E se fosse Sim?

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Ouvia-se a buzina de carros lá fora. Ouvia-se os próprios motores logo após a parede de vidro.

Lá dentro o tilintar de copos, talheres, e conversas inaudíveis. O som dos dentes dela cortando a massa crocante da torta doce.

Era silêncio, mas não era constrangedor.

” TE AMO!”

Ele disse assim do nada, surpreso não só por ter dito em voz alta, mas pelo modo como ela o deixava relaxado à ponto de confessar isso tão sem querer.

E foi numa fração de segundos que ele pensou na veracidade do que disse;

E foi numa fração de segundos que ela saiu do transe em que estava, do acasalamento que mantinha com sua torta doce e pensou sobre como esperara por aquelas palavras, sobre como o correspondia, sobre como estava feliz, sobre como a vida dela mudaria.

Pensou em subir na mesa, em dançar a conga, em imitar um mico leão dourado com coceira, em cantar Sinatra, mas a única frase que conseguiu soltar com voz embargada foi:

” Você me ama? Claro que você me ama! Todo mundo me ama! Até eu me amo!”

… Mas ele não prestou atenção na voz que denunciava o nervosismo,e se condenou por ter se mostrado tão frágil.

Ele se despediu, ela se despediu, e foi a última vez que se falaram.

TGCGVBN

Mas ainda hoje, muito tempo depois, um lembra do outro, cada um em sua casa, nas noites de Verão, primavera e outono. E mesmo nas noites de frio cortante e desolador, quando estão totalmente sós, desejando tudo aquilo que um dia acalentou seus corações, eles lembram um do outro, lembram que era tudo verdade mas pensam que não, não vão se expor mais uma vez.

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II

 

…Ela era assim doidinha, de todos e de ninguém, e os dois eram algo além de amigos que transavam.

Ela já tinha nascido com malícia, mas a ele ela garantia que amava;

Quando o pedia em casamento em tom de brincadeira, ele respondia em tom de deboche, mas no íntimo torcia pra ser verdade. Ele amava também, mas ela estava ali sempre tão presente, tão fácil, tão disponível, que ele não via porque abrir mão da vida boa que tinha, das mulheres que tinha apenas pra ficar com ela.

Ela sabia disso, fingia que não se importava, mas não ser dele, era uma violência que ela cometia com si mesma quase que semanalmente, apenas pra ter migalhas daquele que ela tanto amava.

E eis que uma noite, num desses cenários violentos do Rio de Janeiro, ela viu a bala vindo em direção dele, e foi que sem nem pensar, se meteu na frente, e não houve saída.

Acertou na cabeça.

Nesses lapsos de consciência antes do branco, ela pensou sobre sua vida ali se esvaindo, ponderou sobre o quanto o amava ,e não se arrependeu em momento algum.

Não existia dor, nem sofrimento.

Ela faria tudo de novo.

Ficou em coma alguns meses. Durante esse período ele esteve tão preocupado com ela, que sequer olhou pros lados. Percebeu ali, no sofrimento, que ela era única,que a amava incondicionalmente.

Lembrou dela todos os dias, o dia todo, em cada situação, cada gesto.

E ela…

Bem, ela perdeu a memória, e não se lembrou dele nem naquele mês, nem naquele ano, nem na década seguinte, nem naquela vida.

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