Sua opinião não é importante, amigo.

Quando eu tinha 6 anos eu tinha uma única amiga chamada Raquel. Lembro que certa vez eu briguei com ela porque quando brincávamos de Barbie, ela preferia ser o cachorro( e aquilo me irritava) e ela parou de ir na minha casa porque eu deveria ser a famosa “dona da bola”. Mandei uma cartinha pra ela, daquelas bem insolentes, criticando o modo relaxado como ela penteava o cabelo , o fato dela preferir Sandy e Junior a Angélica e até mesmo a letra feia que ela possuía. Ou seja, uma série de coisas totalmente inúteis, mas que se me lembro bem, me ofendiam realmente.

Eu mudei de casa e não encontrei mais a Raquel, mas vez ou outra eu revisito essa lembrança quando tenho de lidar com certos caprichos comuns em amizades, e dou risada ao pensar sobre como eu era infantil em me incomodar verdadeiramente com coisas tão simples, e sobre como algumas pessoas ainda são, mesmo muito depois de adultas.

O que eu fiz aos seis anos de idade, algo bobinho, mas normal para uma criança filha única,  egoísta e que se sente centro do mundo e dona da verdade, ainda é algo muito comum em muitos adultos:

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Aquele ímpeto que algumas pessoas sentem para falar sobre características dos amigos que não influenciam em absolutamente nenhum contexto da amizade, mas que não as impedem da insensatez de cagar regras; aquela dificuldade em lidar com tudo que é diferente de seu próprio universo.

Aquele prazer perverso em deixar os amigos tristes com as “críticas construtivas”…

A avó “bondosa” que diz que a neta precisa emagrecer mesmo quando a neta parece extremamente confortável com o próprio corpo;

A amiga que diz pra outra que o vestido está super brega mesmo que aquela que está usando o vestido, claramente o adora;

O irmão que diz pra irmã que ela deveria parar de ser tão promíscua e se envolver em um relacionamento sério mesmo quando a irmã vive uma vida plena solteira;

O amigo ecologicamente metido a correto que fica criticando o fato do outro amigo ter um carro ao invés de usar metrô, ou uma bike;

A cabeleireira “companheira” que vive dizendo para deixar o cabelo cacheado para “honrar as raízes”, mesmo quando você acha mais prático e confortável deixar o cabelo liso.

O tio que evidentemente não paga suas contas, mas vive dizendo pra você largar o teatro e conseguir “um emprego de verdade”

Todas essas situações, todas essas pessoas se valem da intimidade de amigos para impor ao outro um capricho, uma vontade própria, que se fosse seguida, seria apenas mais um mimo conquistado, sem influência pro bem, nem pro mal…

Mudam as situações, aprimoramos a capacidade de argumentação para tornar nosso motivo plausível, somos até mesmo hipócritas a ponto de distorcer estudos científicos para usar como base para nossa argumentação “bem intencionada”, mas a realidade é que a grosso modo, essa mania de se valer da amizade para dar pitaco na vida dos outros é tão infantil quanto eu era aos seis anos brigando com minha amiguinha porque ela tinha a letra feia.

Aquela presunção displicente de quem sabe que é só um capricho, de quem quer fazer crer que é importante demais , e por isso o amigo tem que seguir à risca todos os “conselhos valiosos”, no fim das contas é só presunção mesmo, só coisa de quem é mimado demais à ponto de não perceber que não, não é importante, que o mundo não gira em torno de si, que a opinião que se tem não necessariamente é a correta, que é apenas uma opinião e que nem por isso precisa vir à tona..

A partir do momento que se expõe a opinião sobre alguém sem ser solicitado, ainda que inconscientemente, esperamos que aquelas palavras surtam o efeito desejado,esperamos que o amigo acate nossas “opiniões indispensáveis”, e questiono então…

Qual a necessidade disso?

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Quão maduros estamos, se mesmo quando somos adultos, continuamos causando desconforto em nossas amizades “porque a letra da outra pessoa é feia”? Assim, só pra fazer valer nossa vontade?

Muito se fala sobre o modo descartável como lidamos com os outros hoje em dia, muito se critica à respeito das pessoas que substituem pessoas e relações, que não têm paciência pra consertar nada, que ao invés disso preferem simplesmente ir embora.

Mas sempre me pergunto se entre cagar regras sobre o modo de vida das outras pessoas (que não influencia em absolutamente nada no nosso cotidiano) ,ou partir e buscar amigos com procedimentos mais compatíveis com os nossos, a segunda opção não é a melhor.

Faz parte da maturidade entender que não é sensato dar opiniões sobre coisas que não foram solicitadas, faz parte da maturidade entender que amigos não são robôs agindo conforme nossa programação, e também faz parte da maturidade entender que se alguém tem características que não nos agradam, é do nosso direito romper a interação se essas características de fato nos incomodam.

Achar que as pessoas são erradas porque não têm um modo de vida igual ao nosso, é imaturidade, mas se distanciar porque não conseguiu se adaptar às diferenças irrelevantes mas irreconciliáveis, é até sensato.

Afinal crescer é sobre ter humildade. E ter humildade é entender que nossas opiniões não são nem essenciais, nem importantes, ainda mais quando não são solicitadas, ainda mais quando se referem à vida das pessoas.

Dizer que uma amiga precisa procurar um psicólogo quando ela começa a colocar o dedo na garganta para ficar mais magra, é de fato cuidado; mas dizer que a amiga precisa emagrecer porque você acha que ela fica mais bonita quando as pernas delas estão mais finas, é apenas sua opinião;

Dizer que sua amiga tem que usar camisinha quando transa com vários caras, é cuidado; dizer que sua amiga precisa ficar com um homem só porque é mais socialmente aceitável, é seu juízo de valor.

Parece algo óbvio, mas mesmo depois de adultos, tem pessoas que confundem as situações displicentemente.

Eu aprendi a diferenciar muito cedo com minha amiga , que provavelmente parou de brincar comigo porque me achava chata pra caralho.

Eu procurei a Raquel depois de adulta no Facebook. Fui toda saudosista, falando de quando brincávamos juntas, como ela sem saber influenciou meu gosto musical, e sobre como hoje, lembrando das coisas que ela fazia, a considero admirável…

Ela não me respondeu. Também pudera:

Eu também não responderia no lugar dela. Já basta as pessoas que ela deve ter conhecido depois de adulta, e que estão até hoje se valendo da intimidade da amizade para criticar e dar opiniões sobre aquilo que ninguém perguntou. Se eu quando criança, já era uma egocêntrica e egoísta insuportável, posso imaginar o que ela acha que eu virei depois de adulta.

Mas não… De algum modo, eu me salvei, e continuo nessa busca até hoje, tentando discernir quando a minha opinião sobre as pessoas é essencial, e de quando ela é meramente dispensável. E infelizmente, em noventa e nove porcento dos casos, é a segunda opção.

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6 comentários

  1. Boas reflexões.
    Já fui gordofóbico, parecendo emitir cuidado.
    Já fui “punitivista”, parecendo desejar justiça.
    Já fui coercitivo, parecendo ser persuasivo.
    Já fui invasivo, parecendo desejar integridade alheia.

    Já consegui perceber estas minhas cagadas e desde então busco ser melhor que ontem.

    observação:As vezes penso em buscar algumas pessoas para pedir perdão por ter sido babacas, as vezes
    este desejo se dispersa em minha consciência. Quem sabe um dia, num encontro casual… ou não.

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