Facebook: O país das maravilhas

Ela tinha um compromisso, ele tinha um compromisso. Ambos iam pro mesmo lugar e o rapaz ofereceu uma carona que foi negada veementemente.

Posteriormente soube-se o motivo:

A tal moça, que tem o nome mais sujo que pau de galinheiro e não possui nem carro, nem casa, nem curso superior completo, disse que preferiria ir á pé a sujar suas roupas nos bancos de um carrinho popular.

Horas depois, a mesma tal  humilde,expressou no Facebook, junto de uma foto do taxímetro, a indignação pelo preço que pagou no transporte, que também não era essencial.

Ela reclamou do preço, e de fato saiu caro, especialmente pra quem está sem dinheiro, mas a parte do estar sem dinheiro ninguém nunca conta, porque essas realidades não tem graça dividir.

E é assim que a vida é.

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Todos nós talvez estejamos…E eu digo talvez por estar em dúvida sobre pertencer ou não a este grupo…

Todos nós talvez já nasçamos com um gene que diz que temos que viver para corresponder às expectativas dos outros à respeito das nossas próprias vidas, e certamente e provavelmente por conta disso, é que pessoas gastam tanta energia, tempo e dinheiro construindo uma imagem de ostentação à respeito de si mesmas, mas continuam com a conta no negativo,a faculdade trancada, o nome no Serasa, totalmente fodidas na eterna busca para encher os olhos de outras pessoas, e porque não dizer, muitas vezes encher os olhos de ilustres desconhecidos.

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Em tempos de Facebook, essa ostentação da felicidade ficou ainda mais latente, e não basta ostentar o carro do ano ou os jantares em restaurantes badalados de São Paulo:

É a competição pra ver quem é mais feliz,quem tem o noivo  melhor, a namorada mais gostosa, a vida mais interessante, quem é mais digno de ser invejado;

Quem vai pras melhores baladas, quem frequenta o lugar com mais pessoas bonitas, quem tem mais amigos, melhores salários, o melhor corpo, quem é mais cool, quem é mais genuinamente intelectual…

A felicidade, o amor, a auto valorização, a amizade, precisam ser validadas o tempo todo através do Facebook para tornarem-se um pouco mais próximas da realidade, e é nessa guerra exibicionista, que o mundo real e virtual se confundem e as pessoas perdem a noção, pra se alienarem numa vida forjada, espetaculosa em suas demonstrações, mas totalmente carentes de significados concretos.

Não é de se admirar a razão pela qual tantas pessoas estão vivendo o virtual, a vida é mais fácil por aqui: Todos são belos, cheios de amigos, até o mais feio carrega consigo uma rede de mulheres interessadas em sexo rápido e fácil, não existe dor e doença, salário que acaba, prestação atrasada do carro , faculdade trancada por falta de dinheiro e nem seguro de saúde cortado por falta de pagamento.87721_ext_arquivo O virtual tem tomado tanta importância , que as pessoas conscientemente estão se sedando do mundo pra assumir o personagem que criaram no Facebook , e que lhes garante uma sensação tão falsa e fugaz quanto o virtual, mas que tanto agrada alguns, que é aderida por muita gente.

A gordinha se torna peituda gostosa, o Nerd se torna o pegador, o assalariado se torna o cara cheio da grana, o jantar pago com o vale refeição , e que faz com que seu apreciador passe uma semana levando marmita pro trabalho porque o dinheiro acabou mais cedo… Ah, tudo isso tem grande preço no Facebook, todo mundo sabe que é mentira, mas todo mundo admira e todo mundo continua fazendo, numa busca desesperada por uma auto ilusão coletiva, um culto a uma vida que não nos pertence e nunca pertencerá.

Eu tenho mil amigos, minha mãe tem mil amigos, meu chefe tem mil amigos,até o anti-social tem mil amigos;

São mil amigos que não iriam na sua festa de aniversário;

Mil amigos que não te ajudariam caso você precisasse;

Mil amigos que passariam por você na rua mas não te cumprimentariam;

Mil amigos pra quem saímos pra festas, shows, jantares , esquecemos de curtir o momento pra tirar a foto derradeira, aquela que vai pro Facebook mostrar o quanto sua vida é feliz, bem aproveitada…

Mil amigos…

MIL AMIGOS QUE ESTÃO POUCO SE FODENDO PRA VOCÊ;

Mil amigos que também te vêm como um número, um papagaio, uma ferramenta de curtir posts, pra lembrá-lo que embora ele tenha achado aquele evento legal, agora ele sabe que foi legal de fato porque todo mundo curtiu o link, comentou, e compartilhou.

Todo mundo sabe que é fake, mas todo mundo continua fazendo, e quem sabe, nessa busca desesperada pra mostrar o que não somos e o que não temos, a vida se torna menos medíocre, menos dura, menos infeliz…

E quem sabe se fingirmos bem o bastante, conseguimos acreditar naquilo que é tão mal fingido que nem o mais leigos dos seres humanos , acredita.

Mas também ninguém fala…

Quem sabe se continuarmos mentindo, nós mesmos acreditamos no que contamos.

Quem sabe se mostrarmos pros outros, se validarmos pros outros, nos convencemos que nossas vidas não são tão tediosas quanto realmente sabemos que elas são.

Quem sabe!

Enquanto isso, deixa eu postar mais uma frase inteligente pra afirmar um intelectualismo que eu finjo que tenho.

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Tem gente que parece que acredita, e eu também finjo que me importo.

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3 comentários

    • Sim, muito provavelmente. Convenhamos que quando as pessoas estão ocupadas demais em atividades interessantes, não há tempo pra pensar sobre postar isso no facebook. O facebook é a falta de opção, e não a melhor alternativa.Qualquer manifestação exacerbada através dele, só mostra um ócio profundo.

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