Auto- suficientes

Ela surgiu quando ele não precisava de nada nem de ninguém, e ele a amou justamente por se tornar tão essencial na vida dele.

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E ela o achou perfeito pra ser moldado conforme as vontades dela, enquanto ele a considerou tão completa, que precisava da ajuda dele.

E o amor existiu entre despertadores para as 10 horas das manhãs de domingo, e sexo com camisinha mesmo após anos de namoro;

Ele era a única coisa que ela não conseguia controlar na própria vida;

Ela era a única coisa que o despertava tristeza.

Ela o amava demais…

Ambos eram lindos. Ele porque a leveza com que levava a vida,transcendia o físico;

Ela porque tinha olhos lindos, que não passavam absolutamente nada, nem amor, nem ódio, nem felicidade, nem descontentamento, e justamente por isso, era triste, e justamente por isso eram belos;

Ele não era fisicamente perfeito, mas ninguém jamais ousaria chamá-lo de feio, ninguém jamais o consideraria feio. Era quase impossível;

Enquanto a beleza dela dava vontade de chorar, entristecia, pois era incrível como uma postura gélida, vazia, apática, poderia passar tantos significados.

E em pouco tempo, ele virou ela e ela virou ele.

E o olhar vazio dele a feria, e a tagarelice dela, o incomodava.

E ele que não precisava de nada nem de ninguém, achava que ela era a racionalidade que faltava na vida dele;

E ela , sempre tão certa, sempre tão reta, precisava consertá-lo, nem que fosse pra validar a própria perfeição.

algemas

E eis que entre cafés da manhã com pão de forma e longas jornadas em busca do cachorro quente perfeito,ela foi se iluminando, tão rápido quanto ele foi adquirindo uma aparência cansada.  Cansado da vida.

E ele que era tão defensor do próprio hedonismo, passou a acreditar que realmente deveria otimizar o próprio tempo,

Entre comida de microondas, suco em pó e planilhas de afazeres para o domingo, começou a economizar tempo demais, para gastá-lo com coisas que não proporcionavam lembranças;

E não havia tempo a perder, mas havia tempo demais pra levar uma vida sem grandes sabores, e ela se orgulhava tanto disso… Daquela coisa correta, higiênica, organizada…Se orgulhava de ter otimizado a vida de modo que, caso um dia achasse algo prazeroso pra fazer, ali haviam duas horas ociosas, milimetricamente pensadas para ocasiões espontâneas assim.

E a vida dele virou uma sucessão de cafés da manhã com pão de forma, almoços com suco de pozinho , jantares com comidas de microondas e sexo com gemidos baixos “para os vizinhos não ouvirem”

E ela estava se tornando displicentemente feliz, à medida em que o riso dele ia se tornando exatamente triste, absurdamente triste.

Ele dava vida pra ela, mas ela o matava pouco a pouco, e mesmo sabendo disso, mesmo sem precisar dela, ele permanecia. Na ânsia de ajudá-la, ele quem morria.

Mas ela ainda era ela e ele ainda era ele, e quando tudo parecia ser pra sempre, ele resolveu dar Adeus… Assim, do nada, terminar tudo. Terminar tudo porque ele a amava demais.

Ele a fazia tão bem, mas ela fazia tão mal pra ele, coisas do amor…

Mas um dia o que era eterno acabou.

E ela que sempre foi mais contida, foi a única que falou:

” Eu nunca te trai. Sempre fui fiel e leal a você”

E ele olhou pra toda ela, pro olhar eternamente vazio e soube que era verdade.

Chorou, mas não era de felicidade;

Chorou enquanto ela sorria num riso nervoso, nunca antes tão expressiva quanto aquele dia. Nunca tão argumentativa e tão desesperada…

E ele apenas chorou.

Chorou porque antes ela tivesse traído, antes transbordasse tesão por ele, por outros, pela vida…

Antes houvesse fogo demais, antes houvesse amor tão tamanho nela, que ela tivesse de distribuir por ai pra quem quisesse, pra qualquer homem…

Antes a traição desenfreada do que esse monte de nada, essa ausência de felicidade, de tesão, de leveza, que o contaminou tão miseravelmente, que ele até quebrou as regras que criou pra si mesmo, e que consistiam em ignorar qualquer regra, em seguir apenas o coração.

Foi essa ausência de arrojo dela que o deixou cheio de apatia…

E no fim iminente, ela tão completa e auto suficiente, perdeu tudo.

E ele a ajudou, a única promessa que ele cumpriu em toda a vida.

Dentre lembranças de um passado presente, com despertadores aos domingos, enlatados como banquete no almoço, sexo higiênico, paixões burocráticas e pão de forma no café da manhã( que triste isso), ele se despediu. E foi tão triste e tão dolorido, que trouxe alívio.

E que ironia, a tristeza dele foi embora junto com ela.

E ela carregou muito dele em si;

E ele carregou muito dela em si;

Mas continuam sendo exatamente os mesmos de antes.

O cara por quem ela se apaixonou, a menina de quem ele precisou, mesmo quando era completo.

E será tudo como foi um dia, quando ele deixar de ser ex marido dela e ela deixar de ser ex- mulher dele pra voltar a ser apenas ela.

 

 

 

 

 

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2 comentários

  1. Caramba, ótimo conto, ou cronica, como queira chamar, muito bom mesmo, me vi no personagem, sou meio assim, independente, auto-suficiente. O tolo é refém do coração, eu sou capitão da minha alma.

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