A reinvenção de nós mesmos

Houve uma época em que a internet era o paraíso dos Nerds, loucos e solitários. Época em que se conhecia alguém nos chats da vida, conversava-se por meses vislumbrando a aparência, e com muito custo recebia-se uma foto por correios que frustrava qualquer expectativa, mas que ao mesmo tempo não era suficiente pra destruir o vínculo que já tinha sido construído com muitas conversas intimistas madrugada afora.

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As coisas mudaram tão irremediavelmente, criou-se um universo paralelo tão relevante, que as pessoas se alienaram no mundo virtual a ponto de se anularem do convívio social. A ferramenta poderosa que nos possibilita a conexão com pessoas de todas as partes do mundo, nos afastou das pessoas reais, do mundo próximo, aquele em que se toca com as mãos.

A ironia é que a Internet é só uma versão mais enfeitada do mundo real, e não é preciso mergulhar a fundo nesse oceano cibernético pra notar isso. Na net é tudo absurdamente prático: Acolhidos por um Avatar, podemos expor todas as nossas facetas, preconceitos, frustrações e medos, e quando nos tornamos vulneráveis demais , quando o virtual começa a influenciar demais no que somos no mundo real, ou simplesmente temos a grandeza de admitir para nós mesmos que tivemos um comportamento deplorável e vergonhoso(ao menos na rede), deletamos tudo e começamos do zero;

Perfil novo, vida nova. Fácil, não?

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Seria um sonho se a vida real fosse assim, e provavelmente isso justifique o motivo pelo qual esse mundo  conquista tanta gente.

Se engana porém, quem acha que aqui podemos criar personagens e esconder nossa essência, o mundo virtual expõe sempre uma versão potencializada daquilo que somos: cada preferência, ideologia, cada preconceito velado, cada vestígio de mau humor,cada revolta, cada sentimento de inveja, uma hora ou outra vem à tona de um jeito que é impossível esconder. Sempre haverá algo, algum detalhe que denunciará a pessoa por trás do perfil. Falamos muito sobre nós até quando simplesmente escondemos, até quando simplesmente NÃO FALAMOS SOBRE NÓS.

 

O Virtual imita o real, assim como a arte é uma repetição da vida;

E assim como muitas pessoas se escondem numa vida virtual, também há aqueles que cientes da vida plastificada que levam, cansados das máscaras que têm que usar na sociedade, fazem uso da Internet pra se abrir, expor quem realmente são, independente do quão bizarro possam ser. E assim como aqueles que criam personagens, estes seres bizarros, moradores dos porões da internet, quando expostos demais, vulneráveis demais, apagam-se do mundo virtual com a mesma velocidade que surgiram, reinventando-se vez ou outra, por trás de outro perfil, outra rede, outro fake visceralmente humano, outra confissão inconfessável.

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Entre os dois tipos de indivíduos, me preocuparia ser parte daqueles que acredito ser a grande maioria, com seus risos fakes, suas vidas bem sucedidas fakes, seus amigos fakes, suas felicidades fakes vulgarmente escancaradas e até suas belezas fakes.

Criou-se um pacto de auto- engano e hipocrisia: Todo mundo vê, todo mundo sabe que é mentira, todo mundo alimenta a mentira, e qualquer indivíduo que mostre uma realidade não tão bela, sem viagens caríssimas pro exterior, nem pratos nem tão enfeitados de restaurantes nem tão caros, corpos nem tão esculpidos em academias não tão chiques… É imediatamente rejeitado. E não estou certa se é por expor ao mundo a falta de Glamour da vida real.

Simpatizo mais com os sinceramente bizarros, pois em um mundo tão superficial, o fato de existir um lugar ainda que remoto onde podemos ser nós mesmos, onde precisamos se eximir do sorriso falso, da puxação de saco em busca daquela promoção na empresa, da imagem de Princesinha, ou de macho dominante bem sucedido , é um verdadeiro alívio.

Com a cegueira coletiva que se instaurou, somos algozes e reféns da superficialidade que alimentamos;

Da Era em que escolhemos parceiros amorosos com base em fotos, utilizando sim e não como respostas definitivas;

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Da época que nos deixamos conscientemente seduzir pelo registro da viagem pra Europa, se esquecendo que provavelmente foi paga em dezenas de parcelas no cartão de crédito;

Pela pose milimetricamente pensada pra favorecer o porte físico;

Pela comida que foi registrada não pra ser degustada, mas pra expor o poder de barganha de quem pagou por ela;

Pelo passeio entre amigos que nem foi tão legal assim , mas que serviu de enredo pra tirar fotos e ostentar uma felicidade que não se provou nem hoje, nem nunca…

Criou-se certo desprezo pela criatura real, porque a tal, totalmente desprovida de glamour, traz consigo um espelho, que faz com que a pessoa olhe pra si mesma e veja que nem ela nem o outro são aqueles personagens fantásticos que tentaram criar.

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A verdade… Bem, a verdade dói, e a grande maioria está confortavelmente sedada nas redes sociais por toda a facilidade que elas oferecem: Permitir que nos reinventeos, nos enfeitemos , que criemos personagens numa péssima atuação, que na verdade só reflete a mediocridade das nossas vidas;

 

Que só reflete que ainda somos eternas crianças, que mesmo depois de adultos, criamos personagens que jamais conseguiríamos ser na vida real, pra impressionar gente que não se importa, e nem nota, porque está ocupada demais vivendo a própria realidade cibernética.

 

 

 

 

 

 

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