O Homem invisível

 

 

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Sábado, domingo, feriado…Inverno, verão, chuva, sol…

Não importava, ele sempre estava por aqui, subindo e descendo com a feição séria, rígida.

Não era soberba nem antipatia: CONCENTRAÇÃO.

Bastava uma esmorecida pra que ele fraquejasse, pra que o corpo dele não aguentasse o peso do carrinho que era sempre muito maior que o dele.

Dai sumiu…

Não é que sumiu, estava lá ainda todos os dias, fizesse chuva ou sol, mas o tempo o fez invisível, e eu mesma, que o observava trabalhar todo santo dia e jurava que um dia o veria rico( que ingenuidade a minha!), só percebi que ele se tornara invisível, quando desviei meu olhar viciado e o vi lá. Ainda estava lá. O trabalho condenara o corpo, abreviara os dias, mas não lhe dera nem um centavo a mais, nem um folga, uma garantia que no próximo dia poderia ser comprado um doce barato, pra adoçar o paladar.

Olhei surpresa, negativamente surpresa, até um pouco desapontada, mas sorri pra ele num ato  automático. E ele, que tinha a postura sempre muito rígida, naquele corpo que não era musculoso por causa da academia e sim pelo esforço diário embaixo do sol, me olhou surpreso, e me sorriu também, fazendo o corpo  amolecer e o carrinho descer a rua desembestado, parando num degrau qualquer e espalhando sucatas pelo chão.

Mas ele não se importou; fazia tanto tempo que era invisível que quando foi notado, tratou de abrir a boca com alguns dentes podres. Devia ter uns 30 anos, mas parecia ter o dobro, e ainda assim sorria. Não era um riso simpático, nem um riso feliz, mas era o riso que ele conseguia me dar naquele momento. Uma gargalhada macabra, insana,  e que não cessava nunca.

Parecia louco, muito louco. Mas não havia droga naquelas ações. Nem drogas, nem dinheiro pra comprá-las.

Era solidão, solidão matadora.

Mesmo todos os dias, segunda, quarta , feriados, embaixo do sol, atrapalhando transito, mendigando latas vazias em meio a multidões, era invisível. No meio de multidões, era solitário. Tão solitário que raramente ouvia a própria voz. Tão solitário que perdera o referencial dos comportamentos sociais. Tão solitário que não sabia que seu sorriso não estava me alegrando, antes me assustou e entristeceu, aquele riso fantasmagórico com poucos dentes.

Mas não era perigoso, era solitário. Tão solitário que não tinha ninguém por perto de quem copiar as ações. Tão solitário que era somente instinto. Tão solitário que me ofereceu um sorriso triste, mas do modo que ele sabia fazer. Um mero agradecimento por eu ter olhado pra ele e enxergado uma humanidade que nem mesmo ele lembrava que possuía.

 

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