Sobre ironias, Tinder,coragem e características que pouca gente tem

Ahhh a modernidade!

Traz a pessoa amada em um download de aplicativo.

A grande ironia é que mesmo com toda essa praticidade, as pessoas continuam sós.

Eu nunca vi, mas ouço falar de gente super empenhada em achar um parceiro amoroso, mas que  reclama que nos dias de hoje, isso está cada vez mais difícil.

Eu nunca vi, mas acredito que seja verdade.

A segunda grande ironia é que mesmo com tanta gente disposta a se apaixonar, tá todo mundo solteiro, ou pior de tudo, está todo mundo genuinamente só:

“Todo mundo se acha , mas ninguém se encontra”, e essa frase contém muito mais profundidade e significado do que se possa supor:

Quando se entra em um aplicativo de paquera e se tem dezenas de pessoas dando “sim” pra você, cria-se a sensação de que se tem muita gente à disposição só esperando sua vontade de se envolver pra que as coisas fluam . Essa sensação pode fazer bem pra auto-estima, mas também traz a possibilidade de que nós sintamos que somos e temos muito mais a oferecer do que na realidade, faz com que não nos empenhemos pra nos tornarmos mais atrativos e fazer com que as interações sejam de fato reais, não meras construções imaginativas, faz com que sejamos gatinhos pulguentos se sentindo leões, e os outros?

Ah os outros percebem, mas arriscam porque estão no mesmo barco, são uma fraude tanto quanto a gente.

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Todos estão vivendo das aparências de um personagem construído On line, com muitas expectativas e muitas vezes com poucas coisas pra oferecer aos outros, mas a verdade mais dura com a qual temos que lidar é o choque de realidade de ter alguém apontando os defeitos aos quais estávamos alheios sobre nós mesmos, cobrando adaptações, mudanças, e nós, afogados na ilusão de que somos fodásticos, insubstituíveis e acima da média ,não estamos dispostos a abrir mão de absolutamente nada, não estamos dispostos a mudar em absolutamente nada,  mas queremos ali, uma pessoa completa, pronta, que nos ofereça o frio na barriga do desafio da conquista, mas que ao mesmo tempo,  não nos desafie a admitir um defeito nosso sequer, que não nos desafie a mudar absolutamente nada em nós mesmos. Estamos todos nós apaixonados pelas propagandas enganosas que também criamos.

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Essa era On line, nos emponderou, nos engrandeceu, mas também nos iludiu, e a casca que criamos, o referencial que criamos de nós mesmos é tão frágil, que vai à ruína ao menor sinal de crítica, nos sentimos mal, nos sentimos uma fraude, e nos afastamos daquela pessoa que bem poderia ser a pessoa perfeita, caso tivéssemos maturidade para reconhecer nossos erros, caso estivéssemos dispostos a abrir concessões, reconhecer nossa humanidade frágil e se dispor a aceitar a humanidade frágil e falha de outra pessoa pra assim tentar uma vida a dois.

Queremos alguém perfeito, mas uma pessoa que concorde com tudo que fazemos, que não tenha senso crítico pra nos oferecer espelhos pra que consigamos visualizar quem realmente somos, queremos bonecos, que também não nos é interessante o bastante porque não são humanos, não respiram.

Pra sentir a delícia que é nadar no mar do amor, não dá pra molhar só os tornozelos, tem que mergulhar, ir fundo, e ir fundo implica correr o risco de se afogar, de ser devorado pelos monstros das incertezas, por em xeque toda aquela imagem de pessoa forma que ilusionamos sobre nós mesmos e que a outra pessoa destruiu num segundo: Não temos absolutamente garantia de nada, mas se queremos realmente o prazer de uma companhia, temos que abrir mão do orgulho sim, temos que ser ridículos à ponto de expor nosso amor, nossas vulnerabilidades, nossos medos, e temos que ter o equilíbrio e a maturidade pra levantarmos caso essa exposição não surta o efeito desejado e nos faça cair; temos que pedir pelo amor de Deus pra que não nos machuquem, temos que desconstruir todo aquele personagem imbatível que criamos só pra atrair as borboletas pro nosso quintal, temos que ficar à mercê do outro, e pra que a coisa seja saudável, o outro também tem que se expor, e se colocar à mercê da gente, não porque trata-se de uma relação simbiótica, e sim porque trata-se de um relacionamento entre dois seres humanos.

Só que antes de chegar nesse ponto de apostar todas as fichas, alguém tem que dar o primeiro passo, alguém tem que se expor, e aí corre-se o risco de se expor sozinho, de mostrar que ama sozinho, de ser o “fraco” sozinho.

A terceira ironia do amor é que abrir mão de todas as ilusões que criamos em tornos de nós mesmos, é um ato de coragem e tanto, então, dizer que ama, que quer, que precisa, acaba não sendo tão ridículo assim. Amar é pular de abismos esperando não cair, e tem muita gente por ai morrendo de medo de altura, mergulhar de cabeça na incerteza é coisa de gente muito foda, tão foda quanto aqueles personagens que criamos nos aplicativos de paquera.

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