Saia da guerra e faça com que a guerra saia de você

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Dia desses, num desses meus experimentos sociais, me meti numa cerimônia judaica. Era algo que equivale a uma missa pros católicos, culto pra evangélicos e assim vai. Lembro que na situação o Rabino falou sobre as pessoas que saem de Israel, mas não deixam Israel sair delas, e naquela hora, aquilo não fez o menor sentido pra mim.

Dia desses também, encontrei com um amigo de longa data. Me recordo que bem antes de eu tê-lo conhecido,isso há uns sete anos atrás, ele já havia sido “abandonado” pela mulher que ele amava. Na época até tentei aconselhar e trazer para aquele coração amargurado, o mínimo de serenidade, mas depois de tantas tentativas, amargurada estava ficando eu,  de ouvir sempre as mesmas lamentações sobre como a sujeita não prestava exclusivamente porque não correspondia meu amigo.

Dia desses também ouvi os desabafos de uma amiga, que sempre insiste em chorar sobre um antigo namorado, que foi morar no exterior e esqueceu dela. Daí soube notícias do rapaz, está bem sucedido financeiramente, casou , teve um filho e agora ele e a mulher esperam felizes pelo segundo pimpolho, enquanto minha amiga continua lá, estagnada na vida, chorando o fato de ter sido abandonada.

Dia desses reparei também no meu tio,que se negava a comer um prato de polenta, sob alegação de que quando era criança, era extremamente pobre, e que água fervida com fubá era a única comida que lhe restava. Diz ele que polenta lhe traz más lembranças, lhe traz tristeza.

Observei também um casal de irmãos, ambos à beira dos sessenta anos, mas brigando como se fossem eternas crianças, relembrando dores e ressentimentos de uma época em que eram infantis demais, sem sabedoria demais pra saber que aqueles erros não valeriam dores e ressentimentos.

E dia desses vi um senhorzinho, que havia sido general de guerra há décadas e mais décadas, e que sobreviveu, tinha se casado, tido filhos e até construído fortuna, mas que ainda assim, submetia a todos que viviam a seu redor, a todo o regime de quartel a qual tinha se submetido, e que mesmo tendo deixado claro através dos testemunhos mais cruéis e tristes sobre as perversidades que cometeu e presenciou, tratava de manter a memória não só de si próprio, como também de todos que com ele conviviam, acerca dos horrores que passou.

Ah.. Sim, ele fazia questão de manter sua casa em pé de guerra apenas pra que outras pessoas  soubessem quão infernal era o que ele tinha passado décadas atrás, num tempo tão remoto que nem mesmo ele lembrava e que vez ou outra, tratava  de inventar alguma memória apenas pra lembrar de onde é que ele vinha.

Dai então, aquilo que aquele Rabino disse noutra noite começou a fazer sentido pra mim.

Eu própria vivo alardeando por ai que nós somos um reflexo de todas as experiências que vivemos , de tudo que passamos, mas foi só quando eu olhei pra todas essas pessoas e analisei o quanto elas estão presas em algum lugar do passado, que percebi o quanto é errôneo esse meu pensamento.

A realidade é que somos seres humanos, e seres humanos mudam o tempo todo no mundo. Cada memória, cada dor, cada tristeza, cada atrocidade pelo qual passamos, deve servir de intuito pra que nos tornemos seres humanos melhores, seres humanos mais humanos, com mais auto- conhecimento, mais empatia, mais inteligência emocional.

Pra cada batalha que travamos, pra cada guerra que tivemos… Bem é preciso não só fugir da guerra, mas tirar a guerra de dentro de nós.

Não nos deixemos endurecer, não usemos um coração partido de anos atrás pra justificar  o porquê de termos nos tornado homens desprezíveis, que resumem todas as mulheres do mundo a verdadeiros lixos , só porque uma delas nos feriu;

Não sejamos a mulher dependente que colocou nas costas do ser amado o peso da felicidade dela, e que está abandonada, jogada no mesmo caminho onde foi deixada anos, não porque é frágil, e sim porque é fraca e porque encontrou o comodismo por trás da pena alheia, e dela se alimenta e utiliza de bengala pra cada vez que alguém a impele a sair da posição de vítima e promover a mudança pra si mesma;

Deixemos de ser os irmãos briguentos e rancorosos, cujo tempo não serviu de ferramenta de aprendizado pra que olhassem pra si mesmos e observassem o quão errôneos e imperfeitos são, e por isso mesmo passíveis de perdão, pra si e pra dar àqueles que os machucaram;

E acima de tudo, nos libertemos da nossa guerra interna, da auto -piedade, da pretensão, da arrogância e da amargura em achar que só porque nós tivemos feridas , vivemos coisas impensáveis, vencemos a morte a doença e a dor, temos o direito de apontar o dedo pra cara dos inexperientes e dizer que eles não sabem de nada, ou pior, obrigá-los a viver a dor, a guerra e o inferno que deveriam ter sido esquecidos anos, quiçá décadas atrás, mas que insistem em ser relembrados por todos aqueles  que passaram pela vida e por todas as situações adversas impostas por ela, mas não tiveram a sabedoria de deixar partir, de perdoar, de levantar e sacudir a poeira, e de abrir o baú de lembranças e jogar fora tudo aquilo que não serve, talvez até mesmo o baú, e seguir a trajetória carregando no bolso apenas o que é essencial pra que nos tornemos seres humanos melhores.

Fuja do inferno, mas acima de tudo, extinga o inferno que há em você, porque  a árvore que não  curva pros ventos, tem seus galhos quebrados, e falta de flexibilidade é coisa de quem passou pela vida, mas não passou.

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