Sobre chegadas, sete dedos em cada pata…E despedidas.

Costumávamos passar a tarde juntos, num universo onde eu poderia ser quem eu quisesse, princesa, bruxa , dragão, fada. Ele acreditava em qualquer faceta minha, ele comprava qualquer ideia minha. Talvez por isso eu tenha crescido um tanto egocêntrica, achando que no mundo eu seria tão amada e admirada pelas coisas simples, pelo que era tão de mim.

Dias  de sol, dias de chuva ,extremamente barulhentos, ou tardes insuportavelmente quietas, sem silêncios constrangedores.

Não havia silencio constrangedor.  A gente se calava e se olhava como

quem diz ” sim,  eu te entendo” e é assim que era.

Quando o mundo não era bom o bastante pra mim, quando alguém tratava de me lembrar que eu era uma Creep louca e solitária, eu voltava  pra casa e lá estava ele pra me dizer que eu era foda, e daí eu tinha que ser tão boa quanto ele achava que eu era, porque eu era tudo que ele tinha…

E ele, bem, ele tinha sete dedos  EM CADA PATA!

Que cachorro tem sete dedos em cada pata?Não havia dúvida alguma de que ele era um cachorro excepcional, ele era o meu cachorro!

Abria portões, fechava portas, roubava carne no açougue, enterrava pão duro nos vasos de planta no quintal, e desenterrava após uns meses. Decidiu por conta própria que eu deveria ter uma coleção de chinelos , e  a cada passeio seu,  trazia um pé diferente, diferentes cores, tamanhos, às vezes o pé esquerdo, às vezes o pé direito, com muita sorte eu conseguia montar um par com a mesma numeração, mesma cor? Esquece! ai já é pedir demais, né?

Provavelmente você deve estar esperando eu contar algum episódio excepcional sobre ele, mas esta história não é sobre cachorros  protagonistas de filmes, é apenas sobre seres que chegam e vão embora.

Por que estou falando do cachorro? Oras, porque foi ele quem me ensinou sobre isso!

Imagine você que um dia  ele não levantou pra me acompanhar até o ponto de ônibus, nem comeu o pedaço de laranja que eu, como de costume ,tinha  reservado pra ele. Também não me buscou no portão, e mal abanou o rabo quando eu cheguei.

Eu ordenei que ele reagisse, que ele levantasse, que ele lutasse,mas ele me olhou como quem diz  “Estou velho!”

Velho? Mas eu ainda estava tão jovem! Por que nosso ciclo de vida não poderia ser igual? Seríamos invencíveis caminhando pela terra até os dias mais remotos!

Bom, ele não pareceu se animar com meus planos. E então eu olhei pra ele , com aquele olhar que nós trocávamos, silencioso mas não constrangedor, preparei minha melhor feição, deixando transparecer que não estava brava e nem triste e disse que ele poderia partir, que eu ficaria bem, que o perdoava por estar seguindo viagem tão brevemente.

E ele se foi, apenas fechou os olhinhos e partiu. Eu nem sempre tenho conseguido ser a humana fodástica que ele achava que eu era, mas até que me esforço, sabe?

E eu fiquei realmente só,  só não sei dizer se isso era bom ou ruim, fato é que estou viva.

E naquele dia aprendi não só que combinar Havaiannas azuis com as de cor de abóbora pode ser Cool, mas também aprendi sobre o tempo e a dinâmica da vida,  aprendi que nossa caminhada é solitária, que vez ou outra, pessoas legais cruzarão nossos caminhos, às vezes nos ensinarão muito, às vezes apenas nos entreterão, às vezes mudarão uma estrada, ou partirão com a mesma forma insignificante com que chegaram, mas a nossa trajetória é sempre solitária e não podemos esquecer deste grande detalhe, ou podemos estragar tudo.

Caminhos que se cruzam, que correm paralelos, ou pra lados opostos… No fim só pertencemos a nós mesmos.

E quando a minha caminhada chegar ao fim, imagino eu, haverão lições valiosas sobre coisas fúteis, ou aprendizados inúteis sobre coisas essenciais e talvez  eu possa pensar: “Como pude?”

…Mas não deveria haver dor, nem choro, nem tristeza.

É uma despedida, mas não importa, a única certeza da vida gira em torno de “Olás” e “Adeus”.

Maradona , onde você estiver, eu te amo!

E este não é um texto de despedidas, é um texto de boas vindas. Entre e fique à vontade.

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4 comentários

  1. Simplesmente tudo o q eu estou sentindo nesse momento, conseguiu descrever exatamente a mesma relação q eu tenho com a minha amiga, os olhares em q não precisamos falar absolutamente nada pq sabemos o q a outra está pensando, é a despedida doi, e eu não estou preparada 😦
    Eliane

  2. Impossível não emocionar-se com essa leitura tão rica, tão cheia de sentimento verdadeiro.
    Fifi, Rusky… Amo vocês pra sempre! ❤
    Só que já teve um amigo de quatro patas sabe o que é amizade verdadeira!

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