Sobre traídos, traidores e aquilo que não se revela pra ninguém.

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Embora comum e corriqueiro, o assunto traição sempre gera polêmicas e revoltas contra aqueles que se anunciam praticantes, à favor ou ao menos compreensivos com a situação.

Como boa observadora, nessas caminhadas sempre encontro casais de longa data, que vivem em harmonia e em uma paixão que ainda arde…Admiro.

Admiro mas evito olhar de perto demais e me deparar com aqueles detalhes que mostram que as coisas não são nem tão belas e nem tão perfeitas quanto parecem.

A realidade é que a maioria dos seres humanos  já se viu em um relacionamento onde já foi traído, traidor ou ao menos conivente com o tal “erro”. A impressão que tenho é que  mesmo nos casamentos onde há uma aparente tranquilidade, amor e harmonia, rola vez ou outra um chifre muito bem escondido pra dar uma apimentada, porque  a tendência é que com o tempo os casamentos virem relações fraternais, e mesmo no caso onde isso não acontece e existe uma paixão acesa, vejo algum tipo de entrave, de dificuldade que mantém o desafio e o prazer pra lutar pelo relacionamento. Me refiro aqui a casamentos focados no homem e na mulher, porque não é preciso ir muito longe pra encontrar casais que se dão bem porque na verdade estão longes um do outro, alienados cada um em sua tarefa e obrigação, ocupados com os filhos, com a hora extra até altas horas da madrugada e o boleto do apartamento novo pra pagar.

É uma serenidade meio triste essa de relacionamentos longos. Pra mim, “até que a morte nos separe”, é tempo demais, toda aquela calmaria do casamento, aquele abismo e distância que o convívio traz, são coisas muito tristes pra se provar assim, na flor da idade.

Com o tempo, parece que as pessoas se anulam da possibilidade da conquista,do friozinho na barriga, sedução, novidades, intensidade e tudo o mais, e acabam buscando isso fora, porque no relacionamento parece algo meio impossível de rolar. É como aquele arroz requentado que está na geladeira há quatro dias e cisma em se multiplicar. Podemos comer ao forno, com molho, com queijo, com legumes, frito como bolinho de arroz, mas nada muda… Continua sendo o arroz requentado na geladeira.

E são em situações assim, naquela fase do casamento em que penduramos as chuteiras e perdemos a vaidade por entendermos que o jogo está ganho, que uma traição bem pode ser positiva. Traz frio na barriga, traz brilho nos olhos, nos faz mais vaidosos…

Quando estamos entorpecidos de tanto comer chocolates, degustando apenas por gula, é que vem o copo d’agua e faz com que a próxima mordida no mesmo chocolate de sempre, seja deliciosa, única, como se fosse a primeira. A traição pode ser esse copo d’agua, pode ser através dela que temos contato com outras pessoas, experimentamos, comparamos e reafirmamos que a escolha que fizemos foi a certa.Pura e simples assim.

Mas a realidade é que as coisas são muito mais complexas do que uma mera fuga da realidade e da rotina. Um homem, diante  da possibilidade de traição, revolta-se imediatamente, pois fica implícito de que ele não é viril suficiente pra suprir a febre sexual de sua mulher. Existe toda a vergonha, a emasculação diante da sociedade, a chacota perante os amigos.

As mulheres costumam ser menos violentas e mais flexíveis diante de uma traição. Trata-se de uma educação tipicamente machista, entendem que a infidelidade é parte do comportamento masculino, e fazem vista grossa pra pulada de cerca do marido, odiando a rival, e rezando aos céus para que seja apenas sexo.Nada de amor, apenas sexo, só sexo.

Quando se coloca na balança a dor de ter sido traída, e a dor de cabeça que ocorrerá diante de um rompimento, é que se acaba engolindo o choro, esquecendo o passado e abrindo a mente.

E de fato, me parece que para o público masculino, na grande maioria das vezes a traição é apenas isso, sexo. A contradição de tudo isso, é que mesmo que a maioria predominante dos homens busque apenas transa numa traição, eles costumam não perdoar a puladinha de cerca.

Não é preciso ir muito longe pra ver que os homens, mesmo fazendo vista grossa pras próprias traições e pras traições dos amigos, condenam sumariamente qualquer mulher que assumiu o risco de provar outros corpos, e não existe discurso sobre igualdade, empatia e moralidade que dê jeito. Pra um homem , um outro homem trair é algo normal, comum, natural. Pra um homem, uma mulher trair é desvio, deficiência de caráter.

Não consigo deixar de achar que existe uma potencialização na gravidade das traições. Traição nada mais é do que quebrar um acordo pré estabelecido entre duas(ou mais) pessoas, e essas quebras de acordos existiram e existem em diversos níveis e diversos tipos de relações. O que faz com que a traição conjugal seja assim tão ofensiva, humilhante e degradante pra quem a sofre, está muito mais ligado á mania que nós seres humanos temos em transformar pessoas em objetos de nossa posse, do que no ato em si, porque a realidade é que por mais que amemos, por mais que achemos nossos parceiros os melhores entre os melhores do mundo, vez ou outra, a tentação da novidade vai mexer com nossa imaginação , e da vontade se fará a oportunidade , e da certeza da impunidade e da oportunidade, surgirá a ação, e então a traição estará feita, com o objetivo superficial e fugaz, tal como um orgasmo. E se o outro descobrir…Ah então o veneno terá se espalhado.

Sempre penso que quando um traidor é descoberto, o possível arrependimento raramente surge do fato de ter gozado com outra pessoa, mas sim do fato de ter sido descoberto, sim das sanções que sofrerá. E mesmo quando o traidor se sente envergonhado, essa vergonha se dá pelo fato de não ter correspondido às exigências e expectativas da outra pessoa, se dá pelo desconforto de não ter sido tão bom quanto supunha que seria, pra si mesmo e para os outros. Nada a ver com moralidades, nada a ver com culpa ou arrependimento pelos prazeres experimentados, tudo a ver com aquilo que você fez e que difere daquilo que deveria ter sido feito.

Eu por minha vez, acho muito mais benéfico e menos hipócrita, tentarmos olhar pra si mesmos, enxergar nossas humanidades, desejos e vontades e buscar um consenso que embora fuja dos conceitos de morais e bons costumes, ao menos sejam sinceros e façam a todos felizes, do que continuar fingindo que traição é algo anormal, amoral e típica de gente mau caráter, mas por baixo dos panos ser o marido que trai a esposa, a mulher que sai com o homem casado, a esposa que sabe que é traída mas prefere fazer vista grossa, o amigo que considera a mulher que trai uma bela de uma safada, mas corrobora com a mentira que o colega casado conta toda vez que dá aquela escapadinha pro puteiro…

Dentre essas  coisas de vaidades, aparências , vidas forjadas para ostentar pra quem não interessa…vestido-de-lady-di-casamento-por-imnrteiro

Dentre essas necessidades que o ser humano tem em ignorar o que lhe é nato, instintivo e essencial, e tentar se enquadrar no perfil de família comercial de manteiga,robozinho, cidadão de bem, propagado e imposto, eu quero mais é ser feliz, e porque não assumir que prefiro mil vezes um relacionamento aberto, onde assume-se os desejos vaidades e cobiças por outros universos, do que olhar pros olhos do “companheiro” saber que está sendo enganada, deitar a cabeça no travesseiro sabendo que está sendo enganada, mas sorrir perante os outros conservando um tradicional relacionamento fake, normal desde as épocas mais remotas, mas nem mesmo assim, extremamente fora de moda.

Entre o morno da normalidade, eu prefiro a ardência da transgressão.

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