Sobre felicidade, sucesso e outras mentiras de seres humanos normais

“Não temos tempo a perder…

Não temos tempo pra família…

Não temos tempo pro amor,

Nossa mente está doente;

Mas temos tempo ocioso demais, todos parados aqui , esperando por nossa chance.”

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E lá está ele de novo,um mendigo rindo de mim, como outro dia desses , quando eu já estava há quarenta minutos parada na mesma rua, a casa dele, como todas as outras ruas de São Paulo.

Ele ria de mim, de mim  e mais centenas de motoristas, presos em seus carros. O único que se movimentava ali era ele, corria, ia e voltava ,assim como faz hoje:

Passa dando risada, perguntando aos motoristas mal-humorados se ele é fraco, se é o oprimido, se é o burro,se está em desvantagem.

“Quem é o manipulado afinal?”

Ah, ele sempre gargalha antes de ouvir as respostas. Costuma dizer que é livre, que nenhuma amarra física ou imaginária o prende. Nos chama de tolos por estarmos presos em nossos tesouros de lata, comprados em sessenta prestações:”

“A autonomia desejada, a âncora imaginária”

Estamos aqui aprisionados numa cela que nós mesmos construímos, mal humorados com quinhentas músicas prediletas que não amenizam o mal estar, e ele está ali fora, livre, solto e nos pentelhando por opção.

Que ironia!Quando nos falta  tempo pra  tudo, o tempo ocioso no transito nos dá tempo demais pra pensar sobre as nossas vidas e aquilo que fazemos dela;

Nós e nossas futilidades essenciais, as necessidades que criamos, o emprego que detestamos mas mantemos para manter um padrão de vida que não é o padrão que consideramos bom, ou que almejamos, mas que acatamos como modelo pra nós mesmos.

A espontaneidade se perdeu, e já não estamos certos se nossas vontades são realmente nossas;

Pouco a pouco vamos nos tornando seres mais  competitivos, na guerra desenfreada pra sobre quem é o melhor,o mais bonito,  mais simpático, mais bem sucedido, mais perfeito, melhor administrador do próprio tempo…

Para mostrar pra quem?

QUEM SE IMPORTA?

pro blog

Qual o nome daquele com quem você se importa?

Você o conhece?

Uma competição pra mostrar quem é mais feliz… MAIS FELIZ!

Ah a Felicidade… Nunca na vida existiu tanta necessidade de ostentar felicidade, e como tudo que se ostenta, na maioria das vezes temos demonstrações exacerbadas de uma imagem sobre nós mesmos que nem mesmo acreditamos, que nem mesmo sabemos do que se trata, e evidentemente não condiz com a realidade.

MENTIRAS!

Mas quem se importa?

O carro tecnológico cheio de componentes que jamais usaremos (pensando bem, não precisamos nem de metade disso);

A casa gigantesca da qual só usamos três cômodos;

O trabalho que consome nossa vida, nossa saúde, nosso tempo, em prol de um dinheiro que paga por coisas muito aquém do que  precisamos e queremos…

É essencial não decair. Precisamos evoluir sempre. PARA O ALTO E AVANTE!

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Mas…O que nos é essencial?

Aquela promoção no trabalho , naquele cargo que nos entedia, para que obtenhamos um salário maior ,que nem precisamos tanto assim e nem dispomos de tanto tempo assim pra gastá-lo, mas que paga as coisas descartáveis que compramos para presentear a quem desapontamos mais uma vez com a nossa ausência?

A auto- estima que fingimos possuir porque nos disseram que era o primeiro passo pra  aprendermos a gostar de si mesmos?

A falta de doação para com os outros?

O catolicismo que fomentamos, mesmo intimamente não possuindo nenhuma esperança, nenhuma fé, mesmo não acreditando em Deus?

Os filhos que não queremos ter, mas  que traremos ao mundo apenas pra perpetuar um gene que não fez nada de excepcional? Apenas para eternizar nossa presunção em nos sentirmos seres  humanos fenomenais?

Apenas para construirmos a tradicional família babaca que antes de existir já nos entedia?

Quando foi a primeira vez que colocamos máscaras? Qual foi a última vez que as tiramos?

E  aquelas vozes? Aquelas vozes que ecoavam dentro da gente , que questionavam nossas ações, nossas vontades, nossas crenças?

Aquelas vozes que não nos deixavam esquecer quem eramos e que têm sido cada vez mais ignoradas, de forma tal que estão se calando, e em breve nem existirão mais ,morrerão junto conosco, junto com nosso instinto original?

O olhar apático,  o sorriso vazio, a cara bem mal forjada de uma felicidade que nunca provamos?

E a sensação de não pertencimento, quando num momento de total vulnerabilidade, admitimos nossa insatisfação e infelicidade, e somos engolidos por todos aqueles que também não sabem o que é isso, mas que  ficaram experimentes na arte da mentira?

E aqueles que acham têm total aval pra julgar porque acreditam em Deus?

Aqueles que se sentem mais abençoados, superiores, mais privilegiados e mais felizes(seja lá o que isso signifique), somente porque acreditam em Deus?

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E quando foi que as mascaras tornaram-se confortáveis demais à ponto de não  tirarmos nunca mais? Não incomoda? Não machuca? Não sufoca? Não nos faz livres?

Livres?

Ricos?

Mendigos?

E o mendigo? 

Riem dele, o chamam de louco, e eu não vejo graça nenhuma.

Loucura? Qual foi a última loucura que eu fiz?

 Não há muito do que rir. Ele está sempre certo.

Eu abri mão da minha liberdade em nome de uma coletividade que nunca admirei.

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E a minha loucura… Ah… minha loucura foi assassinada, junto com minha inocência e minha sinceridade.

…E a máscara que eu tinha comprado pra usar só em lugares onde ela era essencial pra garantir minha sobrevivência ,se fez tão confortável que grudou na minha face, e quando aquelas vozes internas insistem em aparecer, eu trato de me lembrar  que eu sou normal, e que pessoas normais não querem muito, não pensam muito, e nem questionam muito. Elas são apenas uma repetição do comportamento dos outros, elas são só um clone dos outros. 

E eu aparentemente sou normal, uma paulistana normal presa no transito, rumo à minha rotina, indo servir a um homem de quem não gosto e com quem não me importo também, apenas pra bancar um padrão de vida que não me satisfaz, assim como todas as outras pessoas normais.

Anormal é esse mendigo, que poderia estar em qualquer lugar  mas fica aqui enchendo o saco, jogando na cara da gente toda nossa estupidez.

TÁ RINDO DO QUE, MENDIGO? VOCÊ NEM TEM DENTES PRA SORRIR!

 

 

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