Sobre pobres insubordinados e burros Gourmet.

A primeira vez que comi no MC Donalds eu tinha 16 anos,e eu tinha trinta minutos de intervalo e não sabia bem que lanche escolher porque não tinha a mínima ideia de qual deles era mais gostoso.

Em duas semanas, entre queimaduras, assédio moral de gente que vinha do mesmo buraco que eu, calor escaldante,ouvindo o barulho frequente da tostadeira mesmo quando já tinha saído do trabalho, me lembrei do meu professor de história, e todas aquelas aulas fizeram sentido completo pra mim naquele momento. Eu conseguia fazer cerca de 48 BIG Mcs em dois minutos, e esses lanches eram vendidos num combo que custava em média treze reais. Fazendo uma conta burra, isso quer dizer que em uma hora de trabalho eu já tinha pago meu salário do mês.

Tudo aquilo pra mim, toda aquela discrepância estava muito, muito errada.

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Mesmo tendo passado necessidades, pude me dar ao desfrute de pedir demissão, de me recusar a ser engrenagem de um sistema do qual eu não concordava e isso aconteceu diversas outras vezes na minha vida, mas eu nunca fui vista como a pessoa rebelde e inconformada que eu era, mas sim como vagabunda que não gostava de trabalhar.

Lembro também que no próprio colégio, nas aulas sobre descobrimento do Brasil, os professores diziam que foram trazidos escravos da África porque “os índios eram preguiçosos e não eram eficientes pra trabalhar”, e ainda hoje, quando penso sobre os índios e lembro que já fomos um território indígena, concluo que de fato está tudo muito, muito errado mesmo. Esse povo que se recusou a ser submisso, que não abriu mão de suas raízes,que foi taxado de preguiçoso por recusar a subserviência aos europeus, foi simplesmente dizimado do Brasil, e tem gente que concorda com isso, o mais fraco concordando com a lei que destrói os mais fracos.

Mesmo com uma infância e adolescência extremamente modestas, eu me considero uma privilegiada, pois foi graças ao suor e ao sangue dos meus pais, trabalhadores humildes e honestos, que eu pude fazer minha faculdade e nortear  minhas escolhas com base na minha ideologia, vontade e vocação, e não impulsionada pela decisão de passar ou não passar fome,situação que sei ser extremamente comum pra muita, senão a maioria das pessoas do Brasil. Reconheço a crueldade por trás da crítica a quem escolheu o caminho da prostituição moralmente aceitável, por tê-lo feito,e quando falo em prostituição, reafirmo essa análise, pois todos nós por nossa sobrevivência, nos vendemos em algum grau. A diferença é que alguns gostam, e ouço dizer inclusive, que tem puta que até goza.  O grande problema em ser uma prostituta do sistema, é a simpatia que se adquire pelo cafetão. Sim, quase uma síndrome de Estocolmo: A gente passa a acreditar que nosso opressor está certo, inclusive no que se refere à desvalorização que ele nos atribui, e não bastando essa simpatia, ainda passamos a reproduzir o mesmo discurso elitista, como se servir ao escravizador moderno, obtivéssemos imediatamente uma licença pra um dia tomar o lugar deles, como um mordomo que já se sente parte da família, que já dá suar ordens como se fosse o próprio dono da mansão. Mas nunca seremos. Não adianta chamar pobre de acomodado, alimentar o romantismo que basta esforço, trabalho e determinação pra alcançar o pote de ouro, porque não sei se vocês já sabem, mas o mundo não é justo e fazer as coisas certas não garante absolutamente nada.Rodrigo-Santanna-burro-de-Shrek1

Em São Paulo, essa síndrome de mordomo metido é bem latente. Um estado edificado às custas do suor de gente de toda parte, principalmente nordestinos e trabalhadores estrangeiros que encontraram moradia aqui, e mesmo existindo uma dificuldade imensa em encontrar um paulistano puramente paulistano, os naturais daqui costumam enaltecer o sangue europeu como uma velha mania de superestimar o que vem de fora do país, mas misteriosamente todo mundo se esqueceu de suas raízes nordestinas.

Ainda que de forma velada, ou chamam nordestino de burro, ou chamam de preguiçoso, isso quando não dizem veementemente que o Brasil é historicamente terra de gente vagabunda e malandra, como se mesmo tendo nascido em terras Brasileiras e vivido a realidade daqui, reconhecer o discurso  típico de quem está acostumado a abrir as pernas pros estrangeiros, os fará isentos dessa má fama alimentada pelo próprios brasileiros.

A minha insubordinação em não vender minha dignidade para um sistema escravocrata ,o indivíduo que prioriza amar seu emprego a ganhar bem, o trabalhador cujos olhos não brilham diante da possibilidade de ascensão econômica e social, os nordestinos que sabem que existe algo muito além de dinheiro e trabalho, qualquer cidadão que não aceita calado a desigualdade que assola o mundo, e todas as pessoas lutando pra que o abismo social deixe de ser um abismo, pois não é porque reverberam essa ideia, que ela é certa… Tudo isso é visto com maus olhos pelos mordomos de São Paulo.

Não, não são os nordestinos quem tem que se sentir constrangidos por não respirar trabalho e somatizar doenças provenientes do Stress, são os paulistanos que devem se envergonhar de ter ficados tão cegos, tão robóticos, que perderam a noção de prioridade, e já nem sabem o que é essencial e o que é futilidade quanto às suas existências. São os paulistanos que trabalham pra chegar num patamar econômico de gente medíocre,se endividando comprando coisas fúteis pra ostentar pra gente que está pouco se fodendo.

É o discurso de que São Paulo carrega o Brasil nas costas, de que nordestino é preguiçoso e deixa de trabalhar pra viver de bolsa família, é a revolta quando oferecem merda pros pobres e ficam indignados porque nos recusamos a comer, todas essas ideias propagadas como verdade absolutas, foram incutidas nas cabeças dos trabalhadores do sudeste e são repetidas roboticamente , como se fosse um mantra do babaca padrão.

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Simmmm, o paulistano que tem dinheiro pra consumir cultura e educação, que usa roupas caras compradas em shopping, que enfrenta transito pra ir pro litoral todo o feriado, que vai passar o carnaval em Salvador, que frequenta todo tipo de ambientes caros apenas pra terem o Status garantido,mas que perdeu o senso crítico no transito da marginal a caminho do trabalho. E não, não foi dentro de um carro seminovo trocado precocemente por causa do IPI reduzido.

Dentre esses mordomos tipicamente paulistanos, inclui-se ai , aquele que passou fome, que ascendeu economicamente com muitíssima dificuldade, e agora cospe no próprio passado, se identificando muito mais com aqueles que o vitimizaram, do que com aqueles que ainda não encontraram o “sucesso” tal como eles.

Esses mesmos paulistanos comem o pão que o diabo amassou, abrem mão do conforto, da dignidade, desconhecem o que é trabalhar por prazer, usam roupas de marcas caríssimas pra se enquadrar, compram carros com parcelas exorbitantes apenas pra construir a imagem de pessoas bem sucedidas, e quem sabe assim serem aceitas nas rodas da alta sociedade, e aparentemente esses mesmos paulistanos não sabem que o topo da pirâmide social é uma ilusão, e que na maioria das vezes, quem alcançou esse topo, não o fez por mérito, e sim por um nome tradicional que lhes garantiu mil facilidades, e sim por portas abertas através de conchavos, e sim por monopólio de poder,e sim por dinheiro atraindo mais dinheiro.

Admitamos que ainda que consigamos crescer financeiramente, ainda que um favelado se torne rico, ainda que ele consiga comprar muitos troféus com sua posição de novo rico, ele continuará sendo a plebe, ele continuará sendo o mordomo consumindo as mesmas marcas caras e frequentando os mesmos lugares que os chefes, mas que ainda assim, continua sendo olhado com desdém.

Se foder pagando um SUV e uma casa em bairro nobre pra ser bem visto em uma classe social pode ser bom, consumir produtos caros pra mostrar seu poder de compra pode ser bom, reproduzir o discurso elitista e separatista tão disseminado entre os mais abastados, tirar fotos na Europa, fazer check in em museus pra mostrar o quão consumidor de artes variadas se é…Tudo isso pode garantir algum status, mas é bom que jamais nos esqueçamos de onde nós viemos, é bom que não esqueçamos quem é que puxa nossas coleiras ou nos chicoteiam, e é bom que falta de coragem em nos rebelar, nos calemos antes de tudo, e paremos de chamar de acomodados e vagabundos, aqueles que não se vendem porque têm à reveria as coisas que valorizam realmente;

Paremos de criticar aqueles que vão contra a maré e têm a coragem de cuspir na nossa cara e dizer que não, não farão aquilo que mandam fazer.

Paremos de criticar aqueles que ousaram simplesmente não se importar com o fato da roupa ser de marca, o carro ser de duas décadas atrás .Ignorantes somos nós paulistanos, deslumbrados com a casa do patrão, sem perceber que somos os verdadeiros burros de cargas..

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2 comentários

  1. Para mim foi o melhor texto seu que já li,me considero um membro dessa resistencia contra esse mercado de trabalho explorador,que quer nos diminuir cada vez mais,já não basta sugar nossa força de trabalho,querem sugar tbm nossas idéias e censurar nossas ferramentas para resistir a essa tirania,e ainda somos julgados como vagabundos pelos inúmeros “mordomos” que existem,e estão cegos por esse discurso “suicida” e mentiroso,que quer nos domesticar cada vez em um grau maior.

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