O Mercadão de corações.

vazio
Sempre ouço criticas à velha mania de alguns seres humanos de se isolar, de buscar a própria solidão.
Os mais entusiastas alegam que é impossível ser feliz sozinho, que é egoísmo demais não querer compartilhar de si e da própria vida com outros seres humanos, que seres humanos são seres sociáveis, que nascem, crescem, vivem e se reproduzem;
Toda novela, filme ou sabe-se lá o quê, sempre conta com um casamento com muitos filhinhos no fim.
Toda a mídia, sociedade e família conspiram pra que sejamos seres sociáveis, dependentes do amor de alguém, metades em busca de suas almas gêmeas, e chega uma hora que mesmo quem é um solitário convicto, começa a achar mesmo que é um desalmado com coração de pedra e que o ideal é mesmo que vivamos ao lado de alguém que nos complete, ainda que na nossa cabeça, vivamos bem assim, e ainda não tenhamos reconhecido em nós o tal pedaço faltando.
Daí chega uma hora que mesmo os corações gelados resolvem se abrir e se fazer suscetíveis a uma nova paixão, e é nessa hora que as coisas começam a complicar.
A realidade é que enquanto uns alegam que tá foda namorar, que ninguém quer saber de nada sério, existe um grupo tão afoito e tão entediado da própria companhia, que tem feito desse lance de relacionamentos, um verdadeiro mercadão.
Procuram por mulheres e homens ideais,inteligentes, bonitos, trabalhadores, gostosos, cultos, bons de cama…E creiam amigos, não é difícil achar gente por ai com todas essas virtudes, aliás, desde que se procure no lugar certo, é relativamente fácil encontrar,e inclusive, muitos deles estão mega dispostos a namorar. O grande problema é que neste mercado de barganhas, exige-se muito, racionaliza-se muito e se esquece de algo essencial: PAIXÃO, AMOR, AMOR GENUÍNO.
Daí ficamos tão impressionados com o novo troféu que conseguimos pra mostrar pra toda família, dizendo quão belo, inteligente e bem sucedido é, que esquecemos de um elemento essencial, e se por ironia do destino a outra parte se interessou pela nossa pessoa, nos vemos como se dividíssemos com alguém um lindo e suculento bolo de chocolate.Enquanto a pessoa se delicia, gozando de cada pedaço, nós estamos de nariz entupido, sem sentir o sabor de uma ínfima cerejinha.
Assim como a metáfora do bolo, enquanto um degusta o outro apenas come, enquanto um ama o outro apenas está junto, enquanto um vive, o outro apenas existe, VOCÊ APENAS EXISTE.
Pois falta amor, meus caros,amor destes que nos deixam bobos e que nos faz sorrir e admirar até o defeito mais tolo, paixão dessas que simplesmente acontece, que não tem razão de ser.Não porque a pessoa recita Shakespeare, é doutorada em direito, ou tem um shape magnífico devido às horas de academia, mas sim aquela coisa instintiva, meio sem justificar, aquilo que a gente não controla e não entende muito bem, mas é real, embora não seja palpável nem fácil de racionalizar. Amor, paixão genuína, dessas de tirar o fôlego, de nos fazer emburrecer, de nos fazer errar.
Andam por ai criticando os corações gelados, que conseguem lidar muito bem com a própria solidão, mas arrisco dizer que estes seres um tanto misantropos são mais verdadeiros e mais intensos quando amam, porque é real, é a paixão que os tira os sentidos e as convicções, não é nenhum sentimento ensaiado, fabricado porque somos seres humanos e alguém nos disse que precisamos amar e fazer da vida uma busca incessante pela nossa cara metade.


Nós nascemos sozinhos, não cabe a ninguém nos salvar do nosso inferno pessoal,nós não somos incompletos e não precisamos de alguém pra suprir nossas lacunas.
Eu, uma desses corações gelados, me recuso a entrar no Leilão de Corações. Prefiro ser surpreendida, achar alguém que não chegue nem perto de ter todos os prés requisitos que eu criei(acreditem, até eu tenho uma lista de exigências), mas que saiba me encantar e me fazer suspirar, mesmo quando eu descobrir aquele defeito irritante, mas que na pessoa é extremamente gracioso.
Eu quero um amor de verdade, e esse tipo de amor, não está à venda e nem disponível em alguma prateleira de seres humanos perfeitos, esperando pra serem adotados e encontrar algum outro ser humano que preencha neles um vazio que não é preenchido nunca e por nada.
Eu até divido o bolo de chocolate, mas eu desejo me deliciar, me lambuzar,gozar em cada mordida.
A metade, o quase, o morno, ah isso não me serve, elefantes brancos são bonitos, são raros, são bons pra nos fazer sentir diferenciados, mas sinceramente, não são tão divertidos.

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