Sobre a solidão de ser livre.

E então um dia ouviu-se um canto livre, vindo de um pássaro de cores diferenciadas, de beleza tal, que decidiu-se apenas por cobiça que ele seria monopolizado.

E então, sem a menor ciência daquilo que era liberdade e de todo o seu valor,o pássaro se viu seduzido  pela proposta de um amor confortável,   aprisionando-se voluntariamente, aceitando de bom grado uma gaiola de ouro, em todo seu controle e segurança previsível.

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E demorou tempo até que o pássaro percebesse sua nova condição, e suas penas tornaram-se escuras, e até  o canto se fez triste,tornou-se triste o pássaro engaiolado, criminoso de si mesmo, coautor da própria miséria, entoando cantos cada vez mais belos pra seu dono, e cada vez mais tristes pra si, que entendia o real significado daquilo tudo.

A música acalentava um, sempre orgulhoso pela bela aquisição, e de como o pássaro evoluíra, tornando-se mais belo, entoando canções que o faziam chorar, tamanha a beleza do canto melancólico.E vez ou outra o pássaro revoltava-se com o egoísmo ,  e com o modo como se degradara. Mas quando notava que sua canção satisfazia ao menos seu dono, imediatamente se conformava.

E então um dia tal opressor apenas cogitou a hipótese daquele belo canto ser puro lamento, e ficou horrorizado por ter roubado o pássaro somente pra si.Resolveu libertá-lo.

O pássaro por sua vez, atordoado, sem saber quando  e como foi que foi pego, desta vez não soube lidar com a gaiola aberta e a possibilidade de ser livre, instantânea assim como o enclausuramento ,mas diferente da suavidade com que foi pego, sua liberdade foi violenta .

E então o pássaro viu um mundo diante dele, livre pra ser pombo, ou uma coruja, pra voar pra lugares mais quentes no verão, ou pra apreciar o frio em suas penas durante todo o inverno.

E a liberdade era tamanha, que o oprimia, e diante das diversas possibilidades, entre partir e ficar, cantar ou se calar, ele apenas estagnou, não sabia lidar com aquilo,ser livre já não lhe era inerente, nem natural.

Também não cantou mais, nem canções alegres, nem canções tristes.

Já não existia obrigação de se calar ou cantar, ele já sabia sobre as coisas da natureza e sobre as coisas da gaiola, e como se proteger dela, e já não havia ninguém por perto que poderia ser atingida por sua canção,a certeza de que poderia escolher qualquer caminho, o fez sentir-se perdido e ele ficou ali, num canto, em silêncio, nenhum pio,nenhuma música, até a eternidade.

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