Amantes e só o melhor lado.

Ele sempre ficava sentado na cama olhando além janela. Fumava seu cigarro com ar de superioridade, silencioso…

Mas era apenas um ar de superioridade.

Ela que não o conhecia tão bem quanto poderia, sabia que não existia nenhuma soberba ali. E mesmo que ele estivesse sentado olhando na mesma direção com o cigarro aceso, era provável que ele estivesse somente relaxando, assim, sem pensar a fundo sobre nada.

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Ela ponderava o fato de detestar cigarros, mas era impressionante como qualquer sabor na boca dele tornava-se imediatamente afrodisíaco.

Sempre sabia que partiriam em breve, então repetia o mesmo ritual: O Abraçava por trás, sem atrapalhá-lo contemplando a janela,  beijava a nuca, as costas e o cabelo, tomando cuidado para não deixar nele qualquer vestígio de batom… Qualquer vestígio de si, mas aproveitando o tempo que restava.

No fundo ela queria que a esposa descobrisse, queria que a rival sentisse o cheiro do melhor perfume no suor dele,mas precisava continuar sendo a amante perfeita, tinha de convencê-lo de que a troca valeria a pena. Mantinha-se quase invisível, até que ele a requisitasse.

Oferecia-lhe a camisa tomando o mesmo cuidado de olhar pra ver se não tinham marcas de batom, e quando eles se levantaram e ficaram frente a frente, ela abotoava botão por botão enquanto ele mantinha os lábios grudados na testa dela.

Ele fazia questão sempre, de ressaltar pra ela e até pra si mesmo que era só sexo, mas a realidade é que ele vinha repetindo só sexo com a mesma pessoa há mais de um ano, tremenda falta de criatividade.

Quando se colocavam em público, despediam-se como amigos sem intimidade. Sem grandes demonstrações, porque teoricamente não havia afeto mesmo.

Encontros como aquele  aconteciam uma ou duas vezes na semana e sempre o deixavam de bom humor. Ele ia embora sentindo que o dever foi cumprido, que fez um sexo maravilhoso, e que fez uma mulher feliz enquanto a fazia gozar deliciosamente e aquilo o renovava.

Chegava em casa cantarolando, com o rosto corado, e a esposa que o conhecia em quase todas as suas facetas, já sabia que ele estivera com a outra .

Costuma ser tomada por um ódio terrível quando episódios assim aconteciam. Se colocava a xingar a outra em pensamento,mas no fim das contas, colocava os bebês pra dormir no outro quarto, se trancava quarenta minutos no chuveiro, e enquanto chorava toda a inveja que sentia da amante, que tinha a novidade, a paixão e a conquista, se paramentava para o marido, perfumando-se bem , arrumando bem os cabelos e separando sempre a melhor roupa intima,  pra despir-se pra ele, dando-lhe um sexo poderoso o suficiente pra fazê-lo esquecê-la,ainda que momentaneamente.images (2)

Antes de dormir, ele, sempre exausto pela dupla jornada do dia, sentia certa culpa por trair a esposa, que além de mãe, dona de casa maravilhosa, ainda sabia ser uma boa mulher na cama…

Mas quando pensava em largar a amante, dava pra si mesmo, mil motivos que justificavam mante-la .As dúvidas eram sempre as mesmas, e jamais chegava-se a uma resposta. Ele adormecia antes.

A esposa sempre o observava dormir, sempre frustrada  pelo orgasmo e carinho que nunca vinham ,mesmo diante de tanto esforço da parte dela. Sempre que o observava, sufocava o desespero que sentia só de pensar em perdê-lo pra outra mulher, que já tinha a melhor parte dele .

No outro canto da cidade, sempre estava ela,a amante, parada em frente à tv, um pouco cansada por conta dos acontecimentos do dia, lembrando com uma nostalgia triste, daquele dia em que eles se encontraram e havia tempo suficiente pra que fizessem algo além de sexo…E então ela pode acariciar os cabelos dele  e assisti-lo enquanto ele assistia qualquer programa bobo.

Ela,  lembrava das tardes regadas a orgasmos poderosos, das juras de amor que duravam o tempo do sexo, e de como tudo aquilo era ignorado quando saíam do quarto e escondiam a intimidade recém compartilhada. Era sempre bom, mas ela não estava feliz, nunca estava feliz. Era provável que ela tivesse a melhor parte dele,ela suspeitava isso. Imaginava possuir  os sorrisos, o romantismo, o jeito amável. Mas ela queria mais, queria o bem e o mal, queria o cotidiano, queria acariciar os cabelos dele a qualquer custo e poder andar de mãos dadas dizendo ao mundo que ela pertencia a ele e ele pertencia a ela…

E foi então que ela mesmo o amando, resolveu seguir a diante e esquecê-lo.

E ele que “não a amava”, sentiu. E ele que facilmente a substituiria,não conseguiu achar ninguém à altura.

Mudou, ficou abalado, abandonado.

E a esposa que odiava a amante, sentiu a ausência dela, e sentiu o desequilíbrio;

E o marido que poderia ser só dela, agora não seria de mais ninguém, e não havia mais bom humor, nem sorrisos, nem leveza. Estava tudo acabado, o casamento que já era como pregos na areia, desmoronou de vez,e não houveram filhos, nem boa esposa, nem ” viveram felizes para sempre” capazes de mantê-lo.

Estava acabado.

Mas não era o fim…

Ele foi procurar a antiga amante, que agora estava casada, vivendo todos os lados, vantagens e desvantagens da vida de casada.

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E ela nem por amor, nem por nostalgia,deu-lhe o mesmo benefício que ele a concedia;

Ela , nem por paixão, nem por gratidão, mas por vaidade e talvez por dor, sugeriu que ele fosse amante dela, que ele “Usufruisse só do lado bom que ela poderia oferecer”.

…Mas ele misteriosamente não topou, ele  simplesmente não quis.

Porque mais uma vez ele queria tudo: O bem e o mal, o riso e a tristeza,prazer e dor, a esposa e a amante…Queria absolutamente tudo que pudesse obter dela.

Porque ele a amava há um bom tempo e não sabia;

Porque ele sabia das coisas, e sabia que ter só o lado bom de quem a gente ama por inteiro, nem sempre é bom;

Sabia que ter só o lado bom de quem a gente quer absolutamente tudo, é pouco demais.

E  descobriu que o amor é essa coisa egoísta, da gente querer dar só o nosso melhor lado pras pessoas, mas querer tudo, absolutamente tudo, que o outro pode nos oferecer.

 

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