O que uma pianista nua tem a ver com as nossas vidas?

Deixei de assistir TV há alguns anos, quando dei minha televisão para a caridade. No entanto, pensando sobre isso neste exato momento, me pergunto se fui altruísta ou perversa, porque um aparelho de tv não entretém ninguém, pelo contrário, contribui ainda mais com a alienação e o retrocesso educacional que sofremos desde sempre.

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Sempre que ouço falar da tal pianista nua, sinto uma vergonha de modo tão amplo, e não é vergonha alheia não, é vergonha por mim, por todos nós brasileiros, porque no fundo só nos sentimos incomodados com aquilo que nos diz respeito de alguma forma, que nos toca de alguma forma, e sim, essa pianista diz tanto sobre todos nós ,e temos tanto em comum:

Quantos de nós não nascemos com um talento para algo excepcional, cultivamos o sonho de viver do nosso dom,da nossa arte, e nos deparamos com a realidade de um país que não valoriza nem arte, nem cultura, nem o pensamento livre?

É bom que sejamos sempre os mesmos acéfalos que não questionam nada e engolem de boa vontade tudo que nós é dado. Sim, é ótimo.

Ouse questionar;

Ouse ser diferente;

Ouse mostrar que sabe que é um manipulado;

Ouse lutar contra isso, e só assim perceberá que o universo conspira contra aqueles que questionam.

O que é então uma pianista tocando nua?

Ela poderia ser destaque justamente por ser uma mulher com um talento em um cenário predominado de homens, mas que ironia, não? Quando se é uma mulher excepcional, com um dom excepcional, acaba-se fazendo o comum, o tediosamente normal para ser vista apenas como mais uma mulher brasileira,resumindo-se a um pedaço de carne, tocando em seu piano a música da Valeska Poposuda,uma feminista moderna, na falta de verdadeiras representantes do feminismo moderno.

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Quem é essa pianista que não o reflexo do nosso lado mais prostituto, mais corrompido?

E não me refiro somente às mulheres, falo do trabalhador de modo geral, aquele que fez faculdade, se gabaritou e hoje tem um diploma pendurado na parede. Em um país onde tudo é subvertido, onde existe uma quantidade acima do normal de adultos com formação superior, onde ensino superior é maquina de dinheiro, não de capacitação;

Quando gastamos por ano o preço de um carro popular pra pagar a faculdade , e acabamos ganhando salários de merda, apenas para nos lembrar que se não formos tolhidos pela ignorância, seremos justamente pelo oposto,uma pianista nua é motivo de vergonha, não por por ambição ou por depravação, e sim por sobrevivência.

O que nós fazemos em nome de sobrevivência? Em nome de uma pseudo dignidade?

Porque sim, até o conceito de dignidade é distorcido. Sonos educados desde sempre a nos conformar com as migalhas que nos são dadas, sendo incentivados a conservar um sacrifício pensando num plano superior, mas enquanto aqui, vivemos na merda eternamente, os mesmos salários de merda, as mesmas empresas de merda, com injustiças de merda.

Muitas vezes, na busca desesperada por sermos vistos e valorizados por nossos dons, acabamos  diminuindo a si mesmos, nos nivelando por baixo , passando por cima das nossas crenças, ideologias, valores , e no fim percebemos que apenas vendemos a si mesmos como produtos baratos e que não, não conseguimos chamar atenção para nossa arte, pelo contrário, nossa arte foi esquecida e nos convertemos naquilo que mais tememos e odiamos, nos tornamos meros bobos da corte.

Quantos de nós não se viu aceitando aquele emprego naquela corporação que sempre nos despertou nojo, apenas pra ver se obtinha “experiência na carteira”, pra ver se acumulava dinheiro o suficiente pra conseguir de forma autônoma, alavancar a vida profissional, e no fim das contas nos vimos ali,até mesmo ganhando um bom salário, uma chupeta, um cala boca excelente pra que esqueçamos quem somos e pra que viemos, e nos tornemos robôs, despersonalizados, oferecendo um tratamento personalizado aos clientes das grandes corporações. Fazendo todas aquelas coisas que condenamos, defendendo a empresa com unhas e dentes, exclusivamente porque percebemos que até mesmo nossa dignidade foi comprada?

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Lucro, dinheiro, lucro dinheiro. Não pra nós, mas para a empresa que resolvemos servir.

Uma pianista sentada nua em frente ao piano, somos todos nós na nossa corrida pelo sucesso, tão românticos quanto, tão vulneráveis quanto, tão nus quanto, pra perceber no fim que foi mera ilusão, que o pagamento por nós mesmos, era pouco e se acabou, e que não há nem futuro, nem reconhecimento, nem sucesso, nem qualquer motivo pra se orgulhar daquelas coisas que a gente faz quando se está muito desesperado, implorando pra que alguém nos olhe e enxergue uma virtude além da nossa pré disposição pra ser só mais um parafuso dessa engrenagem maldita.

Basta rezar pra que tenhamos memória curta, e que esqueçamos o preço baixo pelo qual vendemos nossa alma.

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