Loucamente apaixonados.

Ela Tinha longos cabelos loiros, corpo escultural e olhos extremamente azuis. Também tinha lá um certo grau de inteligência, pelo menos o que pôde adquirir através dos livros. Era de poucos amigos, na verdade o excesso de convicção em si mesma fazia com que a considerassem “metida” e ela por si só era demasiadamente arrogante.
Aos vinte anos entrou na faculdade e conforme o tempo foi passando, o pai, que até então a protegia como uma princesa na torre, começou a ficar preocupado. Já corria na vizinhança o boato de que aquela moça tão linda não era muito afeiçoada a homens. As alcoviteiras invejosas diziam sempre que o lesbianismo de Anna Clara aflorou à partir da paixão que ela adquiriu por si mesma, era óbvio que ela só tinha olhos pra si mesma.
Mas o tempo passou e preocupada com a própria apatia, Anna Clara decidiu que era hora de arranjar um namorado. Começou a vasculhar dentre diversas possibilidades, aquele bonitinho que sempre lhe piscava nos intervalos das aulas, o instrutor da academia, o idealista da sala…E então finalmente achou seu homem perfeito. Se chamava Pedro. Era moço discreto, nem bonito nem feio,  já bem sucedido na profissão na qual ele nem mesmo havia se formado, inteligente e o custo benefício  Anna parecia bom. Ela apenas precisou se mostrar disposta e o convite pra sair e o namoro se concretizaram.

O pai dela respirou aliviado, a vizinhança, quando notou a novidade sobre a vida da metidinha, apostou que Pedro fosse rico, afinal um moço tão sem sal, conquistando uma mulher daquelas, certamente haveria de ter atributos aquém dos olhos alheios. Mas mesmo não sendo tão bem sucedido financeiramente, Pedro fazia por merecer o coração de Anna Clara, era namorado atencioso, sempre presente,  sempre atento.
Ela por sua vez, jamais estava satisfeita, buscava por algo que ela não sabia bem o que era. Fato é que, mesmo extremamente segura quanto à personalidade morna de seu namorado, Anna Clara apenas para afirmar seu poder, fazia questão de manipulá-lo cada vez mais.
Mesmo sem sentir ciúmes,  forjava crises constantes, revirava o celular do namorado em busca de ligações e mensagens que jamais existiram, monopolizava o tempo de Pedro de modo que ele não mais tinha oportunidades para os poucos amigos e família, se ele demorava pra chegar na casa dela por causa do transito, ela fazia questão de reclamar e mesmo sabendo que a culpa não era dele, sempre tinha disposição pra mais uma bronca, tinha assumido papel de mãe, e Pedro acreditava mesmo precisar deste tipo de auxílio. Anna Clara sempre tinha também boas críticas a fazer sobre o namorado, alegava que mesmo as porradas  crescimento e que fazia isso porque o amava, porque queria transformá-lo num homem forte e preparado para as coisas da vida.
Nas brigas onde ficava implícitos sempre a vaidade o caprichos dela, Anna Clara sempre ressaltava sua superioridade, sempre deixava claro que Pedro tinha sorte, pois sendo como ele era, jamais encontraria uma mulher tão boa novamente.
Pedro de fato agradecia aos céus por ter uma namorada tão bela quanto Anna Clara, mesmo alheio às críticas dos amigos, que diziam que a tal namorada era insuportável. Ele até tentou aproximá-la deles, pra mostrar o quão errados estavam, mas tudo que conseguiu foi convencê-los  ainda mais de que possuía uma namorada extremamente soberba e mimada.
Anna Clara por sua vez, já fazia as vezes de noivinha feliz, espalhando aos quatro ventos o quão fantástico era o namorado, o quanto ela o amava e quão magnífica seria sua festa de casamento. Ela sempre fazia questão de fazer inveja para as primas feiosas, mas alheias ao que Anna Clara pensava, as primas achavam mesmo que o que aconteceria em breve seria o casamento do “Cocô e cocozinho”.
Como as tentativas para unir amigos e namorada falharam, Pedro se isolou de seu grupo, aquele que ele conservava desde a mais tenra idade. Passou a dedicar-se exclusivamente à sua amada, tê-la como namorada era uma sorte grande, ele não poderia desperdiçar por conta de amigos invejosos.
…Mas eis que o tempo passou e Pedro começou a não achar tão bom o namoro com Anna Clara, começou a não se sentir tão feliz e nem tão sortudo, nem mesmo a beleza dela, que o deixava zonzo, parecia fazer a coisa toda valer a pena.
E pra piorar, surgiu uma mocinha nova no escritório em que ele trabalhava,não tão bonita quanto a namorada, mas de sorriso fácil e espirito leve. Misteriosamente aquela moça passou a encantá-lo simplesmente por ser tão desencanada e simples.
…E os meses foram passando e a vida de Pedro e Anna Clara era só os dois, do jeito que ela quisera e fizera por onde conseguir. Não haviam mais amigos, não havia mais futebol , nem reunião para jogar video-game. Pedro era só de Anna Clara, mas ela não estava feliz, estava constantemente entediada, de repente tudo parecia estar tão nas mãos dela que acabou perdendo a graça. E quanto mais infeliz estava, mais ela infernizava a vida dele, afinal ela não iria carregar o fardo da insatisfação sozinha.
Foi nessa época que ela teve a brilhante ideia de procurar brigas para a reconciliação. E assim as coisas pioraram 100%, ela tinha crises de ciúmes sem motivo algum, nas brigas ela dizia coisas que jamais deveriam ser ditas a ninguém, e Pedro, em toda sua pacificidade, passou a ponderar sobre o fato de não precisar dela pra absolutamente nada.
Numa dessas noites de sexta, resolveu se convidar para um happy hour, sim, se convidar, pois já havia negado tantas vezes que o pessoal do escritório nem chamava mais.

E foi então que ele sorriu, e bebeu, e dançou, mas não sem antes desligar o celular e se certificar de que não haveria nenhum diabinho de olhos azuis e cara de boneca ligando para censurá-lo. Naquela sexta ele estava experimentando uma felicidade que não experimentava há tempos e não queria parar.
Na mesma noite  Anna Clara fazia o que era de costume: Salão de beleza regado a conversas fúteis e monólogos dela, sempre ressaltando o quão obediente e fiel era o namorado. Foi nessa mesma sexta feira que ela decidiu que seria ótimo se o namorado fosse buscá-la, apenas pra mostrar para todas as mulheres o quão perfeitos eles eram como casal.

Já tinha comprado até o vestido de noiva, ansiosa para mostrar a todas, se aguentava, sabia que o êxtase teria que ocorrer no dia do casamento.Quando ligou para Pedro pra fazer o que ela fazia de melhor, mandar nele, imediatamente se deparou com uma caixa postal de celular e com um namorado não tão presente quanto costumava estar. Ligou pra sogra umas dez vezes, e na última a intimou a passar o recado pro filho. QUE FOSSE À CASA DELA O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL.
Pedro chegou em casa altas horas da madrugada, totalmente breaco e com perfume de mulher pelo corpo. Dormiu sem tomar banho e na manhã seguinte ao acordar, viu que estava fodido.
Tomou um banho, certificou-se que não haveria qualquer vestígio de putaria ou mulher alguma , até cogitou comprar flores e chocolates para pedidos de desculpas mas mudou de ideia, foi pra casa da noiva. Ele sabia o que lhe esperava, mas surpreendentemente, até pra si, ele não estava preocupado.
Ao chegar na casa da amada, foi recebido por um monte de gritos altos e estridentes, pra mostrar ao mesmo tempo que Anna Clara apesar de vítima da situação, era detentora do controle sobre tudo.Ela gritava e esbravejava pra mostrar a quem quer que fosse quem é que mandava.
Pedro ouviu placidamente todas as verdades que ele já conhecia. Manteve-se calado, até o momento em que ela o olhou nos olhos e fez a pergunta fatídica. Quando ele respondeu afirmativamente , ela apenas o olhou antes de sair porta afora, correu pra rua e lá quebrou o carro dele todinho, sim, aquele carro do ano, cujas prestações altíssimas ele não tinha acabado de pagar.
A vizinhança riu alto, tirando onda com o fato de que a princesinha metida não negava as origens, era barraqueira como muitos por ali.
Pela primeira vez na vida, Pedro perdeu a paciência, praguejou alguns palavrões, entrou pra casa de Anna, pegou o vestido de casamento que já havia sido entregue, jogou no meio da sarjeta, cuspiu, rasgou e pisoteou.No fim das contas foi embora com seu prejuízo.
Na semana que se seguiu, divertiu-se um pouco mais nos braços da mocinha do serviço e sequer lembrou da ex namorada pois estava muito ocupado sendo livre.
O Sogro dele por sua vez, estava puto da vida, vinha investindo alto na festa de casamento que calaria a boca de toda vizinhança fofoqueira e agora o pilantra do genro tinha cagado no pau e colocado tudo a perder.
Anna Clara estava como sempre apática, pouco incomodada com o fato de ter sido traída. Na verdade, ao descobrir pela boca do próprio namorado, adquiriu por ele uma espécie de admiração esquisita, achou ruim ele ter sido tão ousado somente numa circunstância dessas, gostaria de ter conhecido um Pedro mais desafiador em outros momentos do namoro, não ousou procurá-lo porque tinha plena convicção de que ele voltaria.


…Mas então as semanas passaram e os comentários da vizinhança davam rumores de que o rapaz de fato aproveitou a boa chance pra se livrar daquela insuportável de olhos azuis, e Anna Clara começou a ficar preocupada com a indiferença do ex namorado, não por medo de perdê-lo, não por mágoa, não por amor, e sim porque ela,do alto de sua beleza e inteligência, não poderia ser dispensada por um Nerd Feiosinho feito o Pedro.
Mas as coisas ficaram ruins mesmo quando ela o procurou e ele não quis saber de reconciliação, e pioraram de vez quando mesmo usando as mesmas verdades e deixando claro pra ele o quanto ele precisava dela, ele não se mostrou disposto a voltar, aí sim as coisas viraram um inferno. Como pedro ousava deixar de ser o brinquedinho dela?
Ela passou a ligar pra ele frequentemente, não por desespero, mas se ela não estava feliz, ele não poderia estar.Também Passou a esperá-lo na casa dele logo após o trabalho, aproveitou pra falar umas verdades pra sogra, ressaltando que o fato de pedro ser um frouxo, ser culpa totalmente dela que não soube educar.

Na verdade mesmo, ela surtou de vez quando viu que ele tanto experimentou que gostou mesmo da outra mocinha, e quase morreu ao ver que a outra era fisicamente muito inferior a ela, daí foi muita humilhação, daí ela não estava feliz.
Partiu pro tudo ou nada, ia dar um susto nele, ia fazê-lo sentir-se culpado.

Chegou em casa, abriu a caixinha de remédios e tomou todos que viu pela frente, não havia distinção de cor, tamanho ou indicação.
Foi parar no hospital, a família enlouqueceu, o pai quis matar o Pedro, a vizinhança teve orgasmos múltiplos ao ver a metidinha se foder de verdade.
O Pedro ficou sabendo da loucura da ex, decidiu que aquilo já não era mais de sua alçada, desejou apenas melhoras. Anna Clara ficou bem no fim das contas, perdeu uns dez quilos, não em decorrência do rompimento e sim em decorrência dos laxantes que estavam na caixinha de remédio. Haja lavagem intestinal!
Os ex namorados chegaram a se encontrar num futuro próximo. Pedro estava mais bonito fisicamente, voltou a jogar futebol com os amigos,o brilho da felicidade lhe deu um olhar saudável.

Anna Clara estava demasiadamente magra, dez quilos a menos não fez mais bela quem era fisicamente perfeita.
O vexame na vizinhança serviu pra alguma coisa, a mulherada se compadeceu da dor dela, e ela, de mocinha metida, virou das amigas mais populares, saem todas juntas pra baladinha.
E ela espalhou por ai que é uma nova mulher, que teve um cafajeste na própria vida e que com ele aprendeu muito. Tava cansada de ser certinha e não ser valorizada, agora ela quer mesmo é ferver!

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