Olha pro chão!

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Dia desses encontrei com uma amiga da época do colégio. Fazia um bom tempo que não a via, tratei de perguntar sobre as novidades e a parabenizei pela segunda gravidez já evidente. Enquanto conversávamos, ela intercalava a atenção entre mim e o filhinho pequeno, e a  atitude denotava um amor e cuidados sem tamanho, e via-se claramente que ambos estavam tão confortáveis com aquelas demonstrações explícitas de carinho maternal, que era evidente que aquilo em momento algum era forjado ou tinha intuito de parecer alguma coisa pra mim ou pra quem fosse. Me Surpreendi com o fato de que ela ainda trabalhava na mesma vendinha da época do colégio, isso mais de dez anos depois, e que evidentemente, o lugar não poderia lhe oferecer um grande salário, visto que oferecendo a ela algo razoável, não sobraria lucro nem pro dono.

Mais surpresa fiquei ao ver que o marido, era um homem tão simples quanto ela, e que o que eles ganhavam juntos pra manter a si próprios e os filhos, não pagaria nem minhas vaidades mais simples.

 

Não vou mentir que fiquei impressionada com a positividade dela, vivendo daquela forma, tão modesta , esperando um segundo filho, deixando claro que este tinha sido arduamente planejado. Eu no lugar dela estaria em pânico com a falta de dinheiro e de possibilidades em dar pros meus filhos absolutamente tudo que eles me pedissem, além é claro, de boa educação e cultura.

Fiquei olhando pra mim, que aos vinte e sete anos de idade, planejo tudo nos mínimos detalhes,pensando em como conciliar o tempo da natureza e meu tempo para não só me estabilizar ,como pra também conseguir um companheiro também bem sucedido financeiramente, e acima de tudo, amá-lo para assim finalmente conceber um filho fruto de amor verdadeiro, num ambiente seguro e certa de que o bebê teria tudo do bom e do melhor.

Dai me voltei novamente pra minha velha amiga que estava evidentemente  feliz e radiante, com seu filhinho feliz e radiante,e a vi naquele jeito esperançoso, com suas vestes simples, mas extremamente dignas, correspondentes com sua postura,o quanto ela estava feliz .Olhei pro menininho bem tratado e notei que ali havia o principal para se criar um filho: AMOR.

E percebi que pelo jeito que ela falava do marido, ali existia mais uma vez um componente essencial: AMOR.

Dai lembrei sobre diversos casais que namoraram por séculos, planejando a cerimônia perfeita, e que uma vez casados, compraram a casa perfeita, com a cozinha perfeita e o carro perfeito.

Lembrei também o quão bem sucedidos esses casais se tornaram, lembrei de pós graduações, altos cargos em empresas e vidas com todo tipo de artifício material que deixariam  qualquer pessoa intimidada;

Ponderei sobre  relações que se perderam, pois perdeu-se muito tempo tentando ganhar dinheiro pra comprar coisas não essenciais, pra mostrar a pessoas que não se importam, aquilo que não somos…

Pensei de brigas tolas por stress, manhãs  mal humoradas, tardes de sol economizadas pra poupar um dinheiro gasto pra comprar coisas exclusivamente dispensáveis…

Percebi quanto tempo foi gasto olhando pro futuro, correndo atrás do futuro, sem sequer olhar pro chão, pros pés, pro hoje…

Quantas lembranças  que não existiriam, quantos sorvetes que não foram tomados, quantas baladas que não foram frequentadas, quantas amizades jamais iniciadas, no intuito de economizar um dinheiro que pagaria coisas não essenciais, que não trariam nem felicidades e nem lembranças…

Quanto tempo planejando um futuro que não chegaria porque não se pensou sobre a qualidade do tempo presente,quanto amor acabado por achar que o dinheiro era mais essencial e mais prioridade…

 

E então lembrei que eu mesma tenho essa tendência de querer ganhar dinheiro , ter tudo do bom e do melhor, sem me questionar sobre quem criou o conceito do que é bom e melhor;

Lembrei que eu mesma quero ter coisas que talvez não supram qualquer carência minha, e almejo ter boa posição social pra dar ao meu filho qualquer brinquedo, vídeo- game que ele pedir…

E concluí  que todas essas ideias foram implantadas na minha cabeça e que definitivamente nem sei se isso é da minha essência ou não, nem sei se quero isso ou não.

Conclui que eu não preciso de um marido que me dê suporte para ter um carro caro, não preciso de uma casa planejada conforme a novela , não preciso de um alto cargo que me traga responsabilidades e extingua o tempo que eu tenho pra estar ao lado daqueles que amo.

Eu preciso de leveza, preciso de bom humor, de sorrisos, de momentos pra contar pros netos, de sentimentos genuínos.

E meu filho, ele não precisará de video- games caros, nem de uma mãe com carreira impecável que consiga pagar uma boa babá…Ele precisará de comida simples feita com carinho, precisará de proteção, precisará se sentir amado, precisará de lembranças ao meu lado, e esse é o tipo de coisa que o dinheiro não consegue comprar.

E é bom que eu sempre me lembre do sorriso da minha amiguinha de infância, pra quando surgir aqueles casais teoricamente perfeitos, de casa perfeita, carreira perfeita e vida planejada, eu me lembre das coisas que são essencialmente importantes e conclua que não, não é uma geladeira saindo gelo da porta, nem um brinquedo tecnológico, e que é bom lembrar sempre das coisas que a gente perde quando estamos ocupados demais ganhando dinheiro…

 

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