O amor que eu não quero.

Eu almejei a liberdade por tanto tempo, que quando ela chegou me deixou tão atônita que eu definitivamente não sabia como agir. Me sentia à deriva, desprotegida, jogada em mar aberto.

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Se antes eu me sentia sufocada, então era tanta liberdade, que aquilo me aterrorizava.

Eu, e somente eu era responsável pela minha vida . Não havia mais a quem eu pudesse culpar ou com quem eu pudesse dividir o efeito colateral das minhas escolhas, e ter que lidar frente a frente com o preço pelos caminhos que resolvi guiar…Ah isso é desesperador.

Em quem eu colocaria agora a culpa pela minha infelicidade?

Ninguém. Não haveria ninguém.

Juro que quase voltei atrás, quase o procurei e implorei perdão, ou que me acolhesse, como aquela criancinha que foi deixada pela primeira vez com a babá e perdeu o centro do mundo só porque a mãe tava longe.

Mas aí eu lembrei da pessoa que eu era quando eu não era eu, mas a namorada dele. Lembrei do cenário triste que era minha vida e decidi que não queria ser aquela pessoa apática, inerte e infeliz de novo. Não sabia pra onde estava indo, tinha medo mesmo sem estar perdida, mas já tinha percebido que não tinha como voltar atrás. Era como se eu tivesse atravessado uma ponte que desmoronou logo atrás de mim, me dando como única alternativa seguir em frente.

Existe algo de muito triste nos relacionamentos longos… A proximidade é extremamente traiçoeira, nos faz conhecer as pessoas muito de perto, nos faz esquecer tudo que nos cativou.

E pessoas vistas de perto são como obras de arte vistas de perto, fica algo meio confuso, indissolúvel, você sabe que existe beleza  ali, mas não consegue identificar bem, não existe nenhum passo para trás pra que você possa olhar a coisa num todo e ver todas as camadas daquilo. Ver que cada ponto, ainda que imperfeito, contribui pra construção daquela obra ou daquela pessoa.

E o que é o amor num relacionamento longo, afinal?

Quantas e quantas vezes nos vimos parados olhando pra pessoa com quem dividíamos nossos dias, perguntando a si mesmos sobre o que fizemos de nossas próprias vidas, ponderando sobre o fato daquelas tardes tediosas provavelmente serem correspondentes a milhares de outras tardes tediosas que estariam por vir?

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Quantas vezes a liberdade, a paixão por outros, a proposta de sexo sujo e fácil e libertador, o frio na barriga e a novidade, estiveram tão tentadoramente próximos da gente, tão na iminência de acontecer, bastasse um “acabou”?

Quantas vezes imploramos aos céus por um conflito, uma briga, qualquer coisa que no fizéssemos sentir um pouco mais vivos, que nos garantissem um pouco mais de aventura em nossos relacionamentos morbidamente “calmos”?

Quantas vezes o tédio nos garantiu o mau-humor do dia, e pela falta de capacidade de enxergarmos nossa insatisfação diante da nossa vidinha medíocre, preferimos apenas inventar um capricho, uma vaidade, uma mentira boba que direcionasse a culpa de toda a nossa inércia pra cima daqueles com quem dividimos nossos cotidianos?

 

Ah e essa proximidade que mantém os corpos juntos e o coração tão distante?

Ah essa intimidade que nos transformou em imensos desconhecidos?

Ah esse amor a serviço da infelicidade nossa e DO OUTRO?

Existem dias frios, que me lembro de um amor com cara de comercial de dia dos namorados, de amor assexuado embaixo do cobertor, com guloseimas, filmes e barulho de chuva lá fora.

Lembro e quase dá saudade. QUASE.

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Mas então surgem dias em que presencio crises de ciúmes, não por amor ou medo de perder, e sim pra mostrar quem tem domínio sobre quem…

Pra mostrar quem manda na vida de quem;

Pra brincar sobre quem faz quem mais infeliz…

E existem dias em que a intimidade dos casais é banalizada, exposta assim deliberadamente, em qualquer conversa vulgar de mesas de bar;

…E é tudo sobre amor.

E há mágoas ,fragilidades e intimidades expostas assim, indiscriminadamente , humilhantemente, pra quem nem se importa;

…E é tudo sobre amor

E opiniões que não deveriam ser expressas a ninguém, nem pra nós mesmos diante de espelhos, são disseminadas em auto e bom som;

…E é tudo sobre o amor;

E a degradação mútua vira um joguinho sádico e pervertido, numa tentativa desesperada de reacender qualquer resquício de paixão;

E é tudo sobre amor;

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E existe obsessão, e um ódio que é amor transcendido, mas que ao mesmo tempo nada tem a ver com amor;

E existe uma troca de olhares que tem significado claro pra quem está dentro do relacionamento, mas não quer dizer nem sintonia nem conexão, ao contrário, é quase ódio;

…E é tudo sobre amor;

E ambos têm o mesmo brilho opaco nos olhos,  o mesmo sorriso amarelo na boca, e a mesma feição uniforme da infelicidade;

E ai eu vejo que se isso é amor, se é mesmo tudo sobre amor;

Se esse é o destino das relações, se todos têm que passar por isso na vida…

Ah eu quero morrer seca.

Se isso é amor, se é tudo sobre  o amor, eis o amor que eu abomino, o amor que eu não quero ter.

 

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