O Amor que a gente não divide

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Faz tempo desde que eu mesma fui a protagonista de uma dessas briguinhas tão desgastantes mas comuns entre casais. Tempo o suficiente pra olhar com isenção e desenvolver uma espécie de pânico de cenas de egoismo e auto degradação extremas. Situações cotidianas e vistas com naturalidade por qualquer ser humano, são pra mim cenas de um filme que eu não gostaria nem de assistir, tampouco protagonizar. Amar e ser amado traz mais trabalho do que prazer.

E os tempos estão mudando. Dizem que os relacionamentos de antigamente eram pra sempre porque as pessoas eram educadas pra consertar o que estivesse errado em suas vidas, mas a verdade é que antigamente a durabilidade dos relacionamentos estava pautada em necessidades, convenções sociais e vários outros fatores totalmente alheios ao amor e estes fatores já não são tão decisivos hoje. As pessoas estão mais independentes emocionalmente, os valores mudaram e é provável que os casamentos de hoje aconteçam por amor e outros motivos muito mais sinceros do que de antigamente. Sim, tem muita gente que acredita no amor, e tem muita gente que quer se apaixonar, paixão, essa “loucura socialmente aceita”.

A vida de solteiro é muito sedutora, e é muito mais prático aprender a lidar com a própria solidão, sem ter que dar satisfação pra outra pessoa ou se cercear dos próprios desejos por outra pessoa, do que estar em um relacionamento onde temos que aprender a lidar com nossos sentimentos e sentimentos alheios, driblar vaidades, sentimentos de posse e caprichos mil, e viver uma vida de privação e tomar decisões que vão impactar nas nossas vidas e na vida de quem escolhemos pra ter ao nosso lado.cena-de-heroscar

Creio inclusive, que por este motivo as alternativas virtuais acabam fazendo tanto sucesso. As redes sociais trazem a falsa percepção de que não estamos sozinhos , e as pessoas com quem interagimos acabam sendo mera projeção da nossa própria imaginação, quiçá alter -egos que parecem atrativos e interessantes por suprir falsamente qualquer tipo de expectativa que criamos.

Acabamos apaixonados por nós mesmos?

Podemos passar horas, dias, anos conversando com alguém do outro lado do mundo, mas quando essa mesma pessoa ganha vida, respiração, trejeitos e manias, a interação não mais é simples. Desligar o computador e ler um livro não é uma opção que funcione. O mundo real não é tão fácil e divertido.

Em salas de bate papos, aplicativos para celular, redes sociais, temos a todo momento pessoas do mundo todo buscando aplacar a solidão ainda que momentaneamente, buscando sexo  fácil e rápido instantaneamente, e chega um dia em que esse comportamento é repetido tão compulsivamente que torna-se robótico, desumano e não mais supre a vida de quem o pratica.

Nossas relações estão virtuais, mas não estamos nos relacionando com outras pessoas  do outro lado  do mundo que nos tornam imunes à solidão,estamos nos relacionando com frutos do nosso capricho e egocentrismo, num universo de pessoas totalmente substituíveis e descartáveis, tão logo falem ou façam algo que fuja às nossas expectativas, às nossas vontades.

Inevitavelmente, nesse mundo de solteiros orgulhosos, solteiros que o são por preguiça de todo trabalho que uma interação sentimental possa trazer, acabo me perguntando se não estamos tão irremediavelmente sós, tão doentes, que mal conseguimos perceber que essa busca  desesperada pelo novo, pelo próximo, na verdade não está ligado à nossa falta de capacidade pra preencher o vazio que nunca se preenche, e entre a namorada ciumenta que não permite que o amor jogue futebol com os amigos, entre o marido controlador que quer que a mulher seja uma marionete que faz tudo que ele quer, não somos também seres egocêntricos e egoístas interagindo com máquinas porque não temos paciência pra sermos contrariados pelas outras pessoas? Por seres humanos do mundo real?

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Não somos também românticos inveterados buscando sempre no próximo sexo, a pessoa que vai despertar em nós a paixão louca e irracional? A pessoa perfeita que será e fará exatamente tudo que quisermos?

Que utopia, não?

Quão independente somos quando nosso equilíbrio emocional acaba dependendo exclusivamente do bom funcionamento dos nossos computadores?

Quão frágeis somos pra valorizar excessivamente , coisas nada palpáveis?

Quão auto suficiente somos pra buscar constantemente , migalhas de companhia nos braços de pessoas que nunca vimos e que mal veremos ?

Colocando nosso prazer, nosso entretenimento, nossa solidão nas mãos de pessoas que nem conhecemos ainda… Triste, não?

Somos melhores do que a namorada que faz birra e arranja confusão porque o namorado saiu pra  beber com os amigos, quando somos egoístas o bastante para regular nosso amor, nossa companhia, nossa intimidade pra alguém, exclusivamente pela preguiça que temos em ter que lidar com o outro?

Será? Será realmente que somos tão fortes quanto dizemos e achamos que somos?

 

 

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4 comentários

  1. Parabéns pelo texto.

    Este trecho em especial mostra como estamos nos tornando rasos.

    “Nossas relações estão virtuais, mas não estamos nos relacionando com outras pessoas do outro lado do mundo que nos tornam imunes à solidão,estamos nos relacionando com frutos do nosso capricho e egocentrismo, num universo de pessoas totalmente substituíveis e descartáveis, tão logo falem ou façam algo que fuja às nossas expectativas, às nossas vontades.”

    Vivemos pelos nossos caprichos, nos tornamos mimados. No primeiro sinal de desavença buscamos algo novo com a ilusão de que será mais perfeito que o anterior.

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