O misterioso caso da menina que infartou de tédio.

Era uma dessas tardes quentes de domingo. Havia vozes vindas da sala, mas por algum motivo inexplicável, ela quis ficar na cozinha, impecavelmente limpa, chão branco, móveis e eletrodomesticos de última geração. Um silêncio mórbido, que só não era total por conta do ruído da máquina de lavar louças, presente de casamento de uma tia avó.

Lembrou da rotina no trabalho, pensou no sábado que passara limpando o apartamento ainda novo e ponderou sobre o fato de que certamente seus pais estariam orgulhosos, ela estava sendo uma excelente esposa, “moça prendada”, como diziam por ai.

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Sorriu mas não foi de alegria. Levantou-se, viu a própria imagem refletida no vidro impecavelmente limpo de um desses guarda- comidas e voltou pra sala, afinal, do que adiantava ser excelente dona de casa se não é boa anfitriã com os padrinhos de casamento que vieram fazer uma visita depois de quase dois anos de casados?

Despediu-se de todos, com um saudosismo que faria crer que era a última vez que se falavam.

Estava acabando o Fantástico, e ela já tinha passado todos os cremes para pele, afinal, mulher que se preze, tem que cuidar da casa, do marido e tem que estar sempre bonita.

Cogitou sexo aquela noite, mas pensou sobre o fato de que teria que tomar banho depois, e passar creme hidratante no corpo todo mais uma vez.Sentiu preguiça.

…Além do mais, ele não estava cobrando absolutamente nada, então ela poderia apenas relaxar e se preparar para a rotina do escritório. Misteriosamente, as segundas feiras eram os dias em que ela mais gostava. Chance de renovação, de ver gente diferente, todo um mundo de possibilidades que a esperava.

Mas então ela se deitou , sentiu uma dor no peito e desfaleceu.

Acordou no hospital, com seu marido deitado em cima da cama, em posição fetal, chorando copiosamente, implorando a ela que não o deixasse pois ele seria nada sem ela, que sem ela ele simplesmente não viveria.

 

Quando ele notou que ela acordara, a presenteou com uma chuva de beijos e abraços. O doutor presente na sala, notou o desconforto dela com a situação e tratou de acalmar os ânimos.

Sentou-se ao lado dela, pegou-lhe as mãos e deu-lhe apenas um olhar, e nesse olhar havia uma seriedade que fez com que ela percebesse o quanto a situação era grave. Mas antes que o médico dissesse qualquer coisa, a mãe dela adentrou a sala, sentou-se na cama e se adiantou em dizer que já tinha presenciado casos assim, e que inclusive, infartar de tédio era algo que já havia ocorrido na família, mas que ela era uma moça de linhagem forte, que apenas estava enfrentando dificuldades para se adaptar ao casamento. Continuou dizendo ainda que a melhor cura pra essa doença, era engravidar muito em breve, e então uma criança a deixaria tão entretida e feliz com o dever de constituir uma família tradicional e feliz, que nunca mais ela teria qualquer sintoma desta doença maligna, que tinha inclusive matado algumas mulheres pelo mesmo motivo:

Infarto por marasmo agudamente tedioso.

O médico que ouvia toda a argumentação, olhou pra mãe dela com reprovação e olhou pra ela com a mesma feição séria de antes.

Não precisava que ninguém dissesse, ela já vinha pressentindo há tempos, se sentindo mal há tempos, esperando por aquele ataque de um jeito até mórbido.

Apesar da gravidade da doença, teve alta rapidamente. Voltou ao trabalho pra tentar se alienar da rotina do lar, e plenamente convicta de que seu fim estaria próximo, tomou a difícil decisão de preparar Adão, seu esposo, para  sua morte.

Ela sabia que ele não tinha jeito algum com nada, até se entristeceu em saber que o abandonaria com aquela casa impecável assim tão brevemente. Ela gostava daquele lar, gostava dos presentes, quando a mãe dela comentava sobre casamento, ela por um instante até acreditava plenamente naquilo.

…Mas por outro lado, havia nela uma espécie de alívio, alívio pela iminente morte libertadora. O menor vestígio de mudanças, não interessasse se positiva ou negativa, já a trazia uma espécie de alegria, uma espécie de leveza. E pra ela existia perspectiva mesmo na morte.

…E então nos meses que se seguiram, ela se concentrou a ensinar marido a ser alto suficiente, desde cozinhar todo tipo de comidas e quitutes,até mostrá-lo como se limpa uma casa e a como se vestir adequadamente para atrair a atenção do sexo oposto.Também o liberou para todo tipo de programa de homem solteiro, o fez com resignação.

Desejava absurdamente que ele fosse feliz e que pudesse superá-la logo.

Adão no entanto, percebeu o que havia por trás das atitudes da esposa, e fazia tudo para postergar a partida dela. Ele acreditava que quanto mais dependente ele se mostrasse, quanto mais coisas ela tivesse pra ensinar a ele, mais tempo ela ficaria por perto. Pra mantê-la motivada, tratou de arranjar pra ela resolver, os maiores problemas, comportava-se não mais como o marido, e sim como um filho pequeno que necessitava de cuidados extremos.

 Mal sabia ele que por trás de cada tentativa dele, existia um veneno que tratava de destruí-la pouco a pouco.

E os meses se seguiam, e ela definhava, e não havia padrinho, mãe , pai ou amiga que pudesse auxiliá-la, o fim era iminente.

Um dia ela sentiu a dor novamente, e percebeu que seria aquela semana. E então ela tratou de cuidar de toda a casa, lavar toda a roupa e congelar comida pra que Adão se virasse sozinho pelo menos por um mês. E foi assim que numa manhã despretenciosa de quarta feira, ela deixou o trabalho de lado e deu um salto para a liberdade.

Mas antes resumiu-se a deixar um único bilhete:

” Querido, te amo mas não te quero mais”

E desapareceu.

Até hoje ninguém sabe se ela definhou até a morte, pulou de uma ponte ou deu um tiro na cabeça. A mãe dela morre de vergonha por saber que criou uma filha “fraca”, é motivo de chacota na igreja ainda hoje:

“Como assim infartar de tédio?”- Ainda comentam.

E existem boatos que na verdade ela não morreu, que por pura sorte e milagre divino, curou-se da doença perniciosa e que viaja por diversas partes do mundo, carregando uma mochila onde ela guarda poucas mas valiosas coisas:

Liberdade, sonhos e auto suficiência.

E se ela soubesse que seria tão bom, teria morrido muito tempo antes.

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