Não, eu não vou encaracolar meus cabelos!

Há pelo menos uma década , me encantei com uma revista que vendida o discurso de que mulheres poderosas são livres, independentes e que vivem sua sexualidade plenamente.
Lembro como se fosse hoje o incentivo das publicações, diziam sempre que a mulher moderna é independente, poderosa, cuida dos filhos e é sexualmente disposta pro marido.
Lá estavam na capa:
”Verifique a dieta que te deixará mais Sexy e poderosa” ;
 “Brinquedinhos para apimentar a relação”;
 “ Agarre seu homem de vez realizando a fantasia em um menage sensual”

E foi possível notar naquela época, toda uma geração de mulheres se mobilizando pra se tornarem justamente a mulher maravilha que estampava aquelas páginas:
Mulheres gordas fazendo dietas estapafúrdias pra ficarem magras;
 Conservadoras fazendo coisas que deixariam putas coradas só pra atrair o reconhecimento do marido, totalmente contra as próprias naturezas e vontades;
Mulheres pobres pagando dois mil reais em uma bolsa que segundo a revista, vendem a imagem da mulher moderna bem sucedida;
Vi mulheres  fazendo o possível e impossível para serem mães, amigas, amantes, empresárias, gostosas e jovens… Tudo seguindo o passo a passo completo destas revistas.

E o que conseguiram com isso?

Se sentirem ainda mais inadequadas e fracassadas do que se sentiam quando procuraram essas publicações para terem um norte.

download
 
A tal liberdade de comportamento tão disseminada nos discursos das revistas femininas era totalmente imperativa, as mulheres estavam todas exaustas tentando preencher a lista de verificações que compunha a mulher maravilha moderna.
E foi assim , observando o desespero e equívoco dessas mulheres, foi conhecendo aquelas que escreviam esse tipo de texto e percebendo que elas não eram um terço daquilo que pregavam , que eu descobri que as mulheres poderosas e donas dos próprios narizes, estavam na verdade  se transformando em bonequinhas… E não estou falando de terem aparências de  Barbies não. Estou falando de marionetes, gente sem opinião própria  seguindo um padrão imposto pela imprensa que “representa a voz feminina”, de forma totalmente cega e burra.

E cá estamos nós outra vez, 2015, veja só, todo um Ode à beleza negra rolando. Legal, né?
Pois é. Se antes existia uma pressão da família das amigas, da mídia pra que nós negras deixássemos nossos cabelos de um jeito mais “social”, se antes nos diziam que deveríamos passar uma chapinha senão não conseguiríamos emprego, hoje em dia somos vítimas dos olhares tortos:
“ Nossa, você tem problemas de auto estima? Tem que valorizar suas raízes!”
“ Seu cabelo deve ser tão lindo encaracolado, porque não usa assim?”
“ Uma negra com síndrome de branca? Honra sua negritude, mulher!”
E mais uma vez o discurso de liberdade e autonomia feminina é disseminado de forma torta, buscando enquadrar mulheres em padrões, excluindo aquelas que não aderem ao novo comportamento, e pior ainda: Sob a falsa liberdade, reina mais uma vez a opressão e o controle .

images (3)
Brancas pintam o cabelo de loiro, brancas fazem permanente, brancas raspam careca, e não há ninguém, uma única alma viva pra questioná-las, pra acusa-las de traidoras, pra ridicularizá-las por suas supostas faltas de auto estima, por acusa-las de não honrar suas raízes.
Por que motivo então, isso é feito com as mulheres negras?

Será que ainda nos veem como as escravas que lhes devem obediência?

Será que nosso corpo é artigo público cujo destino é decidido em plebiscito?
A mesma mídia que julga, exclui e marginaliza uma pessoa por ser gorda, é a mídia que em breve enaltecerá uma pessoa pelo mesmo motivo. Esquizofrênicos? NÃO!
BUSINESS!
 A moda do momento SEMPRE foi ditada para favorecer a empresa que puder pagar melhor pela capa, e como se já não bastasse a idiotização a qual as mulheres se submetem, seguindo feito ovelhas em rebanho tendências da última temporada, ainda por cima mexem com a individualidade , recriminando aquelas que têm coragem o suficiente pra cagar e andar pra última tendência.
Todos, absolutamente todos se sentem no direito de dizer às mulheres como elas devem ser, quem elas devem ser, onde elas devem ir, como devem se vestir e como devem se comportar.
Oprimidas por si só, e no caso das negras a situação é ainda pior, pois cegas pelo discurso de “ Honrar as raízes”, estão discriminando sim, ridicularizando sim e oprimindo sim aquelas mulheres que decidiram que não vão honrar sua negritude, não agora, porque não estão com vontade.

Vaidade-Saude-ou-Escravidao
As negras estão sendo valorizadas?
PERFEITO!
Cabelos afros estão sendo associados a beleza , status e poder?
PERFEITO!
Espero que as coisas não mudem daqui dois anos;
Espero que seja o mesmo discurso, espero que as negras sejam valorizadas não só pela aparência de seus cabelos;

Espero que não sejam vistas como ” morenas tipo exportação”;

Espero que assumam cargos de lideranças na melhores Multinacionais;

Espero que deixem de ser maioria em posição de vulnerabilidade social e violência doméstica;

Espero que assumam mais vagas com nível de ensino superior;

Espero que os próprios negros aprendam a respeitar aquelas negras que ousaram ter a liberdade, a rebeldia de ser quem quiserem, a hora que quiserem.

Negras, mulheres e livres pra escolherem como e quando “honrar as próprias raízes” ou não.
Porque rolam boatos de que os negros são livres, mas tem gente por ai querendo nos colocar algemas e nos dizer o que devemos ou não devemos fazer, como se o tempo de alguém ditar o nosso lugar já não tivesse passado.

Posso eu definir como é que vou honrar minhas raízes? Posso eu decidir como é que vou usar meu cabelo?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s