O que vamos contar quando tivermos oitenta anos?

 

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Eu deveria ter concordado com a minha mãe quando ela me dizia que eu não preciso de um celular de dois mil reais;

Deveria prestar atenção à minha avó, que mesmo aposentada tem a agenda mais cheia de compromissos divertidos do que a minha.

Quando eu tiver oitenta anos, que histórias vou contar para os mais jovens?

Vou contar que assisti todas as temporadas de Breaking bad em uma semana?

Vou contar que acordei com tesão, entrei no Tinder, conheci um cara gato, depilei a virilha, coloquei a calcinha nova e fui transar assim no maior piloto automático?

Vou falar que a Selfie que tirei  com meu prato de comida teve mais de mil curtidas?

Vou falar que tinha um guarda roupas com mais de duzentos sapatos que eu nunca uso porque mal saio de casa?

Vou falar que preferi ficar em casa assistindo filme pornô do que sair pra um lugar interessante com frequentadores interessantes e ser cortejada até ficar ansiosa pelo primeiro beijo e pelo sexo iminente?

O que eu vou contar para os mais jovens quando eu tiver oitenta anos?

Nós nem somos os filhos da guerra, muitos jovens da geração atual têm pais que se mataram, suam e suaram pra dar uma vida ainda que simples, mas confortável.

Confortável o suficiente pro filho crescer e poder decidir que profissão seguir , assim, nessa simplicidade toda, sem se preocupar com pressões , ou com situações que nos levam  a nos escravizar por necessidades extremamente básicas da humanidade;

Temos mil aplicativos que facilitam nossas vidas e as tornam tão mais confortáveis que hoje em dia estamos evitando sair  até mesmo pra se divertir.

Somos a geração que tem tudo na mão, que vê o tempo passar sem sair de casa, que condiciona a própria existência à solidão de ter um universo todo sem ser compartilhado com ninguém, só dentro da cabeça…

Existe só na nossa mente, quando a gente assiste um filme no Netflix, escolhe alguém atraente num cardápio de pessoas, ouve uma música pelo spotify, bloqueia alguém no Facebook porque discordamos do que a pessoa pensa, passamos dias seguidos jogando video-game e nem vê o tempo passar…

Tá tudo dentro da nossa cabeça…

E um universo todo em nossas mãos, para manipularmos sem sair do sofá, sem que seja necessário qualquer esforço físico, nem mesmo ver a luz do sol.

Interagindo com milhares de pessoas por uma tela de computador, mas sem o menor tato pra lidar com elas, suas diferenças e peculiaridades no mundo real.

O tédio, a previsibilidade de uma vida sem desafio algum, o comodismo de quem pode escolher o que ser na vida e optou por não ser nada, não ter objetivo nenhum, nenhuma paixão, nenhuma meta…

A agressividade de quem foi acostumado a ter absolutamente tudo, e se sente extremamente ameaçado toda vez que as vontades não são supridas, se sente ameaçado toda vez que os conceitos, todos cravados em pedra, são colocados em xeque, se sente ameaçado toda vez que o mundo de pensamentos do outro, entra em choque com o nosso, e a gente tá tão hermeticamente fechado, que a gente tem medo da nossa bolhas de ilusões ser estourada, contaminada pelo universo dos outros.

Apatia… E quando ela bate, temos preguiça de sair do nosso sofá confortável até pra buscar a mudança que nos torna mais felizes ( e sabemos) e que traz um pouquinho mais de significado, um shot de alegria pra nossa vidinha tediosamente equilibrada e previsível, pra vidinha sem valor que possuímos, mas que não mudamos por uma pseudo comodidade.

O mundo num movimento frenético e a gente preso no universo frágil que criamos dentro da nossa própria cabeça.

Quando eu tiver oitenta anos, que histórias eu vou contar pros mais jovens?

Vou contar daquele cara lindo que paquerei por meses no ônibus a caminho da faculdade, e quando finalmente consegui, descobri que ele não tinha pinto, ou vou contar do cara que conheci no Facebook, mandei um nude e marquei um sexo casual pro mesmo dia?

Vou falar do meu ativismo na internet contra quem tinha visão política diferente da minha, ou vou falar da amiga que conheci numa viagem e descobri que ela é uma das pessoas mais fodasticamente foda que existe?

Vou falar do vídeo do Youtuber, ou vou falar dos amigos adoradores do capitalismo que fiz numa balada e que trouxe pro meu convívio diário porque eram pessoas divertidíssimas apesar de acreditarem em coisas diferentes das que eu penso?

Vou falar do cara que eu segui no Instagram que era lindo e que me seguiu também, ou vou falar daquele cara de aparência normal, mas que despertou meu desejo quando eu toquei o corpo dele dançando colados numa festa de amigos em comum?

Vou falar daquele restaurante caro que eu fui só pra dar Check-in e postar no Instagram, ou daquela vez que tive caganeira numa excursão na frente do cara que eu estava afim porque comi carne de um bicho esquisito?

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Vou me gabar por ter postado uma foto com pose de Ioga à luz do sol no Snapchat fingindo uma vida saudável que não tenho, ou vou falar de quando inventei de escalar uma montanha e quase morri porque nunca tinha subido nem o Pico do Jaraguá?

Vou falar do Bolinho de Chuva que minha avó fazia especialmente pra mim quando eu ia na casa dela, ou do Churros Gourmet que eu comprei, mesmo sabendo que era um absurdo de caro, apenas pra mostrar o quanto sou refinada e tenho poder de compra?

Não, eu não quero ser da geração caseira, que passa o sábado a noite em casa assistindo Netflix e navegando na internet, mesmo tendo dinheiro pra sair e curtir gente;

Eu não quero ser da geração que vive com depressão, ansiedade , bipolaridade e que tem o corpo trêmulo, porque não desacelera nunca e nem sabe qual foi a última vez que sentiu o prazer de por os pés na terra;

Não quero ser da geração que ficou pagando pau pra um cara porque ele comprou um carro de duzentos mil, quando posso ser aquela que chorou quando viu uma paisagem que era tão linda, mas tão linda, que se emocionou sem se importar com quem tava perto.

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Estamos numa época de polaridades, porque as pessoas estão tão acostumadas ao conforto, a ter tudo facilitado ao alcance das mãos, que acham que podem simplesmente sentar e controlar o mundo conforme seus anseios, e toda vez que alguém  sai do script pra mostrar que nem tudo é do jeito que a gente quer que seja, a gente bloqueia, tira do nosso campo de visão, porque a internet trouxe a ilusão de que podemos criar um universo paralelo, mas esse universo paralelo, só existe na nossa mente, e quando somos observados por quem está de fora, parecemos seres solitários em situação catatônica.

É lamentável. Pra essa geração que é tão dependente da opinião alheia, que tal lhe parece ser alguém que busca subterfúgio na realidade virtual?

Qual foi a última vez que tivemos que lidar com a confusão de ter que lidar com alguém com idéias divergentes, vida diferente da nossa, comportamentos opostos daquilo que realmente apreciamos, mas notamos dentro da gente aquela conclusão de que ” não dá pra concordar com tudo que fulano faz, mas vou sair com ele porque ele é boa companhia?

Qual foi a última vez que estivemos tão próximos de alguém muito improvável, e que mesmo assim o cheiro da pessoa despertou nossos instintos mais primitivos:  O corpo suou, o pau subiu sem que percebesse, a boca encheu de saliva de tanta vontade e a gente ficou, beijou, trepou mesmo sem sequer na vida ter cogitado achar a pessoa bonita?

Qual foi a última vez que a gente ouviu alguém cantando ao vivo aquela música que a gente pula quando vem no “shufle” da playlist, e chorou porque a a voz da pessoa, era tão linda, colocava tanto sentimento, e dava tanto significado, que era impossível não se emocionar?

Não, eu não quero ser da geração Netflix, eu nem sei se vou ter netos, mas eu quero ter histórias reais e inacreditáveis pra contar quando eu tiver oitenta anos pra aqueles jovens que vão olhar pra mim incrédulos e dizer: ” Impossível, essas coincidências absurdas só acontecem nos filmes”

Não se gabe pra mim que vai passar o fim de semana assistindo Netflix embaixo do cobertor. Deveria ser a opção pra quando a grana tá curta e não tem o que fazer, não uma forma de maquiar orgulhosamente, a preguiça que temos de fazer alguma coisa pra tornar nossa vida menos ordinária.

 

 

 

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8 comentários

  1. Adorei seu texto, não sou dessas de optar pelo NetFlix, quero sempre viver, mas realmente as pessoas se gabam de viverem essa geração e nossas companhias vão se perdendo no tempo e definitivamente perdem tempo, quando saem não soltam seus celulares e a vida está passando… já o filme/série poderia ser algo para se ver de ressaca talvez kkkkkk, ou quando cansada por ter passado o final de semana curtindo o mundo real.

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