Olhe para os seus!

Era mais uma dessas reuniões de família com dezenas de pessoas falando alto ao mesmo tempo, mas ele me chamou atenção justamente por estar sozinho, em silêncio, absorto no próprio universo em meio a todo aquele caos, desenhando em um pedaço de papel. Era o único que parecia equilibrado em sua solidão, ali, exprimindo sua arte com uma facilidade impressionante. Mas então a mãe dele se aproximou e percebeu-se só pela postura corporal do garoto, que todo o equilíbrio tinha acabado naquele momento. Tornara-se imediatamente incômoda até pra mim, que em momento algum fiz menção ou mostrei qualquer interesse no cotidiano  daquela família. Estava irredutível, começou a tecer críticas ao menino, que segundo ela “estava destruindo mais uma caneta e dessa vez nem era dele” , e achando que eu teria interesse na vida do menino,  ali, na maior promiscuidade, começou a expor o garoto: criticava desde o jeito antissocial , até suas intimidades no banho demorado, “sem contar todo o dinheiro que já tinha gasto com uma terapeuta pra que ele”, segundo ela, um dinheiro empregado em vão.no meio da multidao   Não foi preciso muito tempo pra perceber que a maior desequilibrada ali era ela, e diante da situação constrangedora de presenciar um filho ser humilhado assim sem o menor pudor pela própria mãe, eu me lembrei de várias situações semelhantes e lamentei a normalidade disso tudo. A vida inteira fomos educados pra acreditar que dependemos dos outros, a vida inteira fomos incentivados a nos preocupar demasiadamente com a opinião e julgamento dos outros, a vida inteira fomos induzidos a agradar, inclusive os outros que nem conhecemos e que nem têm importância na nossa vida. Quantas vezes não nos vimos  tirando do armário aquela toalha de mesa bonita, reservando pra visita os copos decorados, enquanto passamos a vida toda bebendo em copos de requeijão? Parece uma alusão absurda mas não é. Nós temos a mania de sempre supervalorizar quem vem de fora,  de priorizar a simpatia e reservar o melhor de nós pra quem nem nos conhece, e sempre achar que podemos falar e fazer aquilo que queremos com aqueles que convivem conosco diariamente, pois acreditamos que a intimidade é capaz de fazer com que os esses perdoem todo tipo de atrocidade. E é então que menosprezamos aqueles que nos conhecem e nos aceitam, nos amam acima de qualquer coisa, pra ficar alimentando um status e uma falsa aparência pra gente que não se importa, gente que vem e vai com a mesma facilidade e pouca relevância. A mãe que vive enaltecendo a beleza e feminilidade das outras meninas enquanto massacra a auto- estima da  própria filha; O pai que acha os filhos de todos os amigos inteligentes e bem sucedidos, mas sequer sabe descrever a vocação e o talento do próprio filho; O marido que gasta todo o dinheiro na rua com amigos e finge ser a pessoa mais generosa e divertida do mundo e que  dentro de casa, deixa a família passando dificuldades , ou se transforma num diabo sem rabos; A esposa que fica enaltecendo o marido da amiga e não consegue enxergar as virtudes do homem que está ao seu lado; O filho que é o ser humano perfeito para aqueles que estão na rua, mas chega dentro de casa, maltrata os pais e os avós; O namorado que  é todo gentil com as mulheres da rua, mas faz questão de diminuir a própria companheira só por prazer; Toda sorte de gente  refém da opinião e da aprovação de gente desconhecida , que definitivamente não se importa com a intimidade e com a vida do outro, mas que não comete o mínimo esforço pra ser um pouco melhor com aqueles do convívio diário…

Os personagens que criamos a fim de oferecer ao mundo uma versão menos medíocre da nossa vida e do nosso cotidiano, são apenas rascunhos , esboços dos bons seres humanos que gostaríamos de ser de fato. Muitas vezes tentamos recomeçar de novo, e acreditamos que expor um mundo enfeitado, que não condiz com a realidade, menosprezar aqueles que dormem e acordam com conosco diante dos outros, seja um bom modo de tentar justificar, de tentar delegar a responsabilidade  sobre a merda das nossas vidas. Talvez possa ser um bom modo de recomeçar, um bom motivo pra começar (mais uma vez) a exercitar uma humanidade melhorada,tentarmos ser a pessoa que almejamos. Mas  fingir que somos melhores, criarmos personagens não nos faz melhores, pelo contrário,basta um pouco de sobriedade, de sensatez,  para que olhemos pro espelho e percebemos que os únicos responsáveis pela nossa decadência, somos nós mesmos. Nem mesmo aqueles que convivem conosco diariamente são culpados. Apenas nós, e quando achamos que atos de cheios impacto e carentes de significado, fazem diferença, é que vemos que existe um longo caminho a ser percorrido, que existe um buraco imenso em nós, que ainda precisa ser preenchido com uma boa dose de caráter, porque a realidade é que somos aquilo que somos espontaneamente, naturalmente, assim, meio que sem pensar. Somos o que somos quando não estamos nos esforçando pra agradar ninguém, quando nosso corpo apenas exprime nossos instintos mais primitivos,e tentar mudar nossa essência pela aparência, pela casca, não extingue a podridão que temos dentro de nós, e vez após vez, quem somos vem à tona. Nunca é tarde pra exercitar, nunca é tarde pra sermos melhores e pra reconquistarmos aqueles a quem não precisamos reconquistar, pois nos aceitam apesar e acima de qualquer coisa. Mas não é porque não é preciso, e não é porque a capacidade de perdão é infinita, que deixaremos de fazer. Que tiremos os copos enfeitados para uma janta em uma noite de terça feira comum, que saibamos reconhecer diante do mundo, de uma legião de desconhecidos, as virtudes dos nossos, aquelas  que o tempo e o convívio diário , não conseguiram apagar. Que , diante de uma briga com o resto do mundo, fiquemos do lados de quem está do nosso lado diariamente e acima de tudo, diante da possibilidade de escolha, que inspiremos aqueles que nos conhecem em todas as nossas nuances, a quererem ficar, e não a quererem partir. Que o convívio seja prazer, e não obrigação, não um fardo. Que estejamos juntos de quem estamos juntos… POR AMOR! Não por necessidade, não por falta de opção.

Que sejamos muito mais do que suportáveis

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