A viagem

As crianças estavam rabiscando as paredes de novo, mas quando perceberam que ele as observava, primeiro entraram em pânico,  depois o observaram absorto,  aproximaram-se  cuidadosamente e o beijaram na face, nos ombros e na cabeça, que tinha cabelos ralos mas não era careca,ainda.

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Tentavam de seus jeitinhos vãos, amenizar a surra que era sempre iminente em situações de travessuras,e esse era o tipo de ato que encantaria ou desarmaria qualquer avô. Mas o velho estava tão preso em si mesmo, que não esboçou qualquer reação. Manteve-se quieto, olhando pras paredes riscadas,assim meio sem olhar.

Mas a cabeça dele registrou o comportamento das crianças, e registrou inclusive as paredes rabiscadas mais uma vez . Ele poderia ter gritado, ou batido nelas como de costume, mas a situação toda o fez pensar que dessa vez ele simplesmente não se importava.poltrona vazia

Que triste. Dessa vez ele não se importava.

Na verdade a parede riscada não fazia a mínima diferença, quiçá carregava até uma beleza poética, peculiar.

Houve uma época porém, bem antes delas nascerem, em que tudo que ele desejou  foi que houvessem crianças barulhentas correndo e quebrando a casa inteira.

Houve uma época em que tudo que ele teve foram crianças barulhentas quebrando a casa inteira.

E tanto tempo se passou. Tantas vidas, tantas experiências, tantas lembranças dispensáveis, que deveriam simplesmente ser enterradas…

Quando os netinhos nasceram, ele pensou simplesmente que poderia ser alguém diferente com eles. Mas o tempo estava passando e pelo respeito, que na verdade era um medo velado, notava-se que estava tudo ficando igual. Não demoraria muito até que ele também se tornasse pros netos, algo tão insignificante e invisível quanto o sofá da sala;

Não demoraria muito até que ele se tornasse pros netos também, modelo de tudo aquilo que não deveriam ser.

Enquanto isso, era um alivio que ele ainda despertasse nas crianças algum tipo de sensação, algum tipo de sentimento.

Houve um tempo em que ele despertou nos filhos muito ódio, muita mágoa, muita revolta, muita repulsa.

E agora ele despertava apenas indiferença, mas misteriosamente isso não era uma evolução, era o pior dos retrocessos.

E a viagem estava próxima. Quando ele soube o quão iminente era tudo aquilo, avisou a todos com um pesar sincero, mas exagerado. Exagerado porque ele não estava triste . Misteriosamente ele não estava triste.

Na verdade, existia nele uma esperança estranha:

Diante da possibilidade mais que provável de que ele não os veria mais, acreditando que sensibilizados pela partida que ocorreria logo, os filhos e a esposa (que  companheira de décadas, se converteu em uma estranha completa), tornariam-se mais ternos, deixariam as diferenças, as mágoas totalmente releváveis de lado, e diriam que sempre o amaram ,que perdoam os erros pequenos, mas que somados nos anos, causaram um dano (quase) irreparável e queriam que ele simplesmente ficasse. Mas isso não aconteceu. Nunca aconteceu.

cadeira vazia

E quanto mais a viagem se aproximava, mais as coisas continuavam iguais ao que sempre foram. Nenhuma muralha derrubada. Nenhum pedido de desculpas, nenhum saudosismo, nenhum esforço pra criar memórias bonitas ou alguma resignação.

Ele próprio poderia fazê-lo. Ele poderia promover a mudança, pedir perdão, dizer que apesar de não ter sido sempre um homem bom, e apesar de ter despertado sentimentos totalmente dispensáveis em qualquer ser humano, amava os filhos e não fez nada por mal. Fez apenas do jeito que poderia fazer.Que sabia fazer.

…Mas não.

Ele sabia que sua condição não era desculpa para não tentar um lapso de humildade, mas decidiu apenas que já estava vulnerável demais, e que não era ele quem tinha que tomar o primeiro passo. Não era ele quem tinha que se expor.

Houveram olhares, e houveram palavras que saíram de dentro dos corpos e pararam na garganta.

Nunca foram ditas. images

E quando houve por parte dele, dos filhos, e até da mulher, algum desespero pela separação que ocorreria em breve, trataram de esconder até de si mesmos o quão desesperados estavam. Era tanta mágoa guardada, tanto sentimento mal resolvido, que o orgulho era a única coisa que queriam sentir. Todo resto, toda coisa que denotasse fraqueza, era esquecido. Nenhuma lágrima. Nenhum abraço.

Nenhum Adeus.

Um dia, quando os filhos levantaram pro café, antes mesmo do barulho das crianças invadir a casa, ele já tinha partido. Aquela poltrona, que era extensão dele, estava vazia.

Se houve qualquer sinal de pesar, de remorso, ficou escondido nas profundezas de cada um presente naquela casa. A esposa chorou. Mas não chorou de dor ou tristeza, chorou justamente por não conseguir sentir absolutamente nada.

Só as crianças choravam, e nem era de tristeza, era de confusão. Sentiam apenas que algo muito triste, muito errado estava acontecendo ali. E eles sim amavam o avô. Pois ainda não havia acontecido a ação do tempo, e o convívio próximo que é tão comum nas famílias, que poderia corromper os sentimentos mais puros.

E ele partiu, levando consigo mesmo as lembranças de uma vida morna, arrastada, onde não se amou, nem se odiou o suficiente. Se arrependeu amargamente do que fez com a própria vida, e com a vida de todos que estavam próximos dele.

Não se sorriu, nem se gritou, nem chorou.

Apagou-se aos poucos.

E as crianças  não têm rabiscado as paredes da sala.

Não tem graça, não existe desafio algum em fazer isso diante da poltrona vazia.

E que ironia é a vida: Aqueles que antes agiam frios como se não houvesse ninguém sentado por ali, agora choram diante de um móvel que nada mais é que um móvel, onde o pai,o marido, durante muitos anos esteve imóvel, insignificante, e indiferente, como a vida se encarregou de fazê-lo.

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