Da caridade que não te faz bondoso.

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Certa vez me falaram de Adolfinha. Na verdade seu nome era Maria das Graças, mas ela própria não apreciava , então ficou conhecida pelo feminino daquele que seria o nome do pai.

Adolfinha era uma senhora distinta, frequentadora da alta sociedade, diziam na instituição onde eu trabalhava, que era das clientes mais generosas, doadora das maiores quantias. Tinha filhos e era viúva. Este último, dizem, morreu ainda jovem. Câncer, mas quem era próximo dizia que na verdade a causa da morte do pobre marido, foi um sapo,desses  imensos.Simplesmente entalou na garganta e de lá nunca mais saiu, matando assim o pobre coitado.

Certa feita, Adolfinha se dispôs a doar uma infinidade de roupas das mais caras e nobres , sob a condição de que um funcionário da instituição onde trabalho, fosse à casa dela e ficasse responsável por separar tudo aquilo que seria dado à caridade.

E foi assim que conheci a famigerada Adolfinha, mulher bonita, com seus cinquenta e poucos anos. Sua presença enchia sua mansão, a dinâmica mudava, os funcionários tornavam-se quietos e reclamantes, os filhos   se escondiam cada um em seu quarto, e o ambiente tomava um clima denso, pesado, chegava a ser claustrofóbico. E foi aí que percebi que Adolfinha jamais seria Maria das Graças. Era dessas mulheres controladoras e vaidosas, que mesclava seu tempo humilhando os empregados, quando não, exigindo deles as atividades mais esdrúxulas e fúteis, mas que tinham como único objetivo deixar claro quem tinha o poder e poderia se sobrepor a quem. Não interessava se a atividade não servia , pra nada, os funcionários tinham que seguir as ordens dela. E quando alguém insinuava que aquilo poderia ser algo atroz ou maldoso, Adolfinha defendia-se sempre, dizendo o quão bondosa era e o quanto ajudava as instituições de caridade, dando desde roupas, sapatos e até bolsas que lhe custavam o olho da cara.

Ás vezes suas maldades não poupavam nem os filhos, um  ela oprimia , emasculava e controlava de forma quase sádica e sem nenhuma finalidade, apenas pra mostrar seu poder de persuasão, a outra ela diminuía, menosprezava-a, fazendo-a sentir-se feia, burra e indesejável, convencendo-a que jamais seria digna de homem nenhum… Era clara até uma certa inveja da jovialidade da filha, mas Adolfinha dizia sempre que tratava-se de cuidado de mãe, e que mães jamais desejam mal aos filhos, ela fazia questão inclusive, de jogar na cara o quão cara era a terapia que pagava.

Adolfinha se achava muitíssimo sábia, mesmo quando via que suas ações prejudicavam e faziam os outros infelizes, mesmo quando percebia que se excedeu em suas exigências.

No fundo Adolfinha não era feliz, mas não via razão pra permitir essa dádiva aos filhos, se ela mesmo não provou. Adolfinha tinha pavor de ver as pessoas felizes, Adolfinha era dessas que reclamava de pegar o elevador com pessoas que não mostrassem ser diferenciadas e finas como ela, Adolfinha era dessas que estava sempre se certificando de que os pobres estavam “exatamente no lugar a qual deveriam estar”, Adolfinha era politicamente correta, pagava suas contas em dia e não sonegava impostos, reclamava sempre que odiava vagabundos, que pobre é pobre porque só quer mamar nas tetas do governo. Dizia que não tinha nada contra escurinhos, mas quando via um de dentro de seu carro, logo tratava de se certificar que os vidros estavam todos fechados bem fechados, a senhora Adolfinha também era dessas com pouca empatia, dizia que eram todos iguais, mas se um dia fosse necessário que uma de suas empregadas saísse dez minutos mais cedo pra aproveitar aquela carona pra casa, ela não permitia. A empregada poderia até ir embora no horário combinado, mas antes ela teria que se certificar de que as cortinas foram fechadas após o por do sol e as luzes foram apagadas. Veja bem, não era uma questão de ela não poder fazer, mas o que era justo era justo, e se ela pagava seus funcionários pra fazer, ainda que o que ela pagava não comprasse nem um par dos próprios sapatos, ah então tinha de ser feito, eram ordens apenas, a lei da vida: O mundo é composto de quem pode pagar e de quem tem que trabalhar, fodam-e as diferenças de oportunidades.

Convivi belos dias com Adolfinha, tendo que lidar com certo esnobismo e sarcasmo, lidando  constantemente, com o ambiente opressivo a qual ela submetia a todos dentro da própria casa, até os filhos. Adolfinha sempre queria dar uma de Zen, falar de bondade, de sabedoria, mas a sabedoria só deveria ser alcançada pelos outros, ela mesma já era uma criatura perfeita, suficientemente evoluída, acima do bem e do mal. Não era sequer necessário que olhasse pra si mesma.

E Adolfinha fazia muita, mas muita caridade mesmo. E pra ela era algo fácil, roupas caras das quais ela se livrava, afinal não repetiria nenhuma peça duas vezes, algumas centenas de reais em doações, e sua consciência estava limpinha, permitindo que ela dormisse bem, e que cumprisse seu dever social sem ter que contaminar nem com a tristeza, nem com a miséria da vida daqueles pobres escurinhos que ela ajudava, e que bradava serem iguais a ela, mas que tinha pânico de ter por perto, ou vê-los no mesmo patamar que ela estava.

E após fazer a limpa nos armários e mandar tudo para a doação, Adolfinha ia às compras na Europa, afinal uma mulher como ela, tinha que estar vestida à altura de que sua posição mandava.

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