Sobre materialismo, solidão e coisas que temos que aprender a lidar.

E pra explicar que está tudo bem ir no cinema sozinha, viajar sozinha e almoçar em um restaurante sozinha?

E pra explicar que você é de poucos amigos, que não tem paciência e nem energia pra grandes aglomerações e não tem espírito de grupo?

E pra explicar que você é simples, e a vida perfeita que todos pregam como ideal nem te brilha os olhos?

Cresci vendo a falácia de que é impossível ser feliz sozinho, sendo alimentada o tempo todo. E eu, que sempre lidei bem com minha própria companhia, nunca consegui concordar com isso, porque mesmo quando eu era uma criança com pouquíssima inteligência emocional, estar sozinha nunca foi um problema, sempre foi divertidíssimo seguir só os próprios instintos e vontades alheia às outras pessoas.

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Sempre achei esquisito essas pessoas que estão sempre rodeadas de “amigos”, que nunca tiram um tempo pra si mesmas, que sempre estão ocupadas em mil eventos com música alta, pouca ideia, muita ostentação e nenhum significado.

Acho natural que em um momento ou outro, desejemos estar entre gente nova, conhecer novos universos, e novas possibilidades de amizades, mas desconfio seriamente de gente que tem dificuldades para lidar com a própria solidão, gente que possui verdadeiro pânico em estar na própria companhia, em deixar vir à tona todas as vozes silenciadas na própria cabeça, gente que se sente sem voz se está fora de um grupo.

Quando? Como uma pessoa consegue buscar auto- conhecimento se está sempre se privando de si mesma?

Algumas pessoas estão sempre rodeadas de pessoas, a própria mídia alimenta o fetiche pelo prestígio alimentado por puxa saquismo e bajulações.

A educação materialista que cultivamos, é um reflexo sobre o quanto nos escravizamos em nome da opinião alheia, porque se fôssemos centrados em si mesmos e em nossas necessidades mais primitivas, 90% das coisas que possuímos, não seriam necessárias, porque não nos fodemos trabalhando pra ter um carro de 70 mil reais com outro objetivo, que não chamar atenção dos outros, não compramos um celular de 3 mil reais, quando existe um de quinhentos reais que faz as mesmas coisas, unicamente porque desejamos , o objetivo é sempre agregar valor a nós mesmos diante de pessoas que mal conhecemos!

O nosso desejo é alimentado por aquilo que os outros pensam de nós mesmos, ainda que pensemos que esses outros sejam apenas montes de lixo, o pior: Deixamos que a opinião desses lixos, tenha peso sobre nossas vidas.

Nos escravizamos pelas necessidades que nós mesmos criamos para agradar pessoas que não conhecemos e com quem a vida não nos importamos, mas a opinião deles importa, e não deveria.

As pessoas estão acostumadas a  enxergar a própria popularidade como uma forma de valorização, enxergam o fato de fazerem atividades tipicamente coletivas sozinhos, como uma forma de decadência.

Como  se pode silenciar a voz da própria consciência pra valorizar a companhia e a opinião das pessoas que mal te conhecem e sabem da sua luta acerca da sua vida?

Quão insegura uma pessoa tem de ser pra confiar mais naquilo que os outros dizem a respeito dela mesma, do que naquilo que ela sabe a respeito de si mesma?

A auto- suficiência sempre foi condenada, sempre foi exposta como amargura, loucura e infelicidade. As pessoas sempre foram dissuadidas quanto a viver sozinhas: entrar em um relacionamento , num casamento infeliz, apenas para mostrar ao mundo que cumpriu a meta que a sociedade estipulou para nossas vidas sempre foi normal, embora seja no mínimo lamentável e decadente. Bem mais decadente do que estar sozinho.

Nós seres humanos somos controlados pelo medo, e não existe por parte do sistema o interesse em nos fazer crer que é possível ser felizes, nos bastarmos em nossas solidões, porque assim como se criam necessidades sobre coisas inúteis, se criam ilusões à respeito do quão autossuficientes podemos ser. O espírito de manada enaltecido tão veementemente, nos desumaniza e coloca à condição de bichos que reproduzem comportamentos sem questionar. Será realmente que isso é lisonjeiro?

Quando não guardamos um espaço pra estar consigo mesmos, não temos tempo pra buscar auto-conhecimento, não temos tempo pra aprender a ter auto- controle, e quem não sabe controlar a si próprio, se deixa controlar pelos outros.

Não me venham dizer que solidão é coisa de gente amargurada e triste, talvez o senso crítico nos torne pragmáticos, céticos demais, mas ainda assim, é preferível mergulhar nas profundezas da própria alma, do que passar a vida inteira nadando num mar de superficialidade, sem ir a fundo em absolutamente nada, sequer na própria existência.

Quem não sabe ser um, tampouco saberá ser dois, e não saber ser dois é um retrocesso para as relações humanas. Tom Jobim que me desculpe, mas quando disse que era impossível ser feliz sozinho, só criou uma geração de inseguros tentando justificar a própria carência através de frases bonitas.

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