Da minoria que é maioria

Com certa frequência tenho visto adicionada aos questionários de ficha de emprego, a pergunta sobre a cor de pele. Não consegui não achar no mínimo estranho, mas quando averiguei o assunto, descobri à respeito de uma cota pra negros também dentro de algumas empresas…

desigualdade

Não é preciso ir muito longe nem cutucar muito, pra ver  a forma como o abismo social é alimentado. A coisa toda começa ainda na tenra idade, basta comparar a educação a qual são submetidas uma criança pobre(e muitas vezes negra) e uma criança de classe média, passando pra adolescência de ambas, basta lembrar que enquanto a adolescente pobre teve acesso a um ensino deficiente, e a família dele não teve condições de pagar bons cursos, o adolescente de classe média já veio de ensino particular, cursos de idiomas e toda gama de ferramentas que possibilite a ele ser um profissional de sucesso, além do tempo e a falta de pressão em se virar pra conseguir dinheiro pra conseguir garantir a sub-existência. O indivíduo de classe média/alta, ignora tudo aquilo que nada mais é do que a crua realidade de um pobre suburbano.

E sobre o pobre adolescente.

É provável  que ele comece a trabalhar ainda muito cedo em um sub- emprego pra ajudar na receita da família;

É provável que ele tenha que conciliar faculdade e trabalho;negros

É bem provável que ele jamais fale inglês fluente, tampouco faça uma viagem pro exterior, quiçá uma viagem de avião.

É provável inclusive, que esse adolescente pobre jamais entre na faculdade, ou ao entrar, não tenha nem recursos nem conhecimento o suficiente pra concorrer ao vestibular em uma faculdade renomada…

No máximo ele ficará na média, no limbo, perdido dentre milhões de pobres   que trabalharam pra conseguir pagar os estudos, e o que receberam só era suficiente pra pagar aquela faculdade mediana cujo nome e credibilidade perante o mercado de trabalho, é nula.

Entremos no mérito também, sobre como o sistema trabalha pra que pobres permaneçam pobres e ricos fiquem cada vez mais ricos. Existe até mesmo uma cultura entre as pessoas mais humildes, que propaga a ideia de que qualquer pessoa que não tenha fibra ou não se envolva em trabalho braçal, é vagabundo. Não é nada incomum por ai, ouvir pessoas dizendo que os pobres “mamam nas tetas do governo, que as “bolsas assistenciais são uma fábrica de vagabundos”, e o coro de que pessoa digna tem mesmo é que trabalhar pra sobreviver, não importa como, é convenientemente alimentado pelos mais favorecidos economicamente, alheios ao fato de que existem uma série de fatores que corroboram pra que o pobre mantenha-se à margem da sociedade, ignoram toda a estrutura de vida dessas pessoas, fazem vista grossa pra toda conspiração que existiu pra que eles chegassem aonde chegaram.

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É alimentando a ignorância dos menos abastados, que cada um mantém a sua posição histórica:Os pobres envolvidos em trabalhos braçais, fazendo tudo aquilo que o rico despreza, enquanto o rico trabalha o intelecto que lhe garantirá inteligência e estratégias suficientes pra manter o pobre com mais serviço braçal, corpo ocupado e  a mente vazia, e manter a si mesmo no comando, na estratégia, no poder, sendo o cabeça do time.

Quando se tem que lutar pela própria vida, pela própria alimentação, não há tempo para pensar sobre nada, afinal, cultura não enche barriga, e é ai que a empregada doméstica vai continuar limpando privadas de ricos pra garantir a cesta básica, é ai que o pedreiro vai continuar construindo palácios á base de suor e sangue, enquanto ele próprio ganha uma miséria que não é suficiente pra erguer nem sequer um barraquinho.

A empregada já recebe uma miséria pra garantir o conforto das crianças que estudam pra ser o futuro do país, e para o próprio filho dela, não há futuro. Ao menos não um futuro promissor, não um futuro ao qual se deseje ávidamente.

Mas eis então que criaram cotas,as cotas pra negros inclusive.

..E eu entendo que elas visam amenizar o abismo  social que foi alimentado por séculos, e entendo também, que embora negro e pobre não sejam sinônimos, um negro na grande maioria das vezes, acaba também fazendo parte da lista dos pobres.images (8)

Entre medidas errôneas mas que garantem uma melhor distribuição de oportunidade, e entre ignorar o abismo social alimentado ano após ano, concordo que algo tem de ser feito,o ideal mesmo é que sejam criadas cotas para pobres, e ai sim as coisas serão distribuídas de forma mais justa, se esse pobre também for negro, então a missão será cumprida em dobro.

No entanto, estamos nas mãos do sistema, e o sistema é alimentado por todos nós. Por mais que exista todo um trabalho pra garantir que sejamos tratados com os mesmos direitos e oportunidades, por mais que existam cotas que certifiquem que uma quantidade X de negros faça parte do quadro de funcionários, existem pessoas que subvertem tudo, e cada vez que um negro, um pobre,subir no mais alto escalão de uma empresa com sistema de cotas, haverá por parte de todos os outros, o questionamento à respeito do mérito e da competência deste, e mais uma vez , ainda que estejamos misturados aos outros, estaremos ao mesmo tempo marcados, e entrará no balaio até mesmo aqueles que entraram porque tiveram uma vida que possibilitou cultura, estudos nas melhores faculdades e viagens internacionais.eike2

Infelizmente, ainda haverão séculos de história pra que os negros deixem de ser referencial de pobreza, para que os negros deixem de ser estigmatizados, sim, marcados como os miseráveis que precisaram de grande incentivo pra chegar no patamar daqueles que conseguiram “na raça”, marcados como aqueles que não são inteligentes o suficiente, sem que ninguém ao menos soubesse o quão mais árduo foi o nosso caminho. O quão mais difícil é a realidade daqueles que já nascem tendo que provar que possuem tanto valor e inteligência, quanto um branco rico ou classe média.

E porque não perguntar àqueles que se dizem injustiçados, que alegam ter estudado a vida inteira, que alegam ter mais cultura, educação e preparo… Porque não perguntar àqueles que protestam sobre o assistencialismo, se caso pudessem escolher trocar suas vidas pela vida de um cotista…Se o fariam?

No mais eu digo, que qualquer um que tenha a audácia de dizer que uma pessoa beneficiada por cotas ou bolsas assistenciais, são privilegiados, o título de cara de pau é o mínimo.

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