada antes, já tinham forjado aquele olhar antes, já haviam feito promessas pra ela antes. Dentro dela havia um amontoado de lembranças ruins, frustrações e expectativas de promessas não cumpridas. Ela não poderia deixar se comover, ela sabia, “todos os homens eram iguais”, todos os relacionamentos eram iguais, ela não deixaria se enganar mais uma vez. Mais cedo ou mais tarde ele mostraria que é igual a todos os outros. Dessa vez ela estava vacinada, guardaria seu amor a sete chaves,disfarçaria qualquer tristeza, mostraria que não é boba.

Ele vestiu o short, resolveu ir atrás dela, apertou o botão do elevador mil vezes, como se isso fizesse ele chegar mais rápido. Dentro dele, pensou no que diria, se a confrontaria, ou se diria a verdade, que sempre a amou, que se esforçaria pra mostrar. A porta abriu, ele correu desesperado pelo jardim, pelo portão, pela rua… E não a encontrou.

Se sentiu um tolo mais uma vez, se culpou por ter perdoado o que não deveria ter perdão..

Dentro do elevador, enquanto subia pra casa, pensou no esforço vão, no dinheiro desperdiçado, na esperança sem motivo. Se arrependeu de ter tentado, sentiu dor no estômago, pensou em vingança…Recobrar a própria honra, voltar a ser o sexo forte

Já dentro de casa, o perfume dela ainda estava no cômodo. Cogitou ligar só pra xingá-la, depois se resignou: Percebeu que se a tivesse ali pra ter que fingir, criar personagem, se esconder mais uma vez na máscara que criou, o esforço seria maior do que aquele que já fizera. Ele já havia cruzado uma linha, não queria voltar.

Sentiu dor física; depois aliviou. ” Cada um dá aquilo que tem, ao menos eu tentei”

Ela levantou do degrau, limpou as lágrimas, pensou em voltar atrás, pensou em dizer que o amava, depois ponderou: ” Se ele gostasse de mim, teria passado por aquela porta e vindo atrás.Continua sendo o mesmo indiferente de sempre, o esforço durou pouco, a máscara caiu logo”. Desceu a escadaria com dificuldades, se equilibrando nos saltos que não estava acostumada a usar, se sentindo tola de esperar que ele relevaria as mancadas dela, que só foram feitas no intuito de tirá-lo da apatia. Estava na cara que era vingança. Se sentia uma idiota,pensando no vestido novo que comprou,  no desconforto do salto, na depilação desnecessária, e na ingenuidade de aceitar o convite achando que tava tudo bem. Depois se resignou, concluiu que se ele planejava vingança, o mau caráter era ele. Pensou em ligar pra xingá-lo, depois conformou-se: ” Cada um dá aquilo que tem”

No dia seguinte, cheio de ressaca moral, com um mau humor acima do normal, pegou as alianças e devolveu na joalheria:

” Que ingenuidade a minha, achar que uma mulher que ficava comigo e vários outros caras, iria querer algum tipo de comprometimento assim”

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