O encontro perfeito.

Ela tinha dito  no começo da última noite  que não existe nada mais rude do que não querer beijar na boca de alguém com quem a gente transa, mas naquele momento quando ele foi beijá-la pra se despedir, ela virou o rosto. Ele sabia o motivo: Tinha falhado.

Andou pelo hall do hospital onde trabalhava de cabeça baixa, e a postura era diferente da habitual: Estava se sentindo totalmente humilhado, e decidido a não passar mais vergonha ainda,  eliminaria qualquer indício de que a noite passada aconteceu, só ainda não tinha decidido como, mas estava puto consigo mesmo só de pensar no dia que uma mulher, dessas comuns, nem absurdamente linda, nem feia, o deixou nervoso daquele jeito. Ele achando que poderia se gabar com os amigos sobre ter transado com uma brasileira, e agora ironicamente, torcia para que alguns dias depois, talvez ele sequer se lembrasse dela.

Nem duas horas antes, ela estava montada nele, cavalgando feito louca, enquanto ele mantinha os olhos fechados , fingindo ainda estar dormindo. Mas o pau duro feito pedra não deixava a menor dúvida, ele estava não só acordado, como devidamente recuperado da  na noite anterior. A chupada inspiradora com a qual foi acordado, não deu a menor chance para disfarces, não adiantava pensar nas criancinhas da Àfrica, na avó de biquini, nem no cofrinho peludo do amigo: O pau duro estava ali pra denunciar que sim, havia interesse, mas ele queria fingir que não, pra fazê-la sentir que ela era a culpada pela situação dele. Ela não era inspiradora o suficiente.

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Mal sabia ele que enquanto dormia, ela se manteve acordada, o observando, com a boca cheia de saliva pensando se seria muita mancada acordá-lo para uma transadinha rápida, já que ele precisava descansar direito pra ir trabalhar.

O fato é que ele era deliciosamente gato, e a beleza física era justificada por cada detalhe da personalidade, e mesmo com a falha da noite anterior, ele tinha crédito, afinal ela teve o melhor encontro da vida dela:

Primeiro foram a uma exposição de arte de uma artista Underground e atrapalharam as outras pessoas com suas vozes e risos altos. Não era intencional, mas o assunto estava tão divertido e eles eram  tão mutuamente interessantes , que nem prestaram atenção à atração principal.

Depois descobriram juntos que o melhor prato do mundo é daqueles grandes, e bem fundos, onde se pode por bastante comida e comer muito, e assim deram um belo de um prejuízo no Rodízio de churrascos onde foram, sem esquecer é lógico, da quantidade de casais que ficaram com inveja observando-os juntos e vendo a química nítida entre os dois.

E mal sabia ele que ela topou finalizar a noite com dança, mesmo sem saber e gostar de dançar porque a companhia dele a fez segura e convencida a fazer qualquer coisa. Estava se divertindo tanto que até se esqueceu de postar atualização no Instagram fazendo check in no restaurante chique;estava se divertindo tanto que até esqueceu de tirar fotos com o médico lindo europeu pra se exibir para as amigas; estava se divertindo tanto que até se esqueceu que “damas comem pouco” , e travou uma batalha com ele pra ver quem aguentava comer mais sobremesa, mesmo com comida saindo até pelo nariz.

Não importava, tudo ao lado dele parecia absurdamente interessante e ele não parecia pensar diferente.

Estava se divertindo tanto que até se esqueceu que aquilo ali era um encontro, que já eram três da manhã e não tinha rolado nenhum beijo ou contato mais sexual.

Mas agora ela estava dirigindo de volta pra casa, e enquanto ele tentava parar a dor do orgulho ferido de macho alfa , ela dirigia cantando qualquer música que passava no som, preenchendo a atmosfera do carro com o mau hálito tipicamente matinal, piorado pelo excesso de bebidas da noite anterior, toda sorridente pensando nas ironias do amor, quando por puro desespero, abriu mão do excesso de critérios e aceitou um convite de um cara que mal conhecia, um cara com quem ela mal conversou e que ela mal conseguiria identificar em uma multidão;

Um cara com quem ela só aceitou sair porque teve a intimidade da sua casa invadida por parentes indesejáveis, desses que perguntam quando ela vai casar e ter filhos. Um cara que ela foi pegar no hotel e que não tinha nem rosto, e que agora ela descobrira que era não só lindo, como também inteligente, extremamente bem sucedido, com pau gigante e sério candidato a ser apresentado para a família dizendo de boca cheia :

” Esse é meu namorado”

Justamente naquela tarde que ela aceitou um convite aleatório, já preparada para conhecer mais um homem desinteressante, fútil e com pouca ideia pra trocar; justamente quando ela estava esperando um homem com quem ela transaria de forma mecânica e protocolar simplesmente porque ficou entediada e o assunto acabou…

Justamente quando ela esperava ter mais um desses encontros mecânicos do Tinder só pra obter sexo rápido e fácil… Ela o encontrou.

No dia anterior, menos de quinze horas antes, dentro daquele carro, entrava o cara que viria a ser o homem pra quem ela apresentaria pra família com o maior orgulho e deixaria de fugir dos encontros cheios de perguntas desconfortáveis.

A caminho de casa, sorridente e com bafo de leão,  cantava desafinada pensando sobre a sorte da vida, dentro daquele carro onde o homem perfeito estivera horas antes, ela sorria pela sorte no amor.

E ele, depois de pensar duas ou três vezes sobre aquilo, ele a bloqueava do Whats app, descombinava do Tinder, e tentava excluir da mente, lembrando do dia em que ele conheceu a mina quase perfeita, que o obrigou a se esforçar  ao máximo para conquistá-la, que o obrigou a mostrar todas as suas maiores virtudes para mostrar que estava à altura dela, que foi simples à ponto de deixá-lo brilhar mesmo sabendo que ele estava se exibindo, que riu das piadas dele enquanto ele evidentemente estava se gabando, mas que o deixou tão, mas tão intimidado…Que ele brochou, queimando o próprio filme pro resto da vida, eliminando qualquer possibilidade de ser respeitado, mesmo tendo chupado-a do jeito certo, mesmo tendo proporcionado prazer do jeito certo… Lá estava ele, no momento fatídico, nu em pelos, o pau feito uma gelatina, só pra humilhá-lo, só pra mostrar quem mandava em quem. Mesmo logo após uma noite maravilhosa, tendo que se virar pro lado da cama e dormir, torcendo para que no dia seguinte, seu pau amigo desse o ar da graça e da rigidez, mostrando a satisfação que ele não queria esconder, não tinha jeito, ele não conseguira superar o fato de que a menina mais incrível que ele já conheceu, foi também a primeira a ouvir a frase ” Isso nunca me aconteceu antes”

Ela chegou em casa, tomou banho eufórica, escovou os dentes,  se vestiu, e foi  pro quarto da irmã se gabar da noite anterior; e no momento fatídico em que ela clicou na foto dele pra mostrar o homem que proporcionou a noite perfeita mesmo sem sexo… A foto dele desapareceu, e ela descobriu que nunca mais o veria novamente.

” Malditos encontros do Tinder, sempre a mesma coisa!”

E foi assim que acabou… O encontro perfeito.

 

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